terça-feira, 11 de setembro de 2018

"Andar para trás"


José TOLENTINO MENDONÇA, ANDAR PARA TRÁS, Expresso. A Revista do Expresso,  n. 2389, 11.08. 2018, 92.

Andar para trás pode ser enquadrado como uma disciplina desportiva. Em vários países há mesmo campeonatos concorridos e heróis celebrados disto que se chama retrolocomotion e que, quando exercitado em passo de corrida, vem descrito como retrorunning ou backwardrunning.  Não faltam, nas páginas da especialidade, dilatados encómios sobre os benefícios fisiológicos e de bem-estar que a introdução desta prática pode trazer, embora seja impossível não os temperar também com os riscos que calculamos (ou que tememos) lhe estejam associados. De facto, a expressão “andar para trás” faz ativar, quase naturalmente, os nossos sensores de perigo. O instinto de defesa sai em nosso auxílio. Algo de profundo em nós nos diz que fomos feitos para andar em frente, onde garantimos um controlo ajustado das contingências do caminho e asseguramos mais facilmente a estabilidade da travessia. O nosso trânsito conta com o mundo visível e faz parte dele. Por isso, num ensaio que escreveu sobre pintura, mas que é válido para quase tudo o resto, o filósofo Maurice Merleau-Ponty recomendava: “É preciso tomar ao pé da letra o que nos ensina a visão.” E continuava explicando que o nosso movimento não é nem uma decisão teórica nem um decreto subjetivo: ele é, sim, “a sequência natural e o amadurecimento de uma visão”. A nossa anatomia humana tem inscritos os olhos no plano frontal, e dessa colocação depende parte significativa da nossa experiência concreta do mundo e da nossa compreensão da vida. É humano sentir que nos deslocamos para a frente, que evoluímos, nos desenvolvemos, maturamos e transcendemos. Desejamos isso para nós próprios e para os que amamos. E, de certa forma, tudo nos prepara para que tal se efetive: as nossas melhores expectativas, a organização social, os conhecimentos que adquirimos, as idealizações que fazemos sobre aquilo que a existência há de ser.

Contudo, nenhuma vida humana pode ignorar o que significa “andar para trás”. Essa espécie de inversão de marcha bate-nos muitas vezes à porta por uma dor, pela notícia inesperada de uma doença ou de um luto, pelo baque seco de um fracasso ou de uma desamparada contrariedade com que não contávamos. Toma conta de nós quando, apesar de todo o investimento e esforço, um determinado propósito se revela inacessível ou estéril, trazendo associado um custo de sofrimento que pede uma resistência maior do que as forças que temos naquela hora. O “andar para trás” faz-nos, de repente, percecionar a realidade que nos cabe como um estranho puzzle sem encaixe possível. E a verdade é que, em certas etapas, temos de aceitar que a existência é também desencaixe, áspero enigma do qual não podemos desistir, mas que devemos aprender a abraçar com esperança. Pensávamos que a vida se resolveria de um modo, e não, ela move-nos noutras direções. No final do processo, perceberemos que “andar para trás”, com tudo o que trouxe de convulsão e sofrimento, também nos humanizou. É como se a vida nos quisesse dizer coisas que ainda não havíamos escutado. Por tudo isto, gosto muito do livro de Adília Lopes, intitulado “Apanhar Ar” (Assírio & Alvim, 2010), e do modo como os pequenos poemas se desdobram à medida que os lemos. É um livro que toma para sua arquitetura o repto de uma religiosa belga, soeur Emmanuelle, que dedicou a vida aos mais pobres dos  pobres, em bairros de lata no Egito: “Renuncia às coisas inúteis/ e partilha.” À luz desse aforismo, Adília constrói um outro, e que creio ser um dos mais belos que a literatura nos pode oferecer: “Na vida e no poema/ dar menos um passo.” Talvez o infinito esteja mais patente no humilde e silencioso recuo que a vida desenha do que nas formas ufanas do chegar-se à frente.

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