José TOLENTINO MENDONÇA, ANDAR PARA TRÁS, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2389, 11.08. 2018, 92.
"Ninguém escolhe o país em que nasce: mas decidir ficar é um acto de amor. E de vontade de reinventar novos futuros", Adriano Moreira, 'Da Utopia à fronteira da pobreza'
terça-feira, 11 de setembro de 2018
"Andar para trás"
José TOLENTINO MENDONÇA, ANDAR PARA TRÁS, Expresso. A Revista do Expresso, n. 2389, 11.08. 2018, 92.
Andar
para trás pode ser enquadrado como uma disciplina desportiva. Em vários países
há mesmo campeonatos concorridos e heróis celebrados disto que se chama retrolocomotion e que, quando exercitado
em passo de corrida, vem descrito como retrorunning
ou backwardrunning. Não faltam, nas páginas da especialidade,
dilatados encómios sobre os benefícios fisiológicos e de bem-estar que a
introdução desta prática pode trazer, embora seja impossível não os temperar também
com os riscos que calculamos (ou que tememos) lhe estejam associados. De facto,
a expressão “andar para trás” faz ativar,
quase naturalmente, os nossos sensores de perigo.
O instinto de defesa sai em nosso auxílio. Algo de profundo em nós nos diz que
fomos feitos para andar em frente, onde garantimos um controlo ajustado das
contingências do caminho e asseguramos mais facilmente a estabilidade da
travessia. O nosso trânsito conta com o mundo visível e faz parte dele. Por
isso, num ensaio que escreveu sobre pintura, mas que é válido para quase tudo o
resto, o filósofo Maurice Merleau-Ponty recomendava: “É preciso tomar ao pé da
letra o que nos ensina a visão.” E continuava explicando que o nosso movimento
não é nem uma decisão teórica nem um decreto subjetivo: ele é, sim, “a
sequência natural e o amadurecimento de uma visão”. A nossa anatomia humana tem
inscritos os olhos no plano frontal, e dessa colocação depende parte
significativa da nossa experiência concreta do mundo e da nossa compreensão da
vida. É humano sentir que
nos deslocamos para a frente, que evoluímos, nos desenvolvemos, maturamos e
transcendemos. Desejamos isso para nós
próprios e para os que amamos. E, de certa forma, tudo nos prepara para que tal
se efetive: as nossas melhores expectativas, a organização social, os
conhecimentos que adquirimos, as idealizações que fazemos sobre aquilo que a
existência há de ser.
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