quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Delírios do quotidiano (II)


Por um lado, Yu Hua, em China em Dez Palavras, dá-nos retratos de memórias delirantes, pitorescas, permeadas de um humor trágico-cómico sobre os dias da China que viveu, durante a Revolução Cultural, nos quais o culto de personalidade e um totalitarismo do qual não escapa o recanto mais íntimo (do qual a vigilância surreal sobre a linguagem não é pequena coisa) ficam bem patentes. E dar-nos esse retrato, esse contexto, esse pano de fundo do passado é um fim em si mesmo. Por outro, quando invoca inquéritos de internet, mais ou menos participados mas nos quais uma percentagem mirabolante de chineses (que a eles responderam), nos dias dos anos 2000, pretende o "regresso" de Mao, uma geração que mal o conhece o pretende ressuscitar, quando os anos de Mao - e ele descreve o grotesco com fina ironia, como vimos (no post anterior) - foram o que foram - um "ressuscitar" de tal figura que faz, obviamente, lembrar as vitórias de Estaline como o "maior russo de sempre", ou, mesmo, entre nós, de Salazar como "o maior português de sempre", em concursos televisivos, que, como costuma dizer-se, "valem o que valem", como o dito inquérito online, e as anedotas que circulam, via sms, pelo país, na China, acerca do modo como a moral, os bons costumes e a economia melhorariam a olhos vistos se Mao regressasse -, o que quer, ao mesmo tempo, é denunciar a China do final da primeira década de 2000 (quando o livro sai): "muitas pessoas sentem agora uma certa nostalgia em relação aos tempos de Mao. Penso que, na sua maioria, se trata apenas de nostalgia, e não de um autêntico desejo de regressar àquela época. Para estas pessoas, apesar da pobreza e da opressão, não existia a cruel competição pela sobrevivência que hoje se verifica. Havia apenas a luta de classes, mas era então uma luta vazia, pois na realidade já não existiam classes sociais na China, e assim este combate ficava apenas pelas palavras de ordem. Todos viviam de forma bastante igualitária, pobres, mas com o mínimo para sobreviver, e bastava ter cuidado com as palavras e as ações para viver uma vida sem grande ansiedade. A China é hoje completamente diferente. Uma feroz competição e pressão fazem com que a sobrevivência de muitos chineses se assemelhe a uma guerra. Neste contexto social, generalizam-se situações em que os fracos são presas fáceis dos mais fortes, ou em que as pessoas recorrem à força para defenderem a sua posição em em que poucos hesitam em praticar a vigarice e a fraude. Deste modo, é comum observar-se pessoas honestas e cumpridoras serem vencidas, e vigaristas e burlões alcançarem o sucesso. A transformação dos valores e da ética, associada à nova distribuição de riqueza, provocaram um processo de atomização social, que por sua vez originou inúmeros conflitos sociais. Hoje a China tem verdadeiramente classes sociais, e também luta de classes" (pp.31-32).

Em 1989, a quando da manifestação dos estudantes na Praça Tiananmen, em Maio, levando a um apoio maciço da população de Pequim, com a luta contra a corrupção no topo das prioridades (mas na agenda dos estudantes estava também, e de que maneira, a exigência de Liberdade e Democracia), numa altura em que a cidade parecia de "fraternidade universal" (os reformados, mesmo pouco remediados a levantarem poupanças para ajudar os estudantes manifestantes), a cidade sem "forças da ordem", e quando rapidamente o regime passou à repressão com balas, fazendo tábua rasa do que ali se passara, com a exibição televisiva, sistemática dos presos (estudantis), e imediatamente o apagar de tudo quanto ali se passara (em Outubro, diz Yu Hua, quando regressou à Universidade, já não havia vestígios de nada, e pessoas que participaram, tal a denegação imposta pelo regime, acabaram por esquecer aquele momento em que a palavra povo ainda parecia ter algum sentido), Yo Hua não antecipava a passagem da febre da política para a febre do dinheiro - a única coisa que contava nos anos 90, na China, diz-nos -, nem que a corrupção, mesmo na Justiça (um sistema de petições, à margem desta, para resolver litígios funciona naquele país), viesse a ser tão grande.

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