segunda-feira, 3 de setembro de 2018

Em política, o que parece é (e a questão da PGR)


Se em política o que parece é, e face os comentários vindos de pessoas que são figuras de relevo da actual maioria que suporta o Governo português, fica-se com a ideia de que a actual Procuradora-Geral da República incomoda o PS. Ora, se, nos últimos anos, os portugueses, por uma vez, tiveram a noção de que a Justiça investigou até ao fim, sem olhar e temer quem investigava - pessoas e instituições, note-se -, este embaraço torna-se, ele mesmo, incómodo e embaraçante para quem o ouve. Quem tem medo de Joana Marques Vidal? E de onde advém esse receio? Para mais, a argumentação que vem sendo expendida, a questão do mandato único à outrance – primeiro, alegando-se que a lei não permitiria mais do que um mandato a quem liderasse a Procuradoria-Geral da República; depois, caído este argumento, entendendo-se que, mesmo que legalmente se possa renovar o respectivo mandato, considerando-se que tal seria prejudicial para quem o exerce, porque condicionado, na sua actuação, pela recondução -, foi sempre (uma argumentação) forçada, pouco convicta, pobre (em especial: quem dirá que durante este seu mandato Joana Marques Vidal actuou pensando na sua recondução?). Ou há uma fundamentação cabal e circunstanciada sobre motivos, até agora por todos ignorados, da necessidade de não reconduzir a actual Procuradora-Geral da República, ou tal tornar-se-á numa espécie de elefante na sala, impossível de ignorar, na vida pública nacional.
O Presidente da República, que já aqui elogiei até pela indução de moderação ideológica no seu campo político, teria, neste contexto, a meu ver, um papel importante a jogar. Creio que seria imprescindível uma sinalização indiscutível, aos portugueses, do que o mais alto magistrado da nação pretende face a este problema. A Justiça, a investigação, é um pilar nevrálgico do sistema democrático. Não pode haver tentações de controlo da Justiça. Não poderemos ter futuros Procuradores sob tutela, ou na esfera de influência, de partidos ou de Governos, sejam eles quais forem. Não podemos aceitar Procuradores diminuídos, logo à partida, na sua autoridade e credibilidade.
Dir-se-á que pretendendo a continuidade da actual PGR, supondo tal, Marcelo Rebelo de Sousa preferiu uma condução diplomática e pacífica, acreditando convencer o Governo (de uma recusa de recondução que se antevê nas declarações de personalidades como Carlos César); registar-se-á que não lhe cabe a proposta de nomeação do futuro PGR; sublinhar-se-á que o principal partido da oposição não foi claro sobre o tema.
E, no entanto, a meu ver um político tem, ou deve ter, como desiderato influenciar a realidade – naturalmente, de acordo com a visão em que se filia do melhor para a cidade, e no respeito democrático da expressão e do sentir do povo português -, e pessoas experimentadas não ignorarão a melhor forma de esta ser influenciada (quer dizer, não se deixarão enrolar, pensar-se-á). O certo é que começa a resvalar-se para uma zona de areia movediça, terreno pantanoso, que me merece uma reflexão final: muito embora muitos acreditem que é a economia, o emprego, o salário que se tem no bolso que decidem eleições, pelo que, com tal chapéu de chuva (adquirido, em parte pelo menos, com mérito), poderiam alguns furtar-se ao fartos pingos que noutra altura incidiram sobre as suas cabeças, face a manobras incompreensíveis para a generalidade da população, não creio, todavia, que outros tantos não pensem também como uma situação destas, mau grado a economia, pode afectar o voto. E o mais perverso reside mesmo aqui: se se sabe, imagina ou teme, entre a actual maioria, que se possam perder votos bastantes com a remoção da actual PGR, apesar do bom ambiente económico, a insistência em tal ideia (de remoção), a ocorrer, é ainda mais preocupante.
Para lá das questões programáticas, ideológicas e de como nos posicionamos face a estas – em particular, as questões de justiça social e defesa de serviços de qualidade dos quais toda a população possa beneficiar e que para mim, como cidadão, são fundamentais -, há outras, ainda assim, sem as quais uma democracia liberal, pura e simplesmente, fica em cheque. A independência da justiça é não negociável.

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