quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Incerteza, com maus sinais


A mais recente sondagem para as Presidenciais brasileiras, conhecida nas últimas horas, torna a eleição de Jair Bolsonaro cada vez menos improvável. O que o novo estudo de opinião (do Ibope) mostra consolida alguns dados: a) subida de 3/4% de Bolsonaro após o esfaqueamento de que foi vítima; b) estagnação e queda dos índices de rejeição deste candidato; c) quase certeza de que teremos uma segunda volta (os diversos candidatos estão a grande distância dos 50%), e de que Bolsonaro é o candidato cuja presença nesta está garantida (a distância de Bolsonaro para os restantes candidatos é muito elevada; 15% para o segundo candidato nas sondagens); d) uma subida, com certo grau de consolidação, de Ciro Gomes (nestas duas semanas, 3%); e) uma estagnação ou descida de Marina Silva; f) uma subida de Haddad; g) Alckmin parece não conseguir descolar. Tão, ou mais relevante, é o que este inquérito indica para uma segunda volta. Nesta simulação, o que vemos suceder é que h) Bolsonaro diminui a desvantagem para todos os demais concorrentes para os quais perdia (com quase todos está empatado tecnicamente, com excepção da distância face a Ciro Gomes, que é de 3% e suplanta os 2% da margem de erro da pesquisa; e mesmo assim...) e aumenta a vantagem face ao cenário em que vencia - com Haddad. 
Mesmo supondo que na segunda volta, Bolsonaro tem como adversário aquele que, neste momento, as sondagens indicam como candidato face ao qual terá maiores dificuldades em ganhar, uma tão curta distância para este (3%), num cenário de uma dinâmica eleitoral em crescendo não torna inverosímil a ultrapassagem daquela diferença. Mais: só ontem se formalizou a candidatura do PT em Haddad. O eleitorado toma, definitivamente, consciência desta nova realidade, e do endosso de Lula à candidatura. Haddad cresce em duas semanas nas sondagens e só está a 3% de Ciro Gomes. Pensar que Haddad chega ao segundo turno está longe de ser uma quimera. Se tal se verificar, então o cenário de vitória de Bolsonaro está representado nas sondagens, na rejeição de milhões de brasileiros face ao PT, no modo como alguma direita se insinua já perante o programa económico da candidatura de Bolsonaro. Porventura, nesse cenário, os "limites de crescimento" apontados a Bolsonaro - não passa dos 40% nas previsões para a segunda volta, mesmo nos cenários em que lidera - se "desbloqueiem". 
Há momentos curiosos da História em que uma fronda - com diferentes aspectos, contextos, concretizações, não linear mas que se percebe nas rajadas que batem sucessivamente - parece impôr-se, como nas tragédias, e varre montanhas e vales (mas não nos iludamos em erro de óptica: em democracia são os eleitores que aceitam, ou ratificam, os monstros, mesmo se as condições de emergência destes tem responsáveis de diferentes graus). O "Trump dos trópicos" como chamava a Bolsonaro, muito recentemente, a Time, o homem que considera que mesmo perante o que se sabe de execuções extra-judiciais aos milhares (com a invocação do combate à toxicodependência), Duterte "fez o que tinha que fazer no seu país" (Filipinas), que elogia Pinochet (que liderou um regime em que, como recorda a newsmagazine, os "esbirros estupravam mulheres com cães", o homem que foi capitão do exército ao tempo da ditadura brasileira (cuja existência - da ditadura - nega, mas que matou centenas de pessoas e torturou quase duas mil), o homem que pretende um governo repleto de homens do Exército, este homem, pode estar mais perto de tornar-se Presidente do Brasil.


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