quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Ir à bola com eles


1. Interessantes as histórias para contar dos jogadores perdidos, a caminharem para o ocaso de uma carreira, que deixam os grandes clubes, em que brilharam, e caminham agora, em menor velocidade, num bólide menos potente. E, de repente, mais velhos, regressam, afinal, ainda mais frescos e com qualidades insuspeitas à F1 do futebol mundial. James Milner parecia arrastar-se no City, seguiu para o modesto Villa, e ainda ontem foi um autêntico turbo no jogo grande da jornada inaugural da Champions, em Anfield Road; 2.O Liverpool-City, de ontem, demonstrou, por certo, para muitos, as virtudes de uma NBA no futebol: se na primeira jornada de uma Champions é possível tanta emoção, qualidade, intensidade, isso provaria que em se defrontando, entre si, apenas super-equipas seria possível ver grandes jogos, e só grandes jogos, desde Setembro. Neste sentido, foi uma má propaganda para o equilíbrio do futebol europeu (poderia dizer-se, com alguma ironia); 3.Desde há pouco mais de um ano, o Liverpool aparece um tanto mais calculista, menos exposto, menos franco no jogo, mais pragmático. Veja-se o caso do Tottenham-Liverpool do último fim de semana: em circunstâncias normais, seria um dos jogos do ano, duas equipas de peito feito, vorazes na vertigem ofensiva. O que se assistiu foi a um conjunto de amarras tácticas - mas que bem recuou Firmino, a jogar como não lhe tinha visto até hoje, como 9,5; a aposta na dimensão estratégica é tal que Klopp, mesmo com Firmino nesse apogeu, relegou-o para o banco com o PSG, colocando Sturridge como avançado-centro (e este marcou), um jogo que não parecia muito da Premier, sem demasiada beleza. Mas, para muitos, o Liverpool saiu de Wembley como mais candidato ao título, como nunca desde 90. Ou desde Brendan Rodgers, pelo menos; 4.Por falar em Tottenham, um seu jogador que começou a época em grande estilo, o brasileiro Lucas Moura, veio dar publicamente o seu apoio a Jair Bolsonaro. Já esta semana, o mesmo ocorreu com o jogador do Palmeiras, Filipe Melo. Os jogadores de futebol estão assim muito mais evoluídos, face há uns anos, quando eram tidos por pouco mais do que analfabetos, como dizeis? A resposta cínica é que o eleitor-tipo de Bolsonaro é um indivíduo com o ensino médio e superior - o que, como se constata uma vez mais, não garante coisa nenhuma; 5. Phillipe Coutinho está cada vez melhor e mais confiante em Camp Nou. As tabelinhas surgem, a ousadia da jogada chega, a inibição e o medo de falhar desaparecem. O medo cénico, que também parecia ter tomado conta de Dembelé, desde a supertaça de Agosto, anda esconjurado. De tal como que, meio a sério, meio a brincar, a imprensa espanhola já diz que o elo mais fraco da frente, nesta altura, é Luís Suarez; 6. Ainda assim, sempre que vejo jogar o Barcelona de Valverde fico a pensar que lhe falta mais tensão, mais intensidade, mais agressividade. Para consumo interno tem dado, quando apertar na Champions, ou há crescimento face ao que tem sido a média dos jogos deste ano e pouco, ou volta a claudicar. Mesmo com um homem que passa a bola e marca livres como os anjos; 7.Há sensações de deja-vu que sabem bem: o Bilbau-Madrid, do último Sábado, o melhor jogo deste início de época (descontado o espectacular Chelsea-Arsenal), devolveu-me aos inícios de 90, quando descobri, na TVE, a Liga espanhola, nos fins de tarde de Sábado, e nela se via um jogo nobre, no qual a disputa tinha entrega, paixão, intensidade e a grande possibilidade dos grandes caírem (o que por cá era uma quase impossibilidade, acrescida se entravam na frente do marcador, o que em Espanha não era factor impeditivo de perda). Características estas, entretanto, que mesmo em Espanha a desigualdade extrema, que replicava a sociedade e a economia, tinham levado. Que grande jogo no novo San Mamés!; 8. Perante a dita desigualdade, os adeptos dos clubes pequenos, apenas duas vezes ao ano podem assistir a desafios com os grandes craques, quando recebem Madrid e Barcelona (dirão que sempre assim foi, respondo que era mais mitigado quando o Valência podia ter o melhor Aimar, ou Ortega, ou Claudio Lopez, ou Mendieta, ou o Depor mantinha Bebeto, depois Rivaldo, e o Atlético jogava com Futre, Pantic e outros e não havia nos clubes uma seleção do resto do mundo). O que querem fazer aos adeptos do Girona é retirar-lhes metade do prazer futebolístico anual - levando o Girona-Barcelona para os EUA, para dar mais dinheiro. 9.O treinador do Madrid protesta com razão: enquanto, o Madrid vai jogar em casa do Girona, num relvado que não terá as mesmas dimensões do Bernabéu e do Camp Nou, e com público hostil, o seu principal rival jogará em campo neutro e com os fãs dos States. Desvirtua a competição, despreza os adeptos, desrespeita o jogo. 10. O diretor executivo da Bundesliga veio afirmar, face a este precedente, que jamais isso ocorreria no campeonato alemão; 11. Luís Freitas Lobo escreveu, em OJogo, no passado Domingo, que João Alves e António Oliveira foram "os melhores nº10 que vi jogar em toda a minha vida". 12. Oliveira, ao seu estilo, disse numa entrevista dada esta semana, que ajoelhou, celebremente, na Luz, na sequência de um derrube, na área de penalti, de Preud'home a Zahovic, a pedir que o "fanático dos popós"(poupo, naturalmente, o original) que apitava esse encontro não mais dirigisse o clube por si liderado  tecnicamente. Mais: 21 anos depois desse jogo, afirmou que, então, o FCP foi "prejudicado deliberadamente, dolosamente" (apesar da vitória, nessa partida, dos dragões, por 2-1). Oliveira, como os portistas em geral, tiveram, a propósito, um duplo azar: Lucílio Baptista não só, depois desse jogo, voltou a arbitrar uma enormidade de jogos dos azuis-e-brancos (com a mesma competência com que o fez nessa noite), como ainda se encontra no actual Conselho de Arbitragem. Como eles dizia, "os últimos 30 anos do futebol português..."; 13. Nem a arbitragem do jogo frente ao Chaves foi nenhuma catástrofe, nem o FCP empatou por causa disso. Sérgio Conceição devia guardar a indignação para quando se justifica, porque protestar sem razão banaliza, perde eficácia, e, sobretudo, tende a igualizar o que é escandaloso, e o que não é nada disso. O que é um feito, isso sim, é fazer um ponto numa Champions, quando se joga sistematicamente com 10 jogadores (Maxi, na melhor das hipóteses, é menos um; na pior, é sempre mais um mas do adversário) e se diz que Herrera é um bom jogador. Gritar contra a arbitragem quando a equipa nunca acompanha com futebol vai equivaler, e não será preciso esperar muito, a tentar travar o vento com as mãos.

Sem comentários:

Enviar um comentário