A intervenção que (mais) marcou a tarde, gerando forte entusiasmo (e aplausos) na plateia formada por algumas centenas de educadores (e, neles, uma esmagadora maioria de professores), nas II Jornadas da Educação do Município de Vila Real, que hoje decorreu no Teatro de Vila Real, foi da responsabilidade do Prof. Adelino Calado, Diretor da Escola Secundária de Carcavelos.
Naquela escola, e pelos vistos com bons resultados, acabaram os testes; não há manuais (para seguir à letra; a Direcção da Escola tentou que os apoios governativos para aquisição dos manuais escolares fossem canalizados para o digital, mas não obteve autorização para tal; houve pais que demonstraram algum desconforto, porque queriam aceder à segurança que o Manual lhes traria, ou evitar a sensação de desconforto que a ausência de Manual lhes causava, mas o trabalho de explicação, justificação, fundamentação da Escola, e seus resultados ao longo de anos com inovações concretizadas, gerou luz verde para mais este passo); não há trabalhos de casa (tpc); nas duas primeiras semanas de aula, não se dá matéria (são dedicadas a "namorar os alunos": "com isto, em cinco anos, consegui praticamente eliminar os processos disciplinares", disse Adelino Calado). Por vezes, faz aulas com 100 alunos (uma aula expositiva em que se vai dizer o mesmo, ao mesmo ano de escolaridade, quatro vezes, pode ficar assim concentrado numa aula; reproblematização do conceito de turma, poupança de tempo, optimização de recursos); uma vez por mês, esta escola realiza assembleias de alunos (por anos de escolaridade). Ninguém reprova até ao 9ºano. Há uma turma, no 5º ano (o 5ºA), para alunos com mais dificuldades e para essa turma são canalizados, por exemplo, 5 professores de Português, 5 professores de Matemática, mais apoios, etc. A escola é implacável com atrasos de alunos e professores. A aula é às 10h; o aluno chega às 10h10, tem que ir comprar um impresso, tem que o preencher a explicar porque chegou atrasado, tem que ligar aos pais a expor o motivo pelo qual não esteve em sala de aula a tempo (num processo que dura uns 45 minutos); este ano, já houve um Conselho Pedagógico, às 10h. Três professores chegaram às 10h05, e tiveram falta. Não há explicitação, um detalhar, percentual da nota do aluno (p.ex., 70% conhecimento, 30%atitudes e valores, etc.; "quando um médico ou um juíz toma uma decisão aceitamos e não perguntamos por percentagens"), mas há o preenchimento de um Excel, por professores e alunos, em que, por conteúdo lecionado, se procura aferir se o aluno adquiriu ou não os conhecimentos. E o professor não conhece o que responde o aluno, e vice-versa - os dados são enviados diretamente, em termos mensais, para a Direcção (mas, enquanto que, há 5 anos, havia sérias divergências entre as respostas de alunos e professores, quanto a este ter aprendido, ou não, determinado conteúdo, hoje há uma convergência que atinge os 95%). Há já vários anos que o Diretor solicitou aos professores de cada área o que consideravam essencial na respectiva disciplina (incluindo na preparação para exame). O que não era essencial era cortado ("não estamos sempre a dizer que os programas são demasiado extensos?"). Então, nesta escola não se dá, necessariamente, o programa todinho (numa opção deliberada e consciente). A Escola teve já 153 inspecções e o seu Diretor 8 processos disciplinares, mas em nenhum momento se encontrou motivo para o punir. Este, em todo o caso, assumiu o risco, face ao que é o modelo-padrão e as práticas mais habituais, que é necessário correr, em especial na lata interpretação da lei que conforma a vida escolar portuguesa, para a escola estar à altura do tempo que vivemos (um dos seus exemplos: os vossos filhos não aprenderam sozinhos a funcionar com o telemóvel, sem terem aulas para o efeito; isto no sentido, da necessidade de rever o conceito mais tradicional de aula e, porventura, a tutoria e acompanhamento, mais do que o despejar, e o repetir, quando a sociedade depois da escola pede análise e crítica).
Adelino Calado, que vira já o seu empreendimento na Escola - sendo que a Escola Secundária de Carcavelos está situada numa zona que, vista de fora, é favorecida, ela confronta-se com o facto de 51% dos alunos de Cascais estarem no ensino privado, pelo que, em grande medida, casos difíceis, ficam com escolas públicas, como a de Carcavelos, no que ainda mais encómios faz por merecer os bons registos que ali se alcançam; a mudança da percepção que os pais tinham da Escola foi o seu grande desiderato, desde o início, e o traço que considerou decisivo no seu trabalho - concentrar a atenção de jornais como o Expresso, assinalou, como errado, o procedimento, com recurso a exames nacionais, de candidatura ao ensino superior, frisando como em grandes universidades internacionais o Departamento de Candidaturas é o mais importante, nestas. Isto, enquanto, em Portugal, várias universidades há que nem Departamento de Candidatura possuem (até porque, para as universidades, é muito mais cómodo ver a selecção feita pelos professores do Secundário, e pelo respectivo sistema, podendo sempre assim dizer que "os alunos não sabem nada", ou que "chega um aluno ao primeiro ano de Direito sem saber calcular uma percentagem", no exemplo do Secretário de Estado da Educação, sem que a responsabilidade lhes possa ser acometida - "eu nunca tive um aluno no primeiro ano que não soubesse fazer um cálculo de uma percentagem, mas se tu tens, vai para fila perguntar quem sabe fazer esse cálculo e aqueles que não souberem não os deixes entrar na faculdade").
Em Rabo de Peixe, localidade para a qual foi convidado como orador, Adelino Calado percebeu que os piores resultados no ranking nacional, por parte da escola ali situada, prendia-se com o facto de nenhum dos cerca de 300 alunos que a frequentam não pretenderem ir para a Universidade - e, ao mesmo tempo, os critérios de avaliação serem exactamente os mesmos que apresentamos a alunos que querem seguir essa via. Ora, sucesso, para este académico, significa, não propriamente a nota absoluta que o aluno alcança, mas o atingir do que cada um consegue alcançar; atingir o potencial de cada qual. Não quer dizer que a nota seja 20, como não significa que seja 10: é aquela a que o aluno consegue, extraindo-se o seu potencial, atingir.
A turma mais pequena a que Adelino Calado lecciona tem 32 alunos (numa escola com 2900 discentes). "Quanto tempo achas que o professor deve falar, numa aula?", perguntou a escola aos alunos. Resposta: "o tempo que eu preciso" [para aprender].
Se a tarde teve bons oradores, e outras notas poderiam aqui ser trazidas e sublinhadas, deixaria, contudo, a finalizar, dois apontamentos da intervenção do Secretário de Estado da Educação, João Costa: é verdade que os resultados dos alunos portugueses, na última década (e meia), melhoraram significativamente; mas é igualmente certo que, simultaneamente, aumentaram os níveis de ansiedade, stress, depressão por parte dos alunos. O consumo de ansiolíticos e anti-depressivos exponencial. Numa palavra, melhoraram os resultados, diminuiu o bem-estar. Chamaríamos a isto sucesso? O Secretário de Estado da Educação responde negativamente - e na construção do perfil do aluno este "bem-estar" foi incluído como sendo necessidade a atender.
Se em Beja e Setúbal a pobreza "é um forte preditor" do (in)sucesso escolar, em Braga não é tanto"; ou seja, "temos que ver o que Braga está a fazer" para aproveitarmos as suas boas práticas; ou seja, ainda, as más notas de um aluno advindas da situação de pobreza em que este se encontra (e sua família), sendo tal situação de pobreza um constrangimento muito significativo e a ter que considerar no seu desempenho escolar, não são uma inevitabilidade e a escola pode fazer toda a diferença (para a mobilidade social ascendente). E chamou a atenção para um aspecto bastante interessante: se um aluno chega a uma escola com nível 17 e sai de lá com nível 18 o trabalho esteve longe de ser tão bom como o daquela escola que recebeu um que tinha 8 e passou a 15. Os rankings até podem, mesmo, premiar más práticas pedagógicas (um professor de uma escola que só receba alunos de estratos favorecidos e com grande background até pode ser pior pedagogicamente, e menos empenhado, e ver os seus alunos, dado o seu ponto de partida, obterem melhores resultados, em absoluto, do que aquele outro professor, de um meio mais desfavorecido, que consegue elevar o nível dos seus alunos, mas em que estes não chegaram aos valores absolutos dos seus outros congéneres).
Concordando com a necessidade de mudança no processo de acesso ao ensino superior, e até de modo enfático, contudo, o Secretário de Estado - que não teve mau acolhimento pelos docentes, pese o conhecido contencioso com o Ministério da Educação por parte destes - não deixou de aludir ao problema das famosas "cunhas" presente em um sistema em que as universidades seleccionam, sem mais, em vários países, os seus alunos.
Na tarde do Teatro de Vila Real, presentes estiveram ainda alunos e professores que Compõem a Comparte, em que os Prós da Educação vieram dar o seu testemunho quanto a professores marcantes, e boas práticas, como a importância dos afectos e sentimentos em sala de aula, em relações de confiança, com um sorriso pelo meio. A necessidade de ouvir os alunos e o que eles têm a dizer à escola foi por todos referida.

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