Três exposições marcaram o tempo em que estive diariamente pelo Porto: as de Paula Rego, Francis Bacon e Nan Goldin. Todas em Serralves. Há dias, verifiquei a data: Nan Goldin expôs as suas fotos, com vários nus, no segundo semestre de 2002. Tinha, então, completado já os meus 18 anos. Não pedi companhia, não solicitei protecção, nem tremi ou estarreci face às imagens apresentadas. Não me lembrei de pedir protecção, de querer alguém ao lado a segurar-me a mão e a segredar-me composturas e bons sentimentos. Não se me ocorreu que houvesse avisos, quartos escuros, cartões de identidade e mezinhas. O mesmo, de resto, face a alguns livros então descobertos - a única questão verdadeiramente filosófica é o suicídio (assim começava, o livro de Albert Camus lido pela mesma época).
A liberdade de expressão protege-nos de não seguirmos as la palissadas, o óbvio, de termos direito à corrosão, ao sarcasmo, à contundência mais, ou menos irónica, a rompermos com o consensual e irritarmos (se for caso disso); se a arte fica cativa nas suas possibilidades, se lhe colocam amarras e delimitam territórios (obrigatórios), se não pode cindir, pisar linhas, desafiar, deslocar-nos do hábito, desencaminhar, atravessar fronteiras, incomodar ou mesmo ser susceptível de ferir, então é outra coisa qualquer; e se Nan Goldin não é Robert Mapplethorpe, também em 2002 não havia smartphones, onde as imagens de pornografia passaram, bem precocemente, em adolescentes, a ser um consumo diário (levando, hoje, aliás, à proliferação de estudos e textos acerca do tema que parece não ter fim). E o que espera os visitantes de Mapplethorpe não é pornografia; é arte.
Como os vários âmbitos da vida não podem deixar de, de algum modo, creio, comunicarem entre si, não me parece nada longe deste tempo que habitamos que sejam os alunos de algumas das maiores e melhores universidades do mundo a pedirem para que lhes sejam retiradas do currículo obras maiores da literatura que têm a desdita de falar daqueles momentos que fazem parte da condição humana, mas que apostam estarem superados, ou, pelo menos, ser melhor não falarmos deles: doença, sofrimento, morte (e quantas vezes, crimes, corrupções, suicídios, invejas, infâmias, ignomínias e mesquinharias). O mundo (humano) seria asséptico e bonitinho como um quadro kitsch. Numa palavra, mentira e artificialismo (mole, conformista, amorfo, sem alma, sem singularidade, sem espanto). A actual fome junta-se à vontade de comer: o infantilismo tem no autoritarismo um poderoso aliado. A liberdade e a democracia, as possibilidades e hipóteses têm decrescido? Pois têm.
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