segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O «censor» enquanto intelectual (de referência)


Na altura [séc.XVIII], os académicos, os intelectuais, os autores, os censores eram mais ou menos a mesma coisa, e o crítico era até visto como menos nobre que o censor. «Censor» era muito utilizado como um elogio para os autores. Vê-se que era uma época antes de o sentido destas palavras se ter separado e censor passar a ser pejorativo e autor, positivo. Na altura havia muitos censores que eram autores e muitos autores que eram censores. A partir do século XIX, isso muda, o autor torna-se o anticensor e o censor torna-se o inimigo do autor. Havia também uma espécie de temor pela perda de poder intelectual, que, para esta cultura, é a perda de poder no sentido mais profundo. Quando olhamos para a política do Pombal, no final, como ele fala da cultura, da literatura e até da caligrafia, da importância de haver no reino quem escreva de uma forma clara e perceptível, entendemos que, para ele, a política cultural é a política, a política cultural é o poder. O poder da cultura e a cultura do poder são a mesma coisa. De uma maneira que, hoje em dia, alguns intelectuais até invejarão. (...)
Manuel do Cenáculo e António Pereira de Figueiredo foram, entre eles, provavelmente os censores que censuraram mais livros naqueles nove anos da RMC [Real Mesa Censória] sob o Pombal. E foram bastante severos. É preciso dizer que a RMC proibia mais livros no seu conjunto do que as três instituições que a precederam. E fazia-o com a ideia de que proibir mais livros era uma coisa boa porque aqueles que ficavam eram livros de mais alta qualidade. Para eles, essa era a função. Entendiam-se como letrados e intelectuais. Ambos escreveram livros sobre literatura, sobre a maneira correcta de escrever quer em português, quer em latim. Eram bibliófilos. Manuel do Cenáculo era um grande colecionador de livros e a sua biblioteca pessoal está na base da biblioteca pública de Évora, que é uma das melhores bibliotecas do País
A sua função na ordem religiosa de que fazia parte, os oratorianos, vai dar origem, em boa parte, ao núcleo inicial da biblioteca da Academia das Ciências. Além disso, o trabalho dele enquanto censor na RMC ainda vai dar origem aos núcleos iniciais da Biblioteca Nacional e da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Paradoxalmente, uma das pessoas que mais livros proibiu naquela época foi uma das pessoas que mais livros comprou, por vezes até ficando a dever aos livreiros, que mais livros colecionou e que mais bibliotecas criou já com o intuito de criar bibliotecas públicas. Fez visitas ao estrangeiro, a Itália, por exemplo, para ver outras bibliotecas, fez planos de como deveriam ser as estantes, como é que deveria ser o acesso ao público. (...) Eles eram habitantes de uma coisa chamada República das Letras. Viviam em correspondência permanente com intelectuais estrangeiros, seja os irmãos [Gregório e Juan António] Mayans de Valência, seja os católicos subversivos de Utreque, os jansenistas, que eram antijesuítas. O António Pereira de Figueiredo era também um autor muito sofisticado, foi o nosso primeiro tradutor católico da Bíblia. A Bíblia tinha sido traduzida por um protestante [João Ferreira de Almeida].

Rui Tavares, entrevistado por Bruno Vieira Amaral, para a Ler, nº150, Verão de 2018, pp.31-32.

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