Apesar de tanta dicotomia estabelecida mediaticamente, não deixei de interpretar o Papa Francisco como complementar, ou outra face da moeda do pontificado de Bento XVI, neste sentido: se em Bento XVI, a dimensão doutrinal, a importância do conhecimento (pelo crente) dos conteúdos da fé, das razões de crer adquiriam uma centralidade bastante clara (aceitando, o agora Papa Emérito, mesmo e ainda sem tal múnus, ir e disputar a verdade do que se crê, numa cultura que, em boa medida, como que tinha passado isso à frente, quando não mesmo nunca havia procurado perceber essa verdade; portanto, a perspectiva da teoria - esclarecida e convincente - para a prática), passávamos, com Francisco, a um agir de tal modo (evangélico) que dessa acção (revolução de mentalidade eclesial) resultaria uma adesão (renovada) à Igreja (se a misericórdia estivesse no centro do nosso agir como paróquia, como diocese, etc. isso levaria a que a Igreja fosse procurada de novo; portanto, aqui um agir que dava que pensar).
Neste último sentido, a teorização (acerca da nova forma eclesial) de Stella Morra, em "Deus não se cansa", parece-me bem interessante.
Ambos os movimentos (e mesmo aqui, enquanto "tipos ideais", pois que não deixou de haver prática e teoria, consequentes, em ambos os casos), "não há nada mais prático do que uma boa teoria" (sem sabermos em que cremos, sem esse conteúdos serem credíveis, sem se apostar em expôr a razoabilidade dos mesmos não se dá a abertura necessária a adesões plenas e sem ser por pura repetição social), mas também "nada mais teorético do que uma boa prática" (em que crê esta gente que usa desta misericórdia com outros?), a meu ver têm todo o lugar e fazem sentido em simultâneo (são, mesmo, uma necessidade), sendo que cada singularidade tenderá a acentuar, mesmo que com finalidade e paixão idênticas, mais um dos âmbitos (mas, apenas, acentuar, porque nunca, evidentemente, a praxis pode ser passada adiante).
Simplesmente, ambos (movimentos) são traídos se as estruturas não derem testemunho - quer pensando as verdades da fé, quer agindo com misericórdia -, se a "barca mete água por todos os lados" (como meditava, já na Via Sacra de 2005, Ratzinger, que se mortificava por "tanta sujeira), concentrando-se, ademais, e até expondo-se com uma clareza insuspeita, a guerras de poder que na Igreja não deviam ter lugar.
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