Num Brasil em que ainda cerca de 50% da população não tem saneamento básico, em que as remunerações dos brancos são cerca de 80% mais elevadas do que as dos negros e mestiços (e em que as mulheres negras se encontram no fundo da tabela salarial), quem vive em favelas tem o triplo do risco de morrer baleado face aos que habitam outros bairros de uma cidade, a (pré) campanha eleitoral, para as Presidenciais de Outubro, não poderia estar mais carregada de emoções.
Nos últimos dias, Fernando Henrique Cardoso (FHC) chamava a atenção para o facto de as intenções de voto que as sondagens - que vão saindo diariamente em catadupa - atribuem, consistentemente, a Jair Bolsonaro fazerem com que a disputa PT vs PSDB seja antecipada para a segunda volta (assumindo, portanto, o ex-Presidente do Brasil que na segunda volta será Bolsonaro frente a um outro candidato). Apesar desta perspectiva, em realidade, o partido de FHC, no primeiro tempo de antena, no primeiro comercial/spot de campanha, atirou, com força, em Bolsonaro (e ao seu lado machista, recordando acções e palavras suas, há muito conhecidas, ao longo dos anos). Como que partindo do pressuposto de que deve lutar por um eleitorado (de direita) que, até ao momento, Bolsonaro terá conquistado numa dimensão para alguns inesperada (e, ao mesmo tempo, supondo, com tal estratégia, pelo menos assim parece, que não haveria uma inevitabilidade da passagem de Bolsonaro à segunda volta). Por outro lado, também é certo, com o impedimento, primeiro, da candidatura de Lula (de estar presente, sequer, em debates), com a indiciação criminal do número dois na candidatura do PT (Haddad), com o protelar, com sucessivos recursos, de uma indicação definitiva do candidato às próximas eleições, o PSDB poderia ter alguma dificuldade em focar o alvo definitivo (do PT). Entretanto, o próprio Alckmin vê-se sob acusações de corrupção. Voltas e reviravoltas, casos diários, uma campanha muito preenchida de peripécias.
Por outro lado, a semana, quanto a sondagens, principiou com uma subida de 3% de Ciro Gomes, do PDT. Houve quem interpretasse o "actual" voto em Ciro como "voto escala", quer dizer, o eleitor do PT que durante o fim de semana ficara sem ilusões quanto à possibilidade de Lula se recandidatar - mau grado, reitere-se, a candidatura de Lula prosseguir recursos, incluindo queixa na ONU, que curiosamente interveio no processo eleitoral brasileiro, recomendando que Lula tivesse lugar nos debates, considerando que o caso do ex-Presidente não se encontra sob trânsito em julgado -, migrara, temporariamente, para Ciro, dada, em certa medida, a proximidade ideológica com o PT, até desaguar, em definitivo, no candidato que Lula virá a indicar (Haddad). Isto, um ou dois dias antes de Haddad ser acusado de corrupção. Na verdade, tal exercício interpretativo é manifesta e necessariamente interpretativo, e, em realidade, o desempenho de Ciro Gomes nas sucessivas "sabatinas" (como chamam no Brasil ao exercício de perguntas que os candidatos têm sido chamados a responder), dos mais variados media, tem sido francamente positivo, articulado, assertivo. Não pode, pura e simplesmente, colocar-se de lado a hipótese de que Ciro fixe os 3% de eleitorado que terá conquistado na última semana.
Mas as sondagens vão dizendo outras coisas, como, em algumas delas, perceber-se que Marina Silva está, ou pode ser, challenger de Bolsonaro (pese o seu discurso vago e uma prestação bem longe de brilhante nos debates e entrevistas, e da recordação do apoio a Aécio Neves, na segunda volta das Presidenciais de há 4 anos; Aécio que agora se encontra também a braços com sérios indícios de corrupção, o que não surpreende quem assistiu aos debates de 2014 e viu ausência de respostas convincentes face a questões já então levantadas a este respeito; este, um ponto que Rui Tavares não ponderou no seu artigo de início da semana, no Público, no qual considerava que hoje Aécio podia estar a ser eleito com toda a tranquilidade; o que, por sua vez, não desmerece da tese geral de que sem o impeachment, e com a economia a sangrar - ainda que neste instante com ligeira recuperação -, o PSDB talvez resistisse aos casos de corrupção que têm abalado, sucessivamente, o Brasil e ganhasse face à fraqueza do PT neste âmbito e aos números da economia).
No limite, a luta PT vs PSDB nem seria antecipada para a primeira volta; nenhum dos partidos marcaria presença na segunda volta - se seguíssemos literal e definitivamente as sondagens mais recentes.
E, já nesta quinta-feira, e nas últimas horas, Bolsonaro foi esfaqueado em uma acção de campanha (o filho do candidato diz que este se encontra bem e rapidamente voltará à estrada; o golpe terá sido superficial), o que, além de ilustrativo de um clima emocional intenso na campanha, de polarização das atenções neste candidato, de violência inaceitável numa democracia, tenderá, do ponto de vista da pura contabilidade eleitoral, a não ser desfavorável a uma candidatura que vai na dianteira das sondagens para a primeira volta (mas já não assim para a segunda; até hoje, segundo as sondagens, Bolsonaro perderia para todos os principais candidatos a consigo passar ao segundo turno, com excepção de Haddad, com o qual há um empate técnico).
Antes deste significativo acontecimento, o que mais marcara a campanha, tanto quanto é possível observar à distância, terão sido dois aspectos: a) o problema da violência, dos homicídios na rua e a noção de que só a mão implacável de um Bolsonaro o poderia resolver ou mitigar (uma narrativa que estaria a atrair, segundo as sondagens, 21-22% dos eleitores brasileiros - para já, numa primeira volta com inúmeras candidaturas); b) a proposta para resolver a dívida de 63 milhões de brasileiros, apresentada por Ciro Gomes (que, para já, pode ter convencido cerca de 12-15% dos eleitores).
Se há campanha eleitoral, em que os dados ainda não parecem lançados, e em que a incerteza é enorme quer quanto a saber-se quem passa à segunda volta (e, antes disso, resolver a equação sobre o que fará o PT), quer, depois, nesta, caso um dos candidatos seja Bolsonaro o que farão as demais candidaturas e partidos, é esta.
Adenda: ao contrário das informações iniciais, soube-se, nas últimas horas, que o esfaqueamento de Bolsonaro teve consequências físicas de gravidade, implicando cirurgia e transfusão de sangue ao candidato.
Sem comentários:
Enviar um comentário