quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Verdade, certeza


Estou a escrever um livro grande que está quase terminado, sobre a nossa batalha permanente com a certeza. Ter a certeza é uma coisa que nos está vedada. Só inventámos até hoje quatro representações do mundo para pôr uma probabilidade no futuro. E o livro fala sobre como é que construímos modelos desde que nascemos. Somos muito bons a fazer a arte da conjectura. De facto, é o máximo que conseguimos fazer. Uma conjectura. O que tem evoluído é a forma e o método de fazer a conjectura. Durante milhares de anos era só feita por gestos e, ao mesmo tempo, pela fala. Depois inventámos uma coisa fantástica que ainda dura e durará que é o desenho. E com o desenho inventámos uma coisa a que o Voltaire chamava "A pintura da pauta da música da voz", que é a escrita. Há 400 anos a esta parte, conseguimos fazer a representação matemática do mundo. Aí pirámos da cabeça e julgávamos que tínhamos a certeza. (...)
A gente tem de pôr uma probabilidade no futuro. E tem de ter a audácia de falhar e recomeçar. Sabe, há gente da ciência que ainda anda à procura da verdade, mas isso é porque não sabem a "Ars Conjectandi", a arte de conjecturar, de Jacob Bernoulli. Como eu disse, nós fazemos representações da estrutura das aparências, modelos. No fim, o que temos é uma probabilidade tal como a que ouvimos todos os dias vinda dos meteorologistas. Essa probabilidade não é sinónimo de sorte, de acaso ou de chance, mas sim de quanta certeza têm na previsão que fazem. Coloquialmente é que probabilidade, sorte e acaso passaram a ser sinónimos. Não são, ou melhor, não eram, até meados do século XVIII. (...)
Mas a certeza e a verdade não são a mesma coisa. Primeiro acreditámos em magia e se não houvesse magia não havia ciência. Por trás da superfície das coisas há qualquer coisa e se eu tiver o "abracadabra" dessa qualquer coisa tenho o domínio sobre as coisas. Génesis 2:17 [na Bíblia] esclarece que se comeres da árvore do conhecimento do bem e do mal por certo perecerás. E as pessoas interpretaram isso como sendo contra a ciência. O que lá está é conheceres, saberes infalivelmente o bem e o mal. Não é saber para pôr uma probabilidade. O conhecimento, o saber infalível da verdade, deu, dá e dará todos os genocídios, perseguições e terrorismo. A "Arte de Conjecturar" nem sequer contempla tal possibilidade porque mesmo a representação matemática tem enormes limitações. (...)
Legislar tendo apenas e exclusivamente como indicação o [que o] conhecimento científico em cada momento pode trazer, já trouxe e está a fabricar grandes tragédias. Porque todos os modelos erram com maior ou menor margem. E erros, por pequeníssimos que sejam, acumulam-se. Devíamos ter a humildade de só ter legislação sobre princípios. Por exemplo, hoje em dia as baterias são a maior fonte de proliferação de material nuclear que alguma vez houve, porque são feitas de cobalto e litio. O cobalto é excelente para envenenar pessoas e para fazer bombas. O lítio é explosivo e é a matéria-prima de armas de fusão nuclear.


Fernando Carvalho Rodrigues, Físico, Professor Catedrático do IST, entrevistado por Filipa Lino, no Jornal de Negócios, Weekend, 14-09-2018, p.5.

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