A verosimilhança está no âmbito da convenção. Há um registo que se aprende a reconhecer como verosímil; e a verdade está do lado do real e está ligado a uma sensibilidade que se tem na leitura. É mais subjectivo. Há livros completamente inverosímeis, mas a verdade está lá. E está lá porque aquilo está atravessado por alguma coisa que é incompreensível e escapa a uma convenção prévia. E há livros que são totalmente verosímeis, em que há um referente muito claro, está tudo descrito - e podem ser maravilhosos ou não - mas isso não quer dizer que eles estejam necessariamente com a verdade. O Roth fez essa distinção dizendo que iluminam o mundo, no qual nos reconhecemos. Há uma tradição de escritores importantes para mim, como o próprio Kafka, em que há pouca verosimilhança. Um homem que acorda como insecto não é muito verosímil, mas é clara ali a presença de uma enorme força, uma grande verdade, e que eu acho que tem sempre a ver com a experiência (...) Essa coisa de [Georges Bataille] lidar mal com a língua é um estilo, mas é como se ele dissesse: esse real é irrepresentável, na verdade isto é uma alusão a uma experiência possível com o real que não está no livro, mas noutro lugar. Há nisso uma coisa meio religiosa, como se a palavra nunca pudesse dar conta do recado. Há um lugar que se supõe que existe mas está noutro lugar que é irrepresentável. Também gosto disso, mas o que me interessa nessa coisa do irrepresentável é a ideia de uma potência, de um real, que é avassaladora. Este meu livro é um pouco a representação disso; é como se o desejo fosse incongruente com a própria ideia de identidade.
Bernardo Carvalho, entrevistado por Isabel Lucas, O desejo não acaba mas o corpo acaba, para a Ler, nº150, Verão 2018, p.59.
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