
Durante a Revolução Cultural chinesa, a par da opressão, da violência, das mortes, o desenvolvimento foi lento, os resultados económicos parcos. A desigualdade, contudo, diminuiu, com a excepção da disparidade cidade-campo que se manteve elevada. Para ilustrar quanto a "abertura e reforma" de Deng Xiaoping não só não alcançou resolver este problema, como o agravou, Yu Hua, em China em dez palavras (Relógio d'Água, 2018) conta-nos como em 2006, por altura do Mundial de Futebol da Alemanha, ao qual assistiram 100 milhões de telespectadores chineses (o record, a este respeito, havia-se cifrado nos mais de 200 milhões que televisionaram o Brasil-China de 2002), visitou uma zona muito pobre junto da cidade de Xining e levando consigo o objectivo de colocar crianças desfavorecidas a alegrar-se com um desafio de bola, ficou a perceber duas coisas: a) naquela zona, não havia lojas para se comprar uma bola (sendo que nenhum miúdo tinha uma); b) as crianças chamadas a campo não sabiam, nem nunca tinha ouvido falar acerca, da existência de um desporto chamado futebol. Isto, num país no qual, desde 1978, são transmitidos os mundiais e em que, nesse mesmo ano, surgiu uma liga de futebol chinesa.
A disparidade entre o mundo urbano-rural, litoral-interior, ficaria ainda resumida, com especial eficácia, numa outra história: nas cidades costeiras chinesas, desde há muitos anos se bebia, com grande assiduidade, Coca-Cola. Pois os que viajaram do Interior para trabalhar no litoral, em alturas festivas em que regressassem a casa, ainda nos anos 90, levavam uma Coca-Cola como presente para os seus familiares/amigos, pois estes nunca tinham visto, e muito menos bebido, uma Cola.
Durante trinta anos consecutivos, a China cresceu, sucessivamente, a uma média anual de 9%. No entanto, ao segundo lugar na economia mundial, correspondia apenas o centésimo rendimento médio anual (à data da elaboração do livro, publicado originalmente em 2010). O número de multimilionários, de muito ricos, dos que ascendem ao mercado de luxo, confronta-se com a pobreza mais miserável (um filho pede uma simples banana aos pais, cujo dinheiro não chega para tal, pelo que a criança irrompe num choro tal que termina no desespero paterno e no suicídio deste; e logo depois deste, seguir-se-à o da mãe, na mesma noite, conta Yu Hua).
Se Mao não emparelhava com os ideais confucianos - e se Mao e Lu Xun, uma citação real ou inventada de qualquer um destes autores, esta última raríssima tal a heresia que representava, das referências dogmáticas chegava para resolver uma contenda, uma discussão em casa, ou com os amigos (sobre isso, o senhor Lu Xun disse que...), eram para seguir sem desvios -, e se uma das suas máximas, "a tudo o que o inimigo se opõe, nós devemos apoiar; a tudo o que o inimigo apoia, nós devemos opor-nos",p.126) era capaz de expressar enfaticamente quanto se vivia a preto-e-branco, com Deng Xiaoping, "não me interessa se o gato é preto ou branco, desde que apanhe o rato é um bom gato", ficava clara que a obsessão ideológica não era um motivo para a nova China.
Depois de 32 anos consecutivos a ver crescer ininterruptamente o número de candidatos ao exame de acesso ao superior, em 2009 o ano foi de retrocesso a este nível. O número de alunos nas universidades, entre 1998 e 2006 quintuplicou. A subida das propinas foi ainda bem mais vertiginosa (aumentos entre os 25 e os 50%). Para as pagar, as pessoas das cidades necessitariam, face ao seu rendimento médio anual, de mais de 4 anos para as pagar; as do campo, de um pouco mais de 13 anos. As pessoas de poucas posses foram-se endividando para tentar um futuro melhor para os filhos, mas entretanto, na viragem da primeira década do séc.XXI o número de desempregados licenciados, na China, aumentava (1 milhão, na altura; dados divulgados no ano passado apontavam para uma taxa de desemprego de 5%, na China, em cálculos sempre muito questionados: ver aqui).
No livro de Yu Hua, não faltam, como por cá nas idades adolescentes, as comparações entre os ténis dos meninos dos colégios, que usam fardas iguais e, assim, se distinguem pelos Nikes de vanguarda que colecionam (conta, não já o Nike, mas o último air Jordan ou air Kobe). Um país que é um palco onde se encenam duas peças, uma comédia (rica), e uma tragédia (pobre). Nesta última, a demolição de casas, pelos governos locais, quando as famílias não aceitavam as migalhas da indemnização, com as pessoas arrancadas das camas, presas, levando socos - em cenas que, à época, podemos testemunhar em documentários que não faltaram para expor a ditadura -, evidencia como algo do espírito da Revolução Cultural não deixou de permanecer (por muito que se pretendesse apagar da História).
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