quarta-feira, 31 de outubro de 2018

"Todas as épocas têm o seu fascismo" (Primo Levi)


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Os julgamentos de Nuremberga tinham estabelecido o princípio de que nem o «obedecer às leis» nem o «cumprir ordens» eram justificação legal para os que são acusados de violar os padrões básicos de civilização. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos criou um enquadramento que permite responsabilizar os governos, seguindo-se-lhe três anos depois a Convenção para a Prevenção e repressão do Crime de Genocídio. Nas décadas de 1970 e 80, foram aplicadas sanções internacionais à Rodésia e à África do Sul racistas, acabando, em última análise, por transformar os dois países. No mesmo período, os Estados Unidos e a UE começaram a fazer do respeito pelos direitos humanos uma condição para prestar auxílio militar a todos os países. Durante o conflito da Bósnia, foi criado um tribunal internacional para processar os autores de crimes contra a humanidade (p.136).

Queixamo-nos amargamente quando não conseguimos tudo o que queremos, como se fosse possível haver mais serviços pagando impostos mais baixos, uma cobertura mais ampla dos cuidados de saúde sem participação estatal, um ambiente mais limpo sem regulamentações, segurança contra os terroristas sem invasão da privacidade e bens de consumo mais baratos fabricados localmente por trabalhadores com salários mais elevados. Em resumo, ansiamos pelos benefícios da mudança, mas sem custos. Quando ficamos decepcionados, remetemo-nos ao cinismo, e a seguir começamos a pensar se haverá forma mais rápida, mais fácil e menos democrática de satisfazer os nossos desejos (p.147). 

Contudo, a reputação de ambos [Perón e Eva] ficaria manchada para sempre devido à decisão de oferecer refúgio a Josef Mengele, Adolf Eichmann e outros destacados responsáveis nazis, aparentemente em troca de consultoria tecnológica e dinheiro (p.155)

Estava num intervalo - os anos de 1970 - em que a Guerra Fria gerou vários confrontos entre a esquerda marxista e a direita nacionalista, na Turquia como noutros países. A subida acentuada nos preços do petróleo importado conduziu à estagnação da economia e a carências de açúcar, margarina e óleo alimentar. Temendo uma revolta, os militares [turcos] intervieram, afastaram os políticos civis e praticamente dizimaram a esquerda através da combinação de tortura, assassínio e detenção de meio milhão de pessoas. (...) Ao esmagarem a esquerda política, os militares abriram espaço para que este novo movimento crescesse. Os pobres marginalizados, impedidos de se organizarem em torno de uma ideologia, uniram-se à volta da religião. Quando um partido se levantou apelando a uma «ordem justa» e ao derrube do muro que havia muito separava o islão do Estado, os turcos compareceram em grandes números: duzentos mil em 1991; quatro milhões em 1995. «Os outros partidos têm membros; nós temos crentes», vangloriava-se um dirigente. A popularidade surpreendente da organização causou o pânico nos sectores seculares. Em 1998, as autoridades ilegalizaram-na, esperando forçar os islamitas à submissão, como tinham feito com os comunistas. Mas, enquanto a ideologia marxista fora importada, os crentes havia muito tinham criado raízes profundas no coração de Anatólia (...) Erdogan também passou a defender-se menos quanto à partilha da sua opinião sobre a identidade turca. Durante o mandato, mais de nove mil mesquitas abriram as portas pela primeira vez. As crianças que frequentavam escolas religiosas aumentaram de sessenta e três mil para mais de um milhão e meio. Aulas sobre o Islão sunita são actualmente obrigatórias para todos os estudantes. Nos discursos, um Erdogan já menos reticente passa a referir-se ao Islão como a fonte fundamental da unidade turca e fala muitas vezes sobre a importância de criar uma «geração piedosa». Cancelou as paradas do orgulho gay e condenou o activismo LGBTI (...) como sendo «contrário aos valores da nossa nação». Sempre político, estabeleceu um contraste entre o «caminho sagrado» do AKP e o suposto ateísmo dos rivais. Erdogan, o unificador de outrora, vai-se tornando polarizador, insulta os secularistas e os liberais. Tomou inclusivamente medidas para reverter um dos avanços históricos de Ataturk. A Constituição confere direitos iguais às mulheres, mas Erdogan propôs uma interpretação «ao estilo turco», condenando o controlo da natalidade, incentivando as mães a ter três ou mais filhos e sugerindo que as mulheres que trabalham são «meias pessoas». Em 2016, uma comissão parlamentar propôs baixar para quinze anos a idade mínima legal para o casamento e recomendou que os homens acusados de violação sejam autorizados a evitar o julgamento desde que consintam em casar-se com as vítimas (pp.175 e 181 e 182). 

Putin quer que os súbditos acreditem que ele é politicamente invencível. Luta diariamente para desencorajar potenciais adversários de tentarem - ou ousarem - estabelecer uma coligação nacional credível contra ele. Prefere opositores que se sentem em casa a saborear vodca e a queixar-se uns aos outros sobre como tudo é infrutífero; é isso que muitos deles fazem
Para manter o seu poder de atracção, Putin nunca se comprometeu a fundo com qualquer ideologia ou partido. Ao invés, retrata-se como o rosto de toda a nação. Não obstante poder ser terrível a atacar os opositores, não polariza intencionalmente da mesma maneira que Chávez ou Erdogan. Ao contrário dos direitistas na Europa, respeita os judeus e os muçulmanos. Reserva a maior parte das munições verbais para os inimigos estrangeiros (p.200). (...) O uso pioneiro das redes sociais como arma pela Rússia não reflecte nenhuma aptidão cultural invulgar para a pirataria informática, mas a experiência de Putin no KGB, no qual espalhar a desinformação era simultaneamente um modo de vida e uma arte. Todavia, o impacto é agora maior do que durante a Guerra Fria, porque a audiência-alvo torna-se mais acessível e maior. O Facebook tem dois mil milhões de utilizadores activos. Quais são as motivações da Rússia? Provavelmente, desacreditar a democracia, dividir a Europa, enfraquecer a parceria transatlântica e castigar os governos que se atrevem a enfrentar Moscovo. Esta agenda não é ideológica; é sobre poder, pura e simplesmente (p.201) (...) Putin tem pés de barro. A economia russa, tão robusta na primeira década do regime, permanece mais frágil do que as de Itália ou Canadá e não dá mostras de melhorar. A livre iniciativa desaparece à medida que os investidores estrangeiros abandonam o país devido a sanções, às regras pouco claras para fazer negócios e à relutância em pagar subornos. A riqueza está distribuída mais desigualmente do que em qualquer outro grande país - o regresso ao tempo dos czares. A população envelhece. A nível político, há sinais - como a menor afluência às urnas - de que os russos começam a ficar cada vez mais cansados do putinismo, apesar de a maioria não estar ainda pronta para se revoltar contra o homem (p.206).   

Madeleine Albright (com Bill Woodward), Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018. Tradução de Ana Glória Lucas

P.S.: A dedicatória da autora, reza assim: "às vítimas do fascismo no passado como no presente e a todos os que combatem o fascismo nos outros e em si próprios". O mote do livro é dado por Primo Levi: "Todas as épocas têm o seu fascismo". Nesta última citação, como que se aponta para o que há de idêntico e, simultaneamente, de diverso nos fascismos das primeiras décadas do século passado, com os movimentos autoritários do presente.

P.S.1: Pacheco Pereira escrevia no Sábado passado, no Público, que pelo menos, comparado com Bolsonaro, Mussolini sabia ler e escrever e tinha conseguido fazer com que os comboios andassem a horas. Diferentemente, Madeleine Albright considera que a ideia de que Mussolini fez os comboios andarem a horas é "um mito": o Duce tentou que tal acontecesse, mas não foi bem sucedido em tal empresa.

P.S.2: Uma das notas comuns a grandes e pequenos ditadores é, nota Albright, terem passado pela prisão: assim sucedeu com Hitler, Mussolini ou Estaline, mas também com Chavez, Erdogan ou Putin.

Para compreender o actual xadrez político brasileiro

Bolsonarismo

Encarceramento como medida única


Quem seguiu atentamente os debates e sabatinas pré-eleitorais no Brasil, ouviu, por certo, falar, inúmeras vezes, do PCC, quando os temas da violência e do crime eram chamados à discussão. Pois bem, o que é o PCC? A sigla PCC corresponde a Primeiro Comando da Capital. Facção criminosa, capaz de articulação dentro e fora das prisões, com origem em São Paulo, teve a sua primeira aparição pública em 2001. Muito recentemente, foram publicados, no Brasil, três livros/ensaios (A guerra: a ascensão do PCC e o mundo do crime no Brasil, de Bruno Paes Manso e Camila Nunes Dias; Irmãos: uma história do PCC; de Gabriel Feltran e Proibido roubar na quebrada: território, hierarquia e lei no PCC, de Karina Biondi) , que demoraram uma década (de investigação) a estarem completos, da autoria de dois antropólogos e uma jornalista, que estudaram e interpretaram aturadamente o fenómeno. Sigo, para o efeito, a recensão de Paula Miraglia, publicada na revista literária brasileira - desde há alguns meses disponível em Portugal também - Quatro cinco um.  
A primeira ideia, curiosa, que resultará dos ensaios vindos de referir é o carácter complexo de que se reveste a organização PCC, na medida em que os autores intentam qualificá-lo como ora uma empresa, ora uma Igreja, ora uma Irmandade, uma Maçonaria do crime. Existente há 25 anos, o PCC contará, hoje, com cerca de 30 mil membros no Brasil, dentro e fora das cadeias (por vezes, semeando o caos, nestas), estando, contudo, a ele ligadas, de diferentes formas, cerca de 2 milhões de pessoas. Diversificando negócios, ao longo dos anos, estarão actualmente presentes em quatro continentes.
Um segundo elemento muito relevante, e que aqui pode assomar, uma vez mais, para nos fazer confrontar com o tipo de propostas que existiram na recentíssima campanha eleitoral para as Presidenciais brasileiras - das poucas que tiveram alguma expressão pública - que ressalta das obras em apreço, a partir da síntese de Miraglia, prende-se com o facto de as políticas públicas, ao oferecerem como única resposta o encarceramento, se têm revelado não apenas infrutíferas, mas, no que ao caso do PCC diz respeito, como contraproducentes: "as pesquisas deixam claro como o encarceramento de jovens pobres e desamparados, que não necessariamente fariam carreira no crime, mas passam, de modo quase automático, a integrar a organização no momento em que são admitidos no sistema prisional. Essa é uma das marcas e estratégias do PCC. Nas palavras de Feltran, 'instrumentalizar a acção estatal repressiva em seu favor' "(p.6, Quatro cinco um, ano dois, número 15, Setembro 2018). Registe-se, aliás, neste contexto, que o Brasil possui a terceira maior população carcerária do mundo, com nada menos do que 720 mil presos, 40% dos quais em prisão preventiva.  
Os estudiosos desta organização sublinham como a hierarquia tradicional não é a chave de compreensão do PCC. Categorias nativas como "salve" (bilhetes com ordens, divulgados por WhatsApp), "baptismos" (ritual que marca a entrada na facção), "ideias", "debates" dão acesso a uma ética de conduta específica, susceptível de criar padrões de comportamento dentro e fora das prisões. 
Entre esses padrões está a humildade como valor a observar - nenhum membro deve pensar-se superior a outro. Esses valores orientam a política PCC e faz ver os seus membros como "irmãos". Daí a imagem de Maçonaria
O caso do PCC é ademais assaz desafiador de leituras mais simplistas quanto estes estudos assinalam que a gestão da sociabilidade que a organização faz (quem está autorizado a matar e quem "deve" morrer), em territórios em que o Estado não entra, esteve ligada também à grande redução de homicídios em São Paulo nos últimos 20 anos: "por muito tempo, essa foi uma versão completamente refutada pelo Estado, que explicava a redução dos homicídios pela qualidade das políticas de segurança. Hoje, essa é uma interpretação compartilhada por académicos, formuladores de políticas públicas e pela própria polícia (...) [nas palavras de Paes Manso e Nunes Dias] 'a força do PCC não decorre apenas da capacidade de governar o crime (...) mas também do apelo da sua proposta: um mundo do crime pacificado, capaz de melhorar a vida de seus integrantes, de seus familiares e moradores dos bairros onde actuam". Lê-se isto e pensa-se nas declarações auto-elogiosas de Geraldo Alckmin, para com as suas políticas, em relação ao crime, enquanto Governador de São Paulo. Hoje, o PCC tem interfaces com o legal e o ilegal. O Estado não apenas reconhece a sua existência, mas planeia as suas intervenções em diálogo com esta organização. Nesta, há confrontos sangrentos, vinganças, grandes operações financeiras. Uma máquina que movimenta dinheiro, empregos, mercados legais e ilegais, agentes policiais e criminosos. Muita violência. Na síntese do artigo da Quatro cinco um, "o Estado gasta uma fortuna com a política de encarceramento em massa, mas não consegue reverter quadros de vulnerabilidade extrema nem garantir direitos ou serviços básicos". 
Pior, só a liberalização das armas, cujos efeitos, no que se conhece - até a partir do muito que chega, a esse propósito, dos EUA - relativamente a taxas de homicídios, fazem esperar o pior. O ainda, desgraçadamente, muito pior (do que já de si trágica realidade quotidiana no Brasil, neste âmbito).

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

E o Brasil


*Um dos dados mais insólitos desta eleição no Brasil prende-se com o facto de a Câmara dos Deputados passar de uns impressionantes 25 partidos que integravam a legislatura 2015-2019, para uns inimagináveis 30 partidos na legislatura que se segue. Sendo que a esta proliferação partidária estava indissociavelmente ligada a questão da "propina", quer dizer, da corrupção. Como convencer, de modo legal, os partidos a aprovar legislação proposta por quem sustenta o Executivo? Vai ser um dos pontos mais curiosos de observar. Honra seja feita, neste ponto, a Geraldo Alckmin, do PSDB, o único a colocar, ainda durante a primeira volta das Presidenciais, nos debates iniciais, a urgência da reforma deste sistema. Depois, veio a facada a Bolsonaro, o fim dos debates e de qualquer outra coisa que não uma gritaria e verbalização de ódio. 

*O Presidente do Brasil tem à sua disposição a nomeação de 24,6 mil pessoas para cargos que lhe incumbe fazer preencher.

*Uma expressão curiosa de Ricardo Alexandre para caracterizar o carisma de Fernando Haddad: "tem tanto de político e de capacidade de empolgar as massas como este escriba de conhecimentos de 'cultura de beterraba em meio hídrico não alcalino', para citar o saudoso mestre António Jorge Branco" (DN, 28-10-2018, p.6)

*Dados ainda da primeira volta das Presidenciais brasileiras: em 95% dos municípios mais ricos do Brasil, Bolsonaro venceu; em 90% dos mais pobres, ganhou Haddad; 70% dos municípios com maioria de população não branca votaram Haddad, 90% das cidades com maioria branca votou Bolsonaro. [o levantamento foi realizado por ElPaís]

*De acordo com Catarina Carvalho, "um estudo recente do Instituto Americano de Imprensa descobriu que mais de metade dos leitores não distinguem entre factos e opiniões - embora mais de 63% preferissem que houvesse mais factos do que opiniões na informação. Entre estes, os que têm mais dificuldades são os que usam a tv como principal meio de informação" (DN, 28-10-2018, p.2). A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.
Curiosamente, diz-nos Julie Posetti, investigadora do Reuters Institute e autora de um manual para a Unesco, "a investigação mais recente sugere que as redes sociais na verdade expõem os utilizadores a mais fontes de informação [e não a bolhas]. O problema é que, como nas redes sociais todas as fontes parecem iguais, é mais fácil manipular os utilizadores. Isso acaba por obrigar os meios de comunicação a ter mais trabalho para merecer a confiança dos leitores. Obriga a criar hábitos de verificação, de transparência e de colaboração com a comunidade. Devo dizer que por um lado estou confiante de que a era digital nos dá mais formas de evitar as tais bolhas, mas ao mesmo tempo isto exige um grau de responsabilidade por parte do utilizador. As notícias foram democratizadas, isso exige mais ao jornalista mas também ao cidadão: não chega simplesmente aceitar a afirmação de um político, é preciso verificar e pensar de forma crítica" (DN, 28-10-2018, p.14). Um estudo muito recente, levado a cabo em Itália e França pelo Reuters Institute, mostra que o consumo de informação em páginas on line de jornais, rádios, tv é maior do que o de páginas de desinformação, mas o número de interconexões - comentários, partilhas, reacções -, geradas por um pequeno número de páginas falsas igualaram ou excederam as interacções com marcas de notícias mais populares.

*Bernardo Pires de Lima dá nota de que, na Holanda, há uma entidade fiscalizadora, que verifica a exequibilidade das propostas dos diferentes partidos ou candidaturas, filtrando a intrujice, o eleitoralismo barato e pugnando a relação entre partidos e cidadãos pela responsabilidade e seriedade.

*Título de artigo de Ruy Castro: "A palavra do ano no Brasil: 'ódio'. E, em segundo lugar, 'medo'."

*Desde 1989 que não havia uma eleição sem debates entre os candidatos (como agora se verificou na segunda volta, por opção de Jair Bolsonaro).

*Confirmou-se que, pelo menos até ao presente, nunca um candidato que ganha a primeira volta das Presidenciais no Brasil, perde no segundo turno.

*O PT está em nono lugar no que a uma perversa classificação diz respeito, na política (partidária) brasileira diz respeito: no número de políticos "caçados" por corrupção. Se bem que o facto de ter um Presidente nessas condições adquira uma dimensão qualitativa que a mera "quantidade" não capta.

*"Em momento solene, em discurso público, num lugar político nobre, o Congresso, frente a câmaras de televisão, ele [Jair Bolsonaro] ter aplaudido e dado vivas ao torturador Carlos Brilhante Ustra. (...) Ustra foi um torturador do regime militar brasileiro e colocava fios eléctricos descarnados nas vaginas de mulheres e chegou a mostrar aos filhos das presas a mãe nua, urinada e vomitada" (Ferreira Fernandes, DN, 28-10-2018, p.48)

*6 a 7 milhões de entre os cerca de 35 milhões de brasileiros que com os governos Lula da Silva se estima que tenham saído da pobreza, a ela terão regressado, com a recessão económica que passou também e muito por um Governo PT (com Dilma Rousseff)

A avaliação de Freitas do Amaral


Na parte em que o dr.Passos Coelho e a sua equipa cumpriram o que era inevitável, eu não posso deixar de lhes agradecer (...) O problema é que ele disse que queria ir mais além do que a troika. E quis. E foi. Fez mais privatizações do que a troika exigia, fez mais cortes na despesa do que exigia, escolheu cortes que eram muito mais duros do que a troika exigia (...)

[um governo PS com apoio parlamentar do PSD] tornava mais fácil o cumprimento das metas europeias e fazer certas coisas que esta maioria parlamentar trava. Por exemplo, a redução da dívida pública. Nós temos um grande problema com a dívida pública, devíamos estar a reduzi-la mais depressa, se possível. Se houvesse apoio do PSD, de certeza que isso seria mais fácil. Contudo, tornar-se-ia mais difícil tomar algumas medidas de justiça social - abonos de família, pensões de reforma, aumentos de salário mínimo, melhoria da situação de determinadas categorias profissionais, saúde, segurança social, etc. Portanto, o meu lado de conhecedor de economia e Finanças gostava de uma solução acordada com o PSD, o meu lado democrata-cristão, solidário com os mais pobres, gostava da continuação da geringonça. O povo português decidirá.

Diogo Freitas do Amaral, entrevistado por Arsénio Reis e Catarina Carvalho, para a TSF/DN, publicado no DN a 28-10-2018, pp.18-19.

sábado, 27 de outubro de 2018

Editar


Que tratamento editorial a dar ao II Volume das Memórias do Prof.Cavaco? Por um lado, a grande novidade da obra, e normalmente isso é que faz/seria notícia, está em Cavaco colocar-se como a guarda avançada contra a troika, dado que esta era de "um absurdo e uma prepotência inaceitável" e tratava "Portugal como se fosse um protectorado", sendo "inconcebível a atitude de inflexibilidade e de insensibilidade social"; em assinalar Vítor Gaspar como mais troikista do que a troika - "o seu compromisso era com o país, não para com a troika. O que os portugueses esperavam era que ele enfrentasse a troika e a convencesse a recuar. E não me parecia que fosse impossível convencer os nossos parceiros europeus do absurdo da posição irredutível da troika"; em observar que alertou  Passos Coelho para os efeitos da Lei das Rendas, nomeadamente para o facto de os idosos, sobretudo os mais pobres, não terem os direitos acautelados - "o governo falhou ao não aprovar logo as condições de acesso ao subsídio de renda"; em notar a "obsessão" de Passos com o Tribunal Constitucional, em especial a ideia de se demitir em função de pronunciamentos por parte deste - "se desistisse significava que o PSD e o CDS não eram capazes de governar numa democracia constitucional. Não havia precedentes de uma tal atitude por parte de um Governo. O Governo não pode encarar uma decisão do TC como aprovação de uma moção de censura".
Por outro lado, também é manifesto que o principal significado político do livro, das entrevistas que Cavaco deu em sequência da publicação do mesmo, e do posicionamento político do ex-PM é o da crítica à actual solução governativa e uma colagem a Passos - que é um bocado paradoxal face a discrepâncias "profundíssimas", como ontem lhe sublinhava Clara de Sousa, na Sic, que sustenta, no livro, como as passagens vindas de destacar, terem existido face ao Executivo anterior
Um jornalista, portanto, que decida fazer uma notícia acerca do livro de Cavaco confronta-se, pois, com esta situação: dar ênfase a não notícias que estão plasmadas na obra, relativamente ao actual PM e à solução/coligação que o sustenta (que é o que o autor pretende, politicamente, passar); ou acentuar novidades, como as grandíssimas divergências que Cavaco manifesta face ao Governo Passos que, na verdade, são depois, em sucessivas entrevistas, "desdramatizadas", se possível ignoradas, sendo o foco colocado noutro lado (nem, se assim não fosse, Passos marcaria presença no lançamento da obra, nem todos os demais grandes protagonistas políticos portugueses, na actualidade, estariam ausentes do mesmo).
Em função das diversas pré-publicações em diferentes media, pelos excertos conhecidos, somos com Ricardo Sá Fernandes a dizer que o que mais impressiona no que se conhece do livro é a falta de reflexão acerca dos grandes temas nacionais. Ficam os retratos de caracteres, ficam as revanchezinhas, o pequeno corte na casaca que alimenta a política com minúsculas, mas nada há com grandeza, do que se conheceu nas últimas duas semanas sobre o livro. 
Cavaco fica com uma página saliente enquanto PM - com uma política desenvolvimentista, fontista, neo-keynesiana, em grande medida necessária, à época, ao país, com desenvolvimentos ao nível do Estado Social, sem ignorar do que houve, simultaneamente, contudo, de desindustrialização e dos dinheiros comunitários para destruir sectores económicos muito relevantes -, mas sem nota enquanto PR. A tentativa de se reencontrar com 10 anos muito aquém das expectativas, também não parece estar a ser particularmente feliz
Não deixa de ser curioso que o escrito de Cavaco se apresente, agora, com uma consciência social-democrata, na qual, não raro, ao longo de anos, o autor foi enquadrado, mesmo se, no momento presente, apenas por oportunismo - como o qualifica, em editorial, Ana Sá Lopes. Mesmo que o que escreve agora não tenha sido exactamente o que pensou, fez, ou pelo menos, com a relevância que agora se atribui, a verdade é que ao escrevê-lo, e assim querendo passar à história, Cavaco presta, objectivamente, tributo a esses valores (os da equidade que não foi garantida na distribuição dos sacrifícios, segundo agora refere - "cometeu o erro de não cuidar adequadamente da equidade na repartição dos sacrifícios que foram exigidos aos cidadãos"); o da preocupação com despejos desumanos de idosos - como o Público/RR confrontou Assunção Cristas, principal autora política da Lei das Rendas; o do respeito pela Constituição, ou, até, a recusa da TINA, quando sustenta o pluralismo no interior da Economia, afirmando que o PM não podia chamar "ignorantes" a quem não concordava com o Ministro das Finanças, pois "em Economia não há soluções únicas"). Já não é coisa pouca.

P.S.: Clara de Sousa continua a confirmar-se como uma entrevistadora política de excelente nível. Na TSF, com Fernando Alves, Cavaco não quis dizer se votaria no candidato que concorre contra Bolsonaro, no Brasil. Um pouco como fez Assunção Cristas. Pena que não tenham seguido bons exemplos, nesta matéria, como os de Freitas do Amaral, Pinto Balsemão ou Paulo Rangel. E a carta de David Dinis ao Observador é tremenda.

"Modos de ver", com John Berger




Quais são as actuais condições de acesso à obra de arte, ao quadro, à pintura, à imagem? Se compreendermos em que condições nos encontramos, neste âmbito, saberemos mais sobre nós-outros, contemporâneos. E entenderemos, igualmente, o que nos diferencia face a uma tradição de séculos.
A perspectiva, que diferencia a arte ocidental, coloca o centro no olho humano. Durante séculos, o quadro, a imagem fazia parte de um todo, uma Igreja, um museu, e só poderia ser captada nesse contexto. Era preciso ir até às imagens. Com a câmara, com a reprodução das imagens, podemos vê-las em nossa casa, às vezes ficarmo-nos por um dos detalhes de um quadro apenas, e em vez de um mosaico em que aquela pintura se integrava, temos agora a janela do nosso quarto em fundo, a nossa secretária; em vez do novo, a familiaridade das coisas. O pano de fundo – nem a obra completa, necessariamente; nem integrada em um conjunto, mas destacada deste; não o singular, o novo, mas o familiar como enquadramento – muda substancialmente. Deixa de haver peregrinação às imagens (quadros, pinturas) e passam a ser as imagens que vêem até nós. Ainda assim, poderíamos dizer que as reproduções são toscas, imperfeitas, longe do original, o que não nos dispensa de as ir observar in loco.  
Ora, conceitos como autêntico, como genuíno, uma certa religiosidade adstrita à arte assenta, quase sempre, num liame de tipo económico – o preço muito elevado de determinado quadro, por exemplo – e só deixando e superando essa aura (com esse tipo de conexão) se pode aceder a algo mais – a algo maior – nessa “originalidade” (que as imagens possam conter). Essa “religiosidade” é um substituto do que de facto as pinturas perderam quando passou a haver reprodução de imagens.
A câmara, ao reproduzir as imagens, tornou possíveis vários significados para as imagens, em vez de um único, destruindo o seu significado original e único. Ganharam algo com isto, as obras de arte? Ganharam e perderam, em simultâneo. O importante acerca das imagens, elas mesmas, é que são silenciosas e quietas. É como se a imagem imóvel fosse um corredor que conecta com o momento que ela representa, com o momento em que uma pessoa olha. E algo viaja por esse “corredor” a uma velocidade maior do que a luz, questionando a nossa forma de medir o tempo.
Dado que as pinturas são imóveis e silenciosas, e porque o seu sentido já não está adstrito a elas tendo-se tornado transmissível, prestam-se a manipulação. Podem ser usadas para sustentar argumentos ou pontos de vista que podem ser muito diferentes do seu significado original. E, como são imóveis e silenciosas, uma forma óbvia de manipulação é usar som e movimento. A câmara aproxima-se para mostrar um pormenor isolado do conjunto (do quadro). O seu sentido muda. Uma figura alegórica transforma-se numa jovem formosa, em qualquer parte. De formar parte de um estranho mundo poético de metamorfose, um cão pode transformar-se numa mascote.
Um quadro de Bruegel, O caminho do Calvário, com um significado claro, uma multidão ávida de curiosidade, com superstição, e as figuras de Cristo e João transforma-se pela tv em algo imperceptível que necessita do zoom de aproximação para dizer algo. É possível isolar detalhes que façam desta pintura aquilo que ela não é, um quadro devocional. Mas com um simples movimento de câmara, este mesmo quadro, pode ser tomado como exemplo de pintura paisagista. Os detalhes podem, ainda, fazer dele um quadro acerca da história do vestuário. Ou dos costumes sociais.
O sentido, o significado de um quadro também é influenciado por aquilo que ouves (que estás ouvir enquanto o vês; por exemplo, dão-te a informação de que se trata do último quadro de Van Gogh antes de se suicidar e de imediato uma música melancólica passa enquanto observas o quadro). Um Caravaggio recortado por uma ópera italiana, ou por um coro religioso são coisas bem distintas.
O significado de uma imagem pode mudar consoante aquilo que esteja a seu lado, ou o que venha a seguir – por exemplo, se pensarmos no modo de reprodução da imagem em um jornal.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Um alerta


Cícero declarou que «governar uma república é uma arte difícil». Entre a sua época e a nossa, não se tornou mais fácil. Consideremos que, de todas as pessoas que festejarem este ano o seu décimo sexto aniversário, nove em cada dez fá-lo-ão num país com um nível de vida abaixo da média. Nas quatro dúzias de nações mais pobres do mundo, a população adulta mais do que triplicará até meados do século. Globalmente, mais de um terço da força de trabalho não conta com emprego a tempo completo. Na Europa, o desemprego juvenil é superior a vinte e cinco por cento, e este nível é ainda mais elevado entre os imigrantes. Nos Estados Unidos, um em cada seis jovens não frequenta a escola nem tem emprego. Os salários, em termos reais, estão estagnados desde os anos 70.
Estes números seriam perturbadores em qualquer época, mas são particularmente preocupantes na actualidade, quando são tantos os países onde a população que atinge a idade adulta está ansiosa por iniciar uma carreira, mas não tem nenhuma hipótese realista de o fazer. Pensemos no candidato a um doutoramento que conduz um táxi; no licenciado que anda a abrir valas; e no elevado abandono escolar que não tem oportunidade de ser contratado. As pessoas querem votar, mas precisam de comer. Em muitos países, o clima faz recordar aquele que, há uma centena de anos, conduziu ao fascismo italiano e alemão.

A inovação é o principal gerador de emprego, mas é igualmente o seu destruidor número um. A tecnologia tem permitido às empresas aumentar a produtividade - uma bênção para os consumidores, mas não para aqueles cujos empregos se tornam obsoletos. É por isso que temos menos mineiros de carvão, trabalhadores agrícolas, rebitadores, soldadores, calceteiros, empregados bancários, costureiras, ferreiros, tipógrafos, jornalistas de imprensa, caixeiros-viajantes e telefonistas - um défice que não é compensado pelo aumento de programadores informáticos, consultores, técnicos de saúde, especialistas em aconselhamento sobre dependências e estrelas dos reallity shows da televisão. O concorrente mais difícil para qualquer trabalhador é uma máquina que pode fazer o mesmo trabalho quase sem custos. Esta competição desigual entre as nossas invenções e a nossa força de trabalho deprimiu os salários e privou milhões de pessoas da dignidade que provém de um emprego regular - e, juntamente com isso, do sentimento valioso de se sentirem úteis e do optimismo quanto ao futuro.
Com este pano de fundo, o espírito de celebração que nasceu em muitos - eu incluída - quando a Guerra Fria terminou dissipou-se. Em 2017, o Índice de Democracia do The Economist mostrou um declínio na saúde democrática de setenta países, com base em critérios como o respeito pelo devido processo, a liberdade religiosa e o espaço concedido à sociedade civil. Entre as nações menos bem pontuadas estavam os Estados Unidos, que, pela primeira vez, foram considerados uma «democracia deficiente», em vez de «plena». (...) O número de americanos que dizem ter fé no seu Governo «tal como sempre» ou «na maior parte das vezes» desceu mais de setenta por cento no início da década de 1960 para menos de vinte por cento em 2016.
Sim, continua a haver avanços. Em África, quarenta chefes de Estado abandonaram o Poder voluntariamente no último quarto de século, comparados com uma simples mão-cheia nas três décadas anteriores. No entanto, os progressos registados em África e num reduzido número de países não conseguiram obscurecer um nivelamento mais geral. Actualmente, cerca de metade das nações da Terra podem ser consideradas democracias - deficientes ou não -, enquanto as restantes cinquenta por cento tendem para o autoritarismo.
As sondagens indicam que a maioria da população continua a acreditar que a democracia representativa (...) tem partes excelentes. Contudo, as mesmas sondagens demonstram uma curiosidade crescente acerca de potenciais alternativas. Em média, uma pessoa em quatro tem boa opinião de um sistema que permite a um líder forte governar sem a interferência do parlamento ou dos tribunais. Uma em cada cinco sente-se atraída pelo conceito de um governo militar. Previsivelmente, o apoio às opções não democráticas é mais evidente entre as pessoas, sejam elas da direita ou da esquerda políticas, que não possuem instrução superior e que se sentem infelizes com as circunstâncias económicas - os grupos mais atingidos pela evolução na natureza do posto de trabalho. A crise financeira de 2008 reforçou esta tendência, levando muitos cidadãos a duvidar da competência dos dirigentes e pôr em causa a justeza de sistemas que parecem proteger os ricos à custa de todos os outros.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube do Autor, 2018, pp.141-144.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Separados à nascença (III)


*Na crónica que assina no mais recente número do JL, Hélder Macedo dá nota de que, no ano passado, a edição que organizou, com as obras, tão completas quanto possível, e com inéditos poemas que encontrou e juntou à edição, de Bernardim Ribeiro, um dos "três grandes" (a juntar a Camões e Sá de Miranda) da nossa "época de ouro", publicada pela Presença vendeu 2 exemplares. Lemos bem: dois.

*Também ao JL, diz, em entrevista, Hélia Correia: "sempre digo que o mundo começou a perder desde que o século de ouro grego acabou. Porque o gosto pela discussão de ideias, o amor, a volúpia, a liberdade da palavra foram empobrecendo. Até à proibição, até à palavra ser considerada perigosa, com as ondulações da História. O que sinto é que, hoje, pelas condições que existem, se podia ser mais exigente ao nível da palavra. E Portugal é, neste aspecto, paupérrimo, porque as pessoas parecem não gostar de falar, de debater, quanto mais de ler ou escrever literariamente. As pessoas não só não se entendem, como não têm prazer na troca, porque a comunicação não se faz. Cada um está ligado aos seus aparelhinhos" (p.17, nº1254). 

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Os jovens e a política

COMO CAIU MUSSOLINI


O momento crucial surgiu em finais de 1942, quando as forças aliadas forçaram a saída do Eixo do Norte de África, criando uma plataforma para libertar a Europa a partir do Sul, através da Itália. A deterioração da posição deste país reflectiu-se em mudanças no seu dirigente.
Nem o italiano comum, nem as forças armadas, nem o acossado rei desejavam ser associados ao Terceiro Reich. O paganismo transparente de Hitler não caía bem nos católicos e muitos resmungaram quando, em 1938, Mussolini permitiu os mesmos estatutos antissemitas aprovados anos antes na Alemanha. Mesmo os que adoravam o Duce, e talvez especialmente esses, não gostaram de o ver sócio minoritário de um racista teutónico (...) O Grande Conselho do Partido Fascista reuniu-se [em Julho de 1943] em Roma. (...) Enquanto ele [Mussolini] discursava os delegados fizeram circular furtivamente uma declaração propondo o restabelecimento dos plenos poderes constitucionais do rei e do Parlamento. O principal autor, Dino Grandi, estivera no início entre os companheiros mais militantes de Mussolini. Agora, levantava-se para enfrentar o antigo chefe:

O senhor acredita que conta com a devoção do povo, mas perdeu-a no dia em que amarrou a Itália à Alemanha. O senhor sufocou a personalidade de toda a gente sob o manto de uma ditadura historicamente imoral. Deixe-me dizer-lhe que a Itália se perdeu no dia em que o senhor colocou o galão dourado de marechal no seu boné.

A resolução de Grandi, posta à votação, foi aprovada (...) contando-se o genro de Mussolini entre os que pediam a mudança. O ditador infalível já não contava com o apoio do partido que tinha forjado na bigorna do próprio poder - e desta maneira uma votação de vinte minutos fechou a cortina sobre vinte anos de fascismo. Numa última tentativa de salvação, o Duce procurou obter uma renovada declaração de solidariedade por parte do rei - em vão. Durante mais de duas décadas, Vítor Emanuel curvara-se perante Mussolini porque sentia que não tinha outra opção e porque era cobarde. 
Agora, finalmente, as cartas mais altas tinham caído na sua mão. «Hoje, o senhor é o homem mais odiado de Itália», disse o rei ao visitante. «Se isso for verdade, apresento a minha demissão», foi a resposta. «E eu aceito-a incondicionalmente», declarou ainda Vitor Emanuel. 
As notícias sobre o fim de Mussolini foram recebidas com celebrações por toda a Itália. As fotografias emolduradas do ditador deposto foram retiradas das paredes aos milhares e deitadas nos caixotes do lixo; de repente, não havia nada mais difícil de encontrar do que um fascista confesso. (...) As tropas de Hitler ocuparam a parte setentrional do país e insistiram em que Mussolini fosse o chefe de um regime fantoche. Ele aceitou, infeliz, praticamente prisioneiro dos alemães. (...)
Nos dias finais da guerra, soldados americanos e comunistas italianos convergiram para o mal defendido quartel-general de Mussolini. O ditador caído fugiu, primeiro com a esperança de se encontrar com o que ele imaginava ser um resíduo substancial de seguidores preparando-se para resistir. Fracassado este plano, ele e os companheiros juntaram-se a alguns soldados alemães que estavam em fuga na direcção da fronteira austríaca. No dia 28 de Abril de 1945, apesar de ele envergar um sobretudo e um capacete da Luftwaffe, foi reconhecido por membros de um destacamento comunista. Um pelotão de fuzilamento matou-o, bem como a amante de longa data, Claretta Petacci, e outros membros do grupo, meteu os corpos num camião e despejou-os em Milão.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, 2018, pp.99-103

"O FASCISMO NÃO É UMA EXCEPÇÃO À HUMANIDADE, MAS PARTE DELA"


Em retrospectiva, é tentador rejeitar todos os fascistas dessa época [anos 20/30 do séc.XX] como tipos malévolos ou lunáticos, mas isso é demasiado fácil e, ao provocar a complacência, é também perigoso. O fascismo não é uma excepção à humanidade, mas sim parte dela. Mesmo as pessoas que se filiaram nesses movimentos por ambição, ganância ou ódio, provavelmente não tinham consciência dos verdadeiros motivos - ou então negavam-nos perante si mesmas
Relatos orais desse período testemunham a esperança e o entusiasmo que o fascismo gerou. Homens e mulheres que tinham desesperado por uma mudança política subitamente sentiram-se perante as respostas que procuravam. Ansiosas, percorreram longas distâncias para assistir a comícios fascistas, nos quais encontraram almas gémeas desejosas de restaurar a grandeza da nação, os valores tradicionais da comunidade e o optimismo quanto ao futuro. Ali, nesta cruzada, ouviram explicações que para elas faziam sentido acerca das poderosas correntes que estavam em movimento no mundo. Ali encontravam as oportunidades que procuravam para participar em grupos juvenis, organizações de atletismo, acções de solidariedade e actividades de formação profissional. Ali estavam as ligações de que precisavam para iniciar um negócio ou pedir um empréstimo. Muitas famílias que se tinham limitado a ter dois filhos, pensando que eram os que podiam criar, encontravam a confiança necessária para ter quatro, cinco ou seis. Na companhia de outros fascistas com quem sentiam afinidades, podiam partilhar uma identidade que lhes parecia correcta e envolver-se numa causa que serviriam com alegria e espírito franco. Acreditavam que estes eram prémios pelos quais valia a pena marchar e até renunciar às liberdades democráticas - desde que os dirigentes pudessem cumprir o prometido e tornar reais as suas fantasias.
Durante muito tempo, pareceu que esses líderes podiam fazer o que prometiam. Ao longo dos anos de 1920, Mussolini tinha o aspecto de vencedor, assim como Hitler depois de 1933.  Neles - mais do que em quaisquer outros estadistas europeus - residia a confiança de que viessem a ser bem-sucedidos onde os políticos convencionais tinham fracassado. Eles eram os pioneiros, os visionários que estavam firmemente em contacto com o perturbador, e no entanto estimulante, zeitgeist, o espírito do tempo. (...)
O fascismo consolidou-se porque muitas pessoas na Europa e noutros lugares viram nele uma vaga poderosa que estava a transformar a história, que apenas a elas pertencia e que não podia ser travada.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube do Autor, 2018, pp.86-87.

Humanos e outros animais


Uma colega de Filosofia contava-me, há dias, que enquanto há 20 anos, no teste do trolley - de repente, a 100 metros, está um homem em cima da linha em que seguimos, não dá tempo para pararmos, a única alternativa é desviarmos o volante para a linha do lado, ainda que com isso coloquemos fim à vida de 10 animais -, os estudantes (adolescentes, do Secundário) respondiam, sem hesitações, que poupariam a vida do humano, hoje, as respostas são "ela por ela, 50/50" - ou, pelo menos, os meninos perguntam de que animais se trata (e, consoante a resposta, optam). 
Procuro também testar junto de adolescentes de 15/16 anos, a amostra não é demasiado ampla, mas os resultados, de facto, são idênticos. 

Uma cultura que, no fundo, perdeu a noção do fundamento mais forte da dignidade da pessoa (no qual se alavancava a dignidade da pessoa). Uma cultura que não sabe, e ou não crê nesse "criado à imagem e semelhança de Deus". Uma cultura e uma comunidade onde não se tornou óbvio o valor de cada humano único e irrepetível. Uma sociedade que considera talvez mesmo que afirmar esse valor é um modo de antropocentrismo obsoleto.
Ou, ainda, nos termos mais corrosivos de um Houellebecq, o Homem revoltado contra si próprio (e mais do que a elevação dos animais a humanos, não menos que a transformação dos humanos em animais).

Bloco de apontamentos


*Em finais de 2017, havia 13303 reclusos em Portugal. Menos de metade - não chegava aos 6 mil - trabalhava. Ainda existem muitas cadeias, incluindo a de Vila Real, com sobrelotação.

*Paulo de Morais chamava ontem a atenção no Público para o facto de no Orçamento de Estado para 2019 estar incluída uma verba de mais de 1700 milhões para o Fundo de Resolução da Banca. E recordava as declarações de Maria Luís Albuquerque, sobre o mesmo tema, na legislatura anterior: a transferência do OE para o Fundo de Resolução da Banca, naquele ano, seria, irrepetível (no futuro) e o dinheiro recuperável. Chegados aqui, nem uma coisa, nem outra.

*Paulo Rangel também ontem, no Público, reclamava do pouco escrutínio, mediático e da sociedade civil, ao número exagerado de casos, em que membros da mesma família integram o actual Executivo português, no que colocaria em cheque o princípio republicano
No mesmo texto, e ao contrário de outros condescendentes na mesma área política, Rangel escreveu que face a Bolsonaro não se pode hesitar (na sua condenação).

*Não abriu telejornais em Portugal - também porque, como refere Nobre-Correia, quando a televisão pública tem um telejornal com o dobro ou triplo do tempo dos seus congéneres europeus, isso significa uma falta de hierarquização do relevante, o meter-se tudo na mesma sopa turva e não contribuir-se para o empoderamento da opinião pública portuguesa -, mas assistiu-se a uma cisão na Igreja Ortodoxa, na Ucrânia, com o beneplácito de Constantinopla, considerada a maior desde o séc.XI. São placas tectónicas que se movem no fermento de uma sociedade e que, porventura, indiciam ainda ulteriores ondas sísmicas/conflituais.

*Pergunta hoje Rui Tavares no Público: face à objecção recorrente - serão todos os brasileiros/italianos/turcos, etc. - fascistas (para votarem do modo como o fazem)? - a resposta do historiador: e nas primeiras décadas do séc.XX, eram todos os italianos, ou alemães fascistas?

*Em 4 anos, o Salário Mínimo Nacional sobe 95 euros mensais. É bem significativo e não levou a encerramento de empresas, ao aumento do desemprego nem ao abrandamento económico.

*Como mostra a reportagem do La Reppublica, o elevador social em Itália, à semelhança de muitos outros lugares do mundo industrializado, está quebrado. Como são as ilhas de membros de famílias mais desfavorecidas que chegam ao topo?: a) os meninos são muito diligentes nas aulas; b) o contexto social dos outros meninos da turma (que sendo mais elevado pode puxar pelo menino oriundo de famílias com menos apetrechos educacionais/culturais/sócio-económicos; aspecto, aliás, muito relevado por Esping-Andersen nos seus estudos sobre o Estado-Providência, quer nos domínios cognitivos, quer nos não cognitivos); c) melhor clima disciplinar na(s) escola(s) frequentada(s) por estes alunos.  Apenas 6% dos alunos pobres de Itália estão matriculados em "escolas de prestígio". Em Itália, apenas 9% da pessoas entre os 25-64 anos que completou o ensino superior tinha pais que não haviam completado o Ensino Secundário.
Em escolas mais difíceis e periféricas, os professores que lá ensinam são mais precários. Leia-se a notícia  aqui.

*Também em Espanha, a "segregação" escolar - o acesso a boas escolas muito ligado à classe social em que se nasce, com uma brecha logo aos 10 anos - é muito precoce. O ElPaís sublinha, contudo, a importância da resiliência emocional quando observa como, ainda assim, um pequeno grupo, de entre os que nasceram em famílias menos favorecidas, consegue singrar. Vide aqui.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Uma luta agónica pela fé


Os testemunhos recolhidos pelo The New York Times, a propósito das repercussões para a fé de crentes católicos (nos EUA) que, naturalmente, conheceram o relatório sobre a questão dos abusos sexuais, são muito impressivos porque contém, ainda, uma vivacidade, uma importância conferida à fé, uma autenticidade e diálogo interior, uma luta agónica com/pela fé que está aqui muito bem documentada - e que é o contrário da indiferença e da frieza, da rotina, que por cá tantas vezes se vê:

Uma das grandes questões que também se colocam com a eleição de Bolsonaro

Resultado de imagem para Amazónia

Do Conselho Editorial do New York Times:


Ver na íntegra, aqui.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Memória (II)


Prosseguindo com Fascismo. Um alerta, de Madeleine Albright:

A guerra civil espanhola durou quatro anos e matou mais de meio milhão de pessoas. Do lado dos republicanos, apareceram voluntários de 54 países diferentes - mas as questiúnculas e divisões no meio esquerdista foram um grande problema para um putativo sucesso inalcançado. Também foi solicitado apoio a Estaline. Do lado franquista, o apoio de forças nazis e fascistas italianos. Os combates não foram menos do que selvagens. Sobre Barcelona, incluindo bairros residenciais, edifícios públicos, 1300 mortos de uma assentada. Sobre Guernica,  onde se deu um o célebre bombardeamento alemão, culpabilizando-se ainda as vítimas. Os republicanos, por sua vez, não deixaram de fazer cerca de 10 mil vítimas entre  bispos, padres, freiras, monges - sendo que a hierarquia católica esteve, sobretudo, ao lado de Franco, ainda que alguns padres fossem contrários e hostis ao poder nacionalista. As forças republicanas renderam-se em 1939 - mas Franco, depois, não aceitou ir para a guerra com Hitler e Mussolini, apesar das pressões e da presença em pessoa do Fuhrer (colocando, nomeadamente, exigências tidas como incomportáveis, como ficar com Marrocos, no que desagradaria ao regime de Vichy que, a concretizar-se, deixaria de ser colaboracionista, segundo os cálculos germânicos).

Hitler teve, à semelhança do caso italiano com Mussolini, os seus rufiões e (no caso) camisas castanhas. Intimidou, espancou e matou com as SA de Rohm. Essenciais para a subida ao poder, mas perigosas para lidar com o establishment. Quando Rohm sugere as SA no lugar do Exército, não só lhe é negada a pretensão, como, daí a nada, está a ser capturado pela Gestapo e morto (por ordem do ex-amigo; daquele que ajudou a fazer ascender ao poder).
Hitler, que conhecia bem as ruas, usou a linguagem e os conteúdos que sabia interessarem à plateia, e que não passavam por argumentos abstractos. Palavras fortes, incendiárias, capazes de captar, a um tempo, a ira e o ódio, e de os gerar. Capaz de dar uma fé que os seguidores não seriam capazes de estruturar, mas da qual careciam. Hitler chega ao poder, tal como Mussolini, não porque tenha ganho uma eleição, mas também não à margem da Constituição. Depois, sim, imediatamente abolirá partidos políticos, acabará com sindicatos, colocará nazis fiéis em todas as estruturas políticas, desde logo municipais. Mentirá sem pejo, e beneficiará da complacência dos que o subestimaram. Juntamente com Mussolini, nele estará presente o ressentimento para com uma sociedade que o não reconheceu, mais o seu génio, durante anos. Será declaradamente bárbaro, imoral, sem qualquer piedade. Anti-comunista bem antes de o partido chegar ao poder, ainda que o vermelho da bandeira nazi aludisse a uma preocupação social (cujo nome terá o termo "socialista" pelo meio e diz representar os "trabalhadores"), acabará com o 1º de Maio, tornando-o feriado pago e a 2 de Maio, ocupando as instalações dos sindicatos em todo o país.

Memória


Com Madeleine Albright, é interessante recuperar a biografia de Mussolini, aclamado no seu tempo por Thomas Edison como o «génio dos tempos modernos», por Gandhi como «super-homem», ou com o qual Churchill prometeu estar na «luta contra os apetites bestiais do leninismo». 
Nascido em Predappio, a 65 km de Florença de pai ferreiro e socialista e de mãe professora e devota, vivendo desafogadamente, frequentou colégios internos, dirigidos por religiosos, desde os 9 anos, e nos quais se levantou em luta contra a injustiça, quando observava a separação, às refeições, entre os alunos mais abastados e os demais (entre os quais se contava Mussolini). Brigão e duro, gostava, contudo, também da leitura: dos periódicos diários, a Os miseráveis, de Vítor Hugo. Expulso aos 11 anos do colégio, por esfaquear colegas. Obteve o diploma para professor, mas a falta de disciplina nas suas aulas levou a que fosse dispensado. Aos 19 anos, viaja para a Suiça, onde trabalhou como operário, dormia em cima de um caixote de madeira e foi preso por vadiagem (uma de várias detenções). Depois de sair da cadeia, arranjou emprego como pedreiro e tornou-se activo no sindicato. Foi na época em que houve uma viragem das leis laborais num sentido mais favorável aos trabalhadores. Mussolini não era um pensador original, mas um "talentoso actor". Foi expulso da Suiça, regressou a Itália, e escreveu um folhetim contra as elites, em favor dos trabalhadores e apelando, mesmo, à via da violência, com a revolução como método. 
Subitamente, muda de ideologia: "a reviravolta pode ter resultado de uma mudança sincera de opinião, porque os compromissos ideológicos de Mussolini nunca foram profundos e o pacifismo era alheio à sua natureza, mas existem outras possibilidades. Interesses empresariais franceses pediram-lhe ajuda para empurrar a Itália para a luta contra a Alemanha e a Áustria-Hungria e prometeram recompensá-lo. Além disso, manter um jornal é dispendioso; os fabricantes de armamentos mostraram-se generosos no financiamento ao Il Popolo d'Italia" (p.35). Quando Itália entra em guerra, Mussolini é recrutado para o exército onde, durante 17 meses, cumpriu serviço militar. Durante uma manobra de treino, com a explosão de um morteiro, quase perde a vida.
Apesar da coligação vencedora, Itália não teve direito aos frutos da vitória, o que fez com que os partidos de esquerda vissem vindicadas as suas razões anti-participação na guerra e aumentassem muito a sua votação nas legislativas. Numerosos governos municipais e fábricas estavam sob o governo de forças de esquerda. 
O establishment industrial e agrícola reagiu e as tensões aumentaram fortemente na sociedade italiana. Houve derramamento de sangue, os extremos venciam, as pessoas moderadas e de centro não tinham voz. Os regressados da guerra eram questionados e não tinham lugar numa administração controlada pelos sindicatos. O Parlamento era visto como um bazar de corruptos. Os representantes não faziam um esforço para serem entendidos pelos representados. A Itália estava à beira do desmembramento. Condições propícias a um líder forte, autoritário, que unisse o país. Um Duce. "Os fascistas cresceram porque milhões de italianos odiavam aquilo a que assistiam no seu país e tinham medo do que o mundo testemunhava na Rússia bolchevique" (p.38). Talvez como que ilustrando a tese de que mais do que uma ideologia, o fascismo seria um método de aquisição e manutenção do poder, eis o que escreve Madeleine Albright acerca do discurso de Mussolini: "apelava aos compatriotas para que rejeitassem os capitalistas que queriam explorá-los, os socialistas que se empenhavam em transtornar-lhes a vida e os políticos desonestos e invertebrados que não paravam de falar enquanto a pátria amada se afundava cada vez mais no abismo. Em vez de lançar as classes sociais umas contra as outras, propunha que os italianos se unissem - trabalhadores, estudantes, soldados e empresários - e formassem uma frente comum contra o mundo (...) Quanto aos parasitas que tinham apostado no atraso do país - os estrangeiros, os fracos, os políticos indignos de confiança -, que se desenvencilhassem sozinhos. Apelava aos seguidores que acreditassem numa Itália próspera, pois seria autossuficiente e respeitada porque seria temida. Foi assim que começou o fascismo do século XX: com um líder carismático explorando o descontentamento generalizado com promessas de tudo" (pp.38-39). A america grande outra vez, a Washington corrompida, os exploradores da globalização, o desprezo pelos estrangeiros e pelos fracos actuais têm aqui uma clara ressonância. Como tem o colocar pobres contra pobres, o recorrer a brigadas e esquadrões de entre os que estão na pior posição na escala social para intimidar aqueles que quem domina no movimento fascista pretende afastar: "para contrariar a sua influência [a dos socialistas], os fascistas recorreram à vasta reserva de veteranos desempregados para organizar os esquadrões de homens armados, os Fasci di Combattimento, para matar os dirigentes sindicais, vandalizar as instalações dos jornais e espancar operários e camponeses. Estes bandos prosperaram porque muitos sectores da polícias os viam com simpatia e fingiam não ter conhecimento dos danos que infligiam aos inimigos esquerdistas. Passados meses, os fascistas estavam a expulsar os socialistas das cidades e vilas, especialmente nas províncias do Norte de Itália. Para publicitar a sua identidade, usavam uniformes improvisados - camisa preta, calças cinzento-esverdeado e chapéu preto estilo fez com borla" (p.39).
Convidado a expor o seu programa, Mussolini diria: "É quebrar os ossos aos democratas (...) e quanto mais depressa, melhor" (p.40). Sem ganhar uma eleição, mas sem violar a Constituição, Mussolini chegou à liderança política de Itália, quando o rei Vítor Emanuel entre os socialistas que queriam o fim da monarquia e os fascistas que, sendo grosseiros, poderiam eventualmente mantê-la, e após, vários ziguezagues e paralisia, permitiu que aquele ascendesse ao topo da escala política. Sobre Roma marcharam então pescadores de Nápoles e empregados de escritório e lojistas, vestindo camisolas negras e bonés de piloto. Mas havia camponeses da Toscana, um estudante liceal de 16 anos, gente descalça por não ter dinheiro para comprar sapatos. Gente com pistolas, mosquetes, espingardas, tacos de golfe, gadanhas, entre outros artefactos. 
Não tendo a maioria no Parlamento, Mussolini intimidou a Assembleia e teve carta branca para fazer quase tudo o que lhe aprouvesse. E inicialmente destacou-se mesmo em medidas como a desburocratização, admoestando funcionários que chegassem atrasados, despediu 35 mil funcionários públicos em função das contas do Estado, deu a Itália o dia de trabalho de 8 horas, destacou bandos de fascistas para evitar ladrões de mercadorias por caminhos de ferro, financiou clínicas de saúde pré-natal, destinou verbas para construção de pontes, estradas, aquedutos gigantescos, codificou benefícios de segurança social para incapacitados e idosos, criou campos de férias para crianças e deu um golpe na Máfia ao suspender o sistema de júri. Não conseguiu que os comboios andassem a horas, apesar de o tentar (p.43)
Mulherengo, gostava de natação e esgrima - e pouco mais. Aprovou uma lei eleitoral que deu o poder no Parlamento aos fascistas. A fraude denunciada levou a que o dirigente socialista fosse raptado e assassinado. Em 1926, aboliu os partidos políticos concorrentes, acabou com a liberdade de imprensa, neutralizou o movimento sindical e fixou o direito a ser ele a nomear os funcionários municipais. Exortava os italianos a abdicarem do conceito de igualdade humana e a aderir a «o século da autoridade, um século a tender para a 'direita', um século fascista» (...) Nunca antes as pessoas se mostraram tão sequiosas de autoridade, orientação e ordem como agora. Se cada época tem a sua doutrina, então (...) a doutrina da nossa época é o fascismo". (p.44).
Desencadeou uma política externa agressiva que reduziu a Albânia a um protectorado e invadiu a Etiópia ("a maior guerra colonial de toda a história", segundo Mussolini). O Duce "não era um perspicaz avaliador de indivíduos, mas sabia bem o que as grandes massas queriam: espectáculo" (p.45). 
Antes de se tornar primeiro-ministro, nunca vestira roupa formal; não aprendera qual a colher ou garfo que se devia usar num jantar em sociedade; não fumava, não apreciava bebidas alcoólicas, nem gostava de apertos de mão (que considerava pouco higiénicos). Mau ouvinte, não gostava de escutar os outros a falar, nem gastava mais de 3 minutos com uma refeição. 
Mussolini prometeu tornar a Itália muito mais rica, promovendo, com irrealismo, uma moeda robusta e a auto-suficiência nacional. O falhanço foi rotundo.

Notícias e opiniões


*É curioso verificar como a globalização é rejeitada, numas partes do globo, por motivos económicos (as deslocalizações, a competição com recurso a dumping social, etc.) e, noutras, por razões culturais. É, este último aspecto, o que está em causa na Europa central: um nacionalismo identitário que recusa a globalização por trazer/fazer a apologia de, na voz dos líderes de países que recorrem a um discurso fortemente identitário, movimentos homossexuais, feministas, ou o ateísmo. O fechamento nacionalista também se faz, pois, com recuso a estes mantras
Mas um traço muito preocupante, a propósito da Europa de Leste, é a declaração de Órban de que as democracias liberais não serão, a breve prazo, competitivas (no que me fez recordar do livro de Robert Kagan, O regresso da história, que deve ter uma década e na qual o autor colocava, justamente, esta questão da possível atractividade de regimes autoritários que obtivessem bons resultados económicos, caso as/determinadas democracias não os alcançassem).

*Um outro modo de olhar a Hungria e Polónia. Na entrevista ontem concedida ao Público, Vasco Pulido Valente afirmava que os húngaros e polacos só são húngaros e polacos há 30 anos, pelo que em primeiro lugar têm que afirmar a sua nacionalidade. Não poderiam ser já democratas-liberais. Na mesma entrevista, VPV regista a possibilidade de cisão, de fim do estado federal brasileiro com Jair Bolsonaro, podendo, assim, cair-se no separatismo. O historiador, de direita, encontra em Rui Ramos o único historiador capaz de escrever em bom português, acusa Raquel Varela de profunda ignorância, identifica Mário Soares como o político português mais importante da modernidade (desde as invasões francesas), não leu o I Volume das memórias de Cavaco, nem lerá o II Volume, acusando o ex-PM de ser inculto (mesmo politicamente) e de ter feito mal ao país, ao mesmo tempo que, em sentido contrário, diz gostar muito de Passos Coelho. A direita portuguesa, considera, não recuperará dos votos perdidos em 2015 - já não regressam, sustenta -, ao mesmo tempo que zurze Rui Rio - "uma pessoa alucinada", "ultra-autoritário" e que se julga "superior" aos demais políticos, no retrato implacável do colunista. Considera a "UE um veneno que vai acabar". Numa confissão auto-biográfica, revelou-se, desde cedo, "incompatível" com a mãe, remetido a um conjunto de colégios internos. Durante a ditadura, em casa comia "bifes com batatas fritas" e tinha acesso aos jornais que lhe interessavam, mas, em 1958, a quando do ingresso na universidade, onde apenas estavam 6 mil outros seus compatriotas, verificou a miséria do ensino superior em Portugal àquela data. Quando foi estudar para Oxford, tinha que estudar "14 horas por dia" para recuperar do atraso e ignorância de matérias, autores, personalidades que desconhecia mas que para os seus colegas eram familiares. Qualifica como "fraude" as ciências sociais (sociologia, relações internacionais, ciência política).
Sem o 25 de Novembro, haveria terrorismo em Portugal e o único azar de Costa seria PS e BE terem juntos a maioria absoluta, na medida em que a facção Pedro Nuno Santos ganharia a força necessária para colocar em causa as parecerias público-privadas, ou forçar um regime de exclusividade dos médicos, por exemplo, o que Pulido Valente não considera, dada a ideologia em que se revê, positivo.
"Os anos 20, no mundo de hoje, vão ser como os anos 30 do século passado", sobretudo na (re) emergência dos nacionalismos. Essa frase pode comparar-se com o que disse Nicolas Baverez na entrevista já aqui citada e confronta com o que Ian Kershaw disse ao Expresso (num fim de semana que, por coincidência, teve várias entrevistas a historiadores na imprensa portuguesa de referência): "sim, podemos encontrar analogias e paralelismos [entre o tempo que vivemos e a década de 30 do século passado]. Há alguns elementos nos actuais partidos populistas, por exemplo, que fazem lembrar o fascismo. Estes partidos não serão fascistas, mas têm um elemento na sua clientela que é abertamente fascista. Além disso, o momento actual está marcado por perigos e ameaças internacionais, bem como pelas sequelas de uma enorme crise económica e financeira, semelhante à que tivemos nos anos 30. Em suma: encontro analogias em todo o lado, mas as diferenças são muito maiores do que as semelhanças (...) A comparação não funciona. Acho que o melhor é mesmo mantermo-nos afastados desse tipo de comparações. Deparamo-nos com dificuldades próprias e temos de fazer frente a elas em termos modernos, sem tirar lições dos anos 30. Dizer que Trump é como Hitler é um disparate que não faz sentido".

*O poder económico da China é oito vezes superior ao da Rússia.

*Talin, na Estónia, há 5 anos, foi a primeira capital europeia com transportes públicos gratuitos para todos os residentes; agora, Dunquerque, com 200 mil habitantes, passa a ser a maior cidade europeia a repetir tal experiência, mas a alargá-la, ainda, a não residentes

*Portugal prepara-se para perder, este ano, provavelmente, mais de um milhão de turistas face ao ano transacto.

sábado, 20 de outubro de 2018

Os mundos do trabalho


Esta tarde, na Biblioteca Municipal de Vila Real, a assistir ao debate, promovido pela UGT/ACEGE, entre Paulo Rangel e Francisco Assis, moderado por Rogério Gomes, acerca da conciliação do emprego com a família. 
Paulo Rangel falou, sobretudo, acerca dos mais diversos regimes e relações de trabalho que convivem na mesma época, na mesma sociedade - desde a advogada ou funcionário que, no escritório de advogados no qual trabalha, saem, sem necessitarem de autorização, para uma questão familiar, um funeral de um amigo ou do pai de um amigo, etc (mesmo que não haja para isso um tipo legal que os autorize ou justifique), mas que depois compensam e é possível ver a trabalhar, por exemplo, duas ou três horas ao fim de semana, até a situações, bem diversas desta, de uma indústria mais pesada, de uma fábrica, onde esta auto-regulação e responsabilidade, porventura, não funcionarão. Assim, em 2018, poderemos ter a conviver organizações de relações laborais próprias do início do século XX, outras ao nível do que seria o final da mesma centúria e outras ainda que antecipam, hoje, o modelo de relação laboral que virá a ser próprio de 2050 (imaginando-se que conseguíamos, agora, antever o que naquela data ocorrerá).
Um dos aspectos interessantes que Paulo Rangel colocou sobre a mesa prende-se com aquilo que aqueles que lêem estudos/inquéritos a jovens, acerca dos valores que professam, nos tempos mais próximos do actual, sabem: novas gerações professam e praticam valores pós-materialistas. No mundo do emprego, isto significa, por exemplo, que, a quando de entrevistas para selecionar funcionários para as suas empresas, empregadores se vejam com petições não propriamente por melhores salários, mas, bem mais, por direitos como uma semana remunerada de voluntariado a exercer no país ou no estrangeiro; mais dois ou três dias de férias, para além do que está estipulado nos códigos de trabalho (e demais documentos conformadores da matéria); direito a um dia por semana, por exemplo à segunda ou sexta-feira a teletrabalho.
Relativamente a este último aspecto, Rangel fez um sublinhado tendente a descortinar o carácter ambíguo/complexo, um potencial false friend que esta modalidade de trabalho poderá encerrar: é que ao realizar o teletrabalho, a pessoa, imediatamente, abdica, de modo objectivo, da distinção trabalho-casa. Introduz esse factor, que pode causar ruído nas relações familiares, na sua própria casa
O ponto-chave da alocução do eurodeputado, eleito nas listas do PSD, foi a recusa da auto-regulação (no mundo do trabalho; isto é, a recusa de que sejam, exclusivamente, empregador e respectivos funcionários a definir as regras por que se regem): a flexibilidade, que considera necessária, irá dar lugar, é certo, a uma legislação "mais casuística" (do que a actual; quer dizer, mais susceptível de acomodar uma diversidade de relações laborais), mas não podemos deixar nas mãos da auto-regulação a defesa da dignidade da pessoa e de relações laborais fair. Fundamentando, ainda, o ponto, com a sua consabida erudição e especializado conhecimento nas àreas adstritas à Ciência Política, Rangel lembrou o Segundo Tratado de Governo, de John Locke, no que assinala de um bom governante, o governante ideal que, por o ser, foi deixado sem amarras, nem necessidade de prestação de contas a ninguém (dada a sua sabedoria, competência, generosidade); aconteceu que, certo dia, morre e, talvez, o seu filho não seja tão prudente, sábio, competente - e entretanto falta a regulação que o trave ("não sou a favor de regulações muito rígidas, mas não basta a auto-regulação").
Francisco Assis, o primeiro a usar da palavra enfatizou a presença feminina no mercado de trabalho, em Portugal, decorrente, certamente, da história portuguesa do século XX, e que contrasta com o que sucede com países nos quais a prosperidade é maior e muitas mulheres acabam por ficar, em bastante maior número em casa. Esse deslocamento, contudo, das mulheres para fora das quatro paredes de suas casas parece, hoje, uma tendência mais ou menos generalizada, a Ocidente. Dessa mudança, atinente às últimas décadas, resultou, evidentemente, uma necessidade de reconfiguração cultural e de mentalidades que implicou uma readaptação masculina a tarefas nas quais muitas gerações não haviam sido iniciadas (como o próprio Francisco Assis referiu ser o seu caso, com uma educação sua e do irmão bastante diversa da que recebeu a irmã, mesmo vindo Assis de um meio não especialmente conservador; Rangel disse que já não assim em sua casa, onde, desde muito cedo teve que se adaptar às tarefas domésticas, mesmo com empregada em casa, assim ditada pela progenitora, cozinhando, nomeadamente, desde muito novo, como os irmãos). Nas novas gerações, a transição para o novo paradigma, em grande medida, considera o eurodeputado, está feita. Assis não vê de modo dramático a constante adaptação das regras laborais aos novos tempos; isto porque nunca houve modelos perfeitos e, em todo o caso, não vê que existam, pelo mundo, "modelos capitalistas puros", com a intervenção do Estado a acontecer em quase todos os países para regular diferentes aspectos de ordem social e económica. 
Crítico da actual solução governativa, como se sabe, Francisco Assis não deixou, em Vila Real, de deixar uma frase que não pode deixar de entender-se também enquanto crítica da acção governativa: "a este ritmo de crescimento [económico] qualquer dia somos o país mais pobre da Europa" (numa clara referência implícita aos dados que mostram que o crescimento económico português, ainda que acima da média da UE, se encontra entre os menos robustos dos 28 países que a integram). Questionado acerca do milhão de portugueses que, ainda que sendo trabalhador é, simultaneamente, pobre, o eurodeputado eleito nas listas do PS, considerou que a proposta do Partido Socialista, inserta no programa eleitoral nas últimas legislativas, a saber, um complemento salarial para quem não alcançasse os mínimos para sair da situação de pobreza, fazia todo o sentido (mas caiu nas negociações para a formação da actual situação governativa). E afirmou, ainda, que não houve nenhuma mudança de paradigma na Economia portuguesa, dado o número impressionante de contratos com remunerações baixas - aqui ressoou, em especial, uma crítica à governação anterior, na medida em que o PM de então por diversas ocasiões afirmou ter sido mudado o paradigma económico português, durante a legislatura na qual liderou o Executivo.
Com vários professores na plateia (composta, talvez, por meia centena de pessoas), Assis lembrou o texto que assinou no Público, no qual remetia para Lídia Jorge, no qual a professora do Ensino Secundário era citada dizendo que a escola havia sido invadida pela lógica da competição, em vez da cooperação, em função do modelo de avaliação entretanto forjado - e que noutras latitudes incide apenas sobre a escola e seus resultados, gerando nos docentes um sentimento de cooperação para alavancar os resultados e a deixar uma lógica de competição
Paulo Rangel considerou muito abusivas e intrusivas várias entrevistas de emprego que hoje em dia acontecem, em que os candidatos são questionados sobre se têm ou vão constituir família, ou têm dependentes a cargo - Rangel disse-se não um "baby sitter", mas um cuidador de idosos. E, enquanto político, diz que não tem direito à "desconectividade" - ele que começara em registo irónico: não sei como fui convidado para falar sobre o tema da conciliação do trabalho com a família, "porque as pessoas acham que um político não trabalha e, por outro lado, eu vivo sozinho, não tenho filhos".  Os políticos não têm direito à desconectividade - direito reclamado, e com razão, por tanta gente nos últimos anos -, com talvez um caso picante como excepção: "os políticos não têm direito a estar desconectados...talvez com excepção do dr.Rui Rio" (gargalhadas na plateia).
Paulo Rangel diria ainda que para lá da questão económica, outras há que condicionam a decisão de ter, ou não ter filhos: "muitas pessoas, mesmo milionárias, não teriam três filhos, porque há hoje uma sociedade talvez mais egoísta". De a sociedade se fundar no sujeito, como disse Assis, ou assentar na família, como foi sugerido da plateia (de onde surgiram inúmeras questões), outra divergência. Com Rangel a recordar que o modelo de família de meados do séc.XX não era aquele que existia no séc.XIX, nem aquele que hoje existe (pelo que considerá-lo "o" modelo se torna problemático).

Paulo Rangel e Francisco Assis já haviam debatido juntos em inúmeras ocasiões; nunca o haviam feito, contudo, tendo como ponto de partida o tema hoje em equação na Biblioteca de Vila Real, pela qual passou um momento de tensão, quando uma das senhoras presentes na plateia reagiu com indignação à afirmação de Rangel de que não era nenhuma tragédia um jovem de 26 anos, com Ryanair e Skype ter que imigrar aos 26 anos. "É fácil falar quando se está bem", atirou num tom efervescente que durou uns 5 minutos, com Rangel a admitir abandonar a sala, porque "não admito ser julgado", "dei a minha opinião e não aceito que me julgue"; "enquanto estudava, andava 1h30 para cá e outra 1h30 para lá e ninguém me deu nada, comprei com o dinheiro do meu trabalho". Presente nesta sessão vilarealense este Carlos Silva, secretário-geral da UGT.

Em tempo: como neste blog já chamei, mais do que uma vez, a atenção, Assis teve, há alguns anos, a coragem de chamar "fascistas" às linhas editoriais seguidas por Correio da Manhã e, então com outro director, o JN. A indignidade das fotos tiradas a cidadãos portugueses que haviam fugido de um tribunal, depois de detidos - li analogias com Guantanamo, ou mentalidade a la Bolsonaro de quem as tirou e creio que são críticas certeiras - não é pertença destes jornais. Mas alimentarem o odioso, dar seguimento a fotografias que são como que troféus de caça é contribuir para o tal caldo de cultura que cozinha o pior que registamos no estádio civilizacional (?) em que nos encontramos.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O DESASSOSSEGO SANTO COMO CAMINHO DA PAZ DIVINA


«Escreves sobre ti?» [estás a fazer uma autobiografia?] Também posso responder que escrevo sobre Deus. Mas será possível falar sobre Deus sem inserir nesse depoimento a vida pessoal? Se falasse sobre Deus «objectivamente», sem entregar nisso o meu eu, estaria a falar sobre um abstracto exangue.
Não seria tal «Deus exterior» apenas um fetiche? E também o contrário: será possível falar sobre mim sem dizer nada sobre Deus, poderia atribuir a mim próprio aquilo que a Ele pertence e cair para sempre na armadilha da egocentricidade ou afogar-me na superficialidade de Narciso. Quando Narciso se debruça sobre a superfície do lago, vê-se apenas a si próprio, ficando preso na superfície, na sua própria imagem sobre a superfície da água, e essa superficialidade torna-se fatal para ele. O olhar do homem crente deve penetrar mais fundo - só assim a profundeza não se torna para ele uma armadilha nefasta.
Dois factos, centrais para a nossa vida, são invisíveis: o nosso eu e Deus. Vemos muitas manifestações que podemos atribuir ao nosso eu e outras, por sua vez, a Deus, mas nem o nosso eu nem Deus se encontram perante nós como uma coisa à qual possamos apontar e que possamos localizar inequivocamente. É compreensível que algumas correntes filosóficas classifiquem Deus, e algumas também o «eu» humano, como uma mera miragem. Os místicos, nomeadamente o meu amado Mestre Eckhart, afirmam uma coisa imensamente profunda e ao mesmo tempo imensamente perigosa: Deus e eu somos um só.
Sim, esta perspectiva pode ser perigosa. Quando Deus se funde com o nosso eu, de modo a trocarmos Deus pelo nosso eu, perdemos a nossa alma. Ao separarmo-lo estritamente de nós próprios e começarmos a ver Deus como algo completamente exterior e separado da nossa alma, perdemos o Deus vivo, substituindo-o por um fetiche, puro objecto, uma «coisa entre as coisas». É tarefa constante da teologia mostrar esta inoculação dinâmica da imanência e da transcendência. Talvez possamos dizer sobre a fusão do nosso eu com Deus aquilo que disse o Concílio de Calcedónia sobre a relação da humanidade e divindade em Cristo: são inseparáveis e, mesmo assim, não estão misturadas. Se levo a sério o segredo da Encarnação, coração da fé cristã, se o entendo não só como um acontecimento acidental do passado, mas, sim, como a chave para a compreensão de todo o drama da história da salvação, história da relação entre Deus e os homens, então, na verdade, não posso pensar a humanidade e a divindade em separado. Ao dizer «eu», digo o homem sem Deus não é inteiro
Só na relação com Deus começamos a suspeitar que o nosso eu tem uma estrutura algo diferente daquilo que nos parece sob o olhar ingénuo do quotidiano. Por trás do nosso «ego» entrevemos, às vezes, aquilo para que os místicos e também a psicologia profunda contemporânea procuram um termo adequado: o «homem interior», o «eu profundo», das Selbst [o Si mesmo]...O Mestre Eckhart falava do «Deus interior», do Deus por detrás de deus. Alguns teólogos modernos e pós-modernos (e os a-teístas) falam do «Deus por trás do deus do teísmo». Talvez apenas quando revejamos a compreensão ingénua e objectivista de Deus e a compreensão semelhante ingénua do «eu» como uma ilusão, seremos capazes de compreender a frase de Eckhart: «Deus e eu somos um só». Compreenderemos que aqui não se trata, de todo, de uma divinização própria, de blasfémia nem de ateísmo oculto.
A relação entre Deus e o homem é um círculo sem fim e sem princípio. O olho com o qual olhas Deus e o olho com o qual Deus te olha é o mesmo olho, escreveu o Mestre Eckhart. E algo parecido podemos encontrar também em Santo Agostinho: o amor com o qual amas Deus e a procura com a qual procuras são o amor e a procura com os quais Deus te procura e ama. (...)
A vida do homem é uma autointerpretação constante. Quando quero apresentar-me ao outro, ou se quiser compreender-me a mim próprio, começo a contar a minha história. Este sou eu no tempo: ao contrário de um animal ou de um objecto, não sou apenas «agora», mas, sim, uma acção auto-observadora. Decorro desde o passado que trago comigo e «tenho» já agora, em certo sentido, também o futuro: em forma de esperança, planos e preocupações
A palavra religião, religio, é às vezes derivada de re-legere: ler de novo. Sim, a fé é a re-lecture [re-leitura] da nossa história pessoal: lemo-la sob um novo ângulo, num contexto mais amplo, com distância, com perspectiva e com compreensão mais profunda. A nossa vida, vista pelos olhos da fé, não é «story told by an idiot, signifying nothing» [«uma história contada por um idiota, não significando nada»], um balbuciar de um idiota, como diz o Macbeth de Shakespeare. É uma história, cujo autor e realizador é Deus. Mas Ele não nos manipula como marionetas suspensas por fios. O drama em que nos colocou, é mais uma comedia dell'arte [comédia da arte], uma peça em que nos ofereceu um grande espaço para a improvisação. A caligrafia de Deus pode ser reconhecida pela sua generosidade infinita, pela sua confiança inexplicável acerca da nossa liberdade. Ali onde a liberdade do homem não está deformada e caricaturada pela indisciplina e voluntarismo, onde se concretiza no amor e na criação, justamente aí, nessa liberdade da transcendentalidade humana, podemos avistar talvez a mais pura imagem e parábola de Deus que são a própria liberdade e generosidade
As Confissões, título do livro mais conhecido de Santo Agostinho, denomina tanto a confissão dos pecados, como a solene declaração da fé. A confissão de pecados em forma da narração honesta do nosso caminho de vida com todos os erros e dúvidas, realmente, está estreitamente relacionada com a confissão no sentido de declaração da fé, o reconhecimento de Deus. Na Missa confessamos a nossa pecaminosidade e também a nossa fé. Antes de, confessando, reconhecer Deus, confessamos os pecados e as dúvidas, reconhecendo a nossa humanidade.
Na confissão dos nossos pecados e fraquezas, confrontamo-nos com aquele homem dentro de nós que tanto gostaríamos de deixar atrás da porta da igreja, mas ele é aquele que na realidade é convidado para o banquete. «Quando deres um banquete [não convides os teus amigos ricos, mas] convida os pobres, os aleijados...» [Lucas 14, 12, 13]. Deus também faz assim: não convida aquela faceta rica, de fato de domingo, justa e pia do nosso ser, que lhe quer, pensando que pode retribuir. Convida aquilo, dentro de nós, que é cego e aleijado, que chora, que é pobre e faminto. Não para condenar, humilhar e suprimir essa faceta «menos atraente» do nosso ser, mas para saciá-la e alegrá-la. Foi justamente sobre isto que o rabino de Nazaré falava constantemente nas suas disputas com os fariseus.
O homem nas suas «virtudes», certezas e força, frequentemente costuma estar orgulhosamente fechado. O essencial nele abre-se através da sua fome, avidez e chagas. O essencial dentro de nós é a nossa própria abertura: a abertura ao essencial, ao «único necessário» que não se nos irá abrir nos momentos da nossa autoconfiança saciada e autossuficiente. A abertura do coração humano e a abertura do «Reino de Deus» é uma e mesma abertura. 
Quem sou, na verdade? «A questão que me tornei para mim mesmo», diz Santo Agostinho. Sim, o nosso eu, tal como o nosso Deus, deve ser para nós objecto de perguntas, dúvidas e buscas constantes. Também procuramos o nosso Eu e o nosso Deus através da narração da nossa história e de não escondermos a nossa emoção ao narrá-la. Apenas o coração que não deixou de se emocionar com o desassossego santo pode, no final, descansar no mar da paz divina.

Tomás Halík, Diante de ti. Os meus caminhos, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.19-23.

"A crise mais séria da democracia desde 1930"


Mesmo depois da crise - se é que faz algum sentido assim falar -, os tempos são de pessimismo (pelo menos, vistos do Ocidente, pelas suas elites). O historiador e economista Nicolas Baverez, regular colunista de Le Figaro, La Repubblica ou ElPaís veio a Portugal, convidado pela FFMS, e deu uma entrevista à Visão, na qual considera, mesmo, que estamos a viver a maior crise da democracia desde os anos 30 do século XX:

P: Em 2012, publicou Réveillez-vous! (Acordem!). Voltaria, agora, a dizer o mesmo aos europeus?

R: O conselho aplica-se, hoje, não só aos franceses e aos europeus em geral, mas também a todo o mundo ocidental. Estamos confrontados com o fim de quatro grandes ciclos da História - o domínio do mundo pelo Ocidente, desde os Descobrimentos; o da liderança norte-americana; o da ordem internacional saída de 1945; e o da mundialização liberal que terminou com o grande abalo do capitalismo em 2008. Hoje, a democracia atravessa a sua crise mais séria desde os anos de 1930 e, ao contrário do que se disse após a queda da URSS, a liberdade política não é um dado adquirido. É preciso que os cidadãos mantenham a fé nela e na vontade de a defender.

[entrevista de Nicolas Baverez, concedida a Emília Caetano, para a Visão nº1337, de 18 a 24 de Outubro de 2018, p.13]