sexta-feira, 5 de outubro de 2018

A campanha no Brasil nos instantes derradeiros


As (mais pessimistas/realistas) hipóteses que aqui alvitrava relativamente a dados essenciais para a decisão das eleições presidenciais brasileiras vieram a verificar-se por completo: Haddad, na semana seguinte a ser confirmado como candidato do PT, e com o eleitorado a disso tomar plena consciência, ultrapassou Ciro Gomes nas intenções de voto e de aí não mais saiu. Face à consolidação do segundo lugar de Haddad, o sentimento anti-PT cresceu e as pesquisas de opinião mostram uma subida drástica das taxas de rejeição do candidato apoiado por tal partido, ao mesmo tempo que se impôs uma probabilidade crescente da vitória de Bolsonaro.
A semana que passou, em realidade, deixou uma série impressionante de sinais de entusiasmo para Jair Bolsonaro: ao apoio importantíssimo da IURD à sua candidatura, pela voz de Edir Macedo - uma IURD que já foi um dos sustentáculos do PT, outrora -, somou-se o apelo ao voto por parte do líder dos empresários no Brasil. O mesmo aconteceu no endosso dado pelos "ruralistas" da agro-pecuária. E, ainda e muito fundamentalmente, vários candidatos a governadores estaduais e a deputados pelo PSDB decidiram abandonar as suas cores e, desde já, numa espécie de voto útil logo à primeira volta (perante a campanha frouxa de Geraldo Alckmin), transmitir a preferência por Bolsonaro. Nas duas sondagens dos últimos dias, Bolsonaro sobe 4% (em ambas) e a taxa de rejeição de Haddad chegam a crescer 11%. De modo que a euforia se instalou, com esta dupla dinâmica simultânea - favorável a Bolsonaro e anti-petista -, na sede de Bolsonaro, acreditando, ou isso, pelo menos, transmitindo, os seus mais próximos (fiéis) de que a eleição no 1º turno é possível - caso chegue aos 37/38% no total, e expurgados os votos nulos, brancos e abstenção, essa percentagem poderia subir para 50%. Registo para o grande, e aparentemente paradoxal face às declarações e atitudes ao longo de anos de Bolsonaro, crescimento de Bolsonaro entre o voto feminino e, não menos relevante, no Nordeste (habitual feudo do PT).
Face a este conjunto de dados, chega a pensar-se que só uma reviravolta absolutamente espectacular, com um voto estratégico, dos habituais eleitores do PT, e de uma esmagadora maioria dos cerca de 12% de indecisos, em Ciro Gomes (abandonando Haddad, nesta recta final da primeira volta) poderia resgatar o Brasil de Jair Bolsonaro, sendo que a probabilidade de uma tal operação, mesmo em cima da meta, surge como algo muito pouco provável (mas que seria o golpe de teatro perfeito para uma campanha verdadeiramente alucinante, lá isso seria). Crê-se que os candidatos que apresentam intenções de voto escassas sucumbirão, mais ainda, a um voto útil, podendo atingir números confrangedores (e isto é especialmente válido para o PSDB).
Enquanto em Portugal, os sábados, a um dia do acto eleitoral, são de reflexão, no Brasil Sábado é o dia em que sai a última sondagem antes do voto (a Datafolha, normalmente questionando 2 a 3 mil pessoas, irá agora publicar uma sondagem com 17 mil inquiridos).

P.S.: se Luis Marques Mendes dizia, no Domingo, na Sic, que entre Bolsonaro e Haddad entendia ser este último um mal menor, já Luís Nobre Guedes, na RTP3, se mostrava ontem um apoiante convicto de Bolsonaro.

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