segunda-feira, 29 de outubro de 2018

E o Brasil


*Um dos dados mais insólitos desta eleição no Brasil prende-se com o facto de a Câmara dos Deputados passar de uns impressionantes 25 partidos que integravam a legislatura 2015-2019, para uns inimagináveis 30 partidos na legislatura que se segue. Sendo que a esta proliferação partidária estava indissociavelmente ligada a questão da "propina", quer dizer, da corrupção. Como convencer, de modo legal, os partidos a aprovar legislação proposta por quem sustenta o Executivo? Vai ser um dos pontos mais curiosos de observar. Honra seja feita, neste ponto, a Geraldo Alckmin, do PSDB, o único a colocar, ainda durante a primeira volta das Presidenciais, nos debates iniciais, a urgência da reforma deste sistema. Depois, veio a facada a Bolsonaro, o fim dos debates e de qualquer outra coisa que não uma gritaria e verbalização de ódio. 

*O Presidente do Brasil tem à sua disposição a nomeação de 24,6 mil pessoas para cargos que lhe incumbe fazer preencher.

*Uma expressão curiosa de Ricardo Alexandre para caracterizar o carisma de Fernando Haddad: "tem tanto de político e de capacidade de empolgar as massas como este escriba de conhecimentos de 'cultura de beterraba em meio hídrico não alcalino', para citar o saudoso mestre António Jorge Branco" (DN, 28-10-2018, p.6)

*Dados ainda da primeira volta das Presidenciais brasileiras: em 95% dos municípios mais ricos do Brasil, Bolsonaro venceu; em 90% dos mais pobres, ganhou Haddad; 70% dos municípios com maioria de população não branca votaram Haddad, 90% das cidades com maioria branca votou Bolsonaro. [o levantamento foi realizado por ElPaís]

*De acordo com Catarina Carvalho, "um estudo recente do Instituto Americano de Imprensa descobriu que mais de metade dos leitores não distinguem entre factos e opiniões - embora mais de 63% preferissem que houvesse mais factos do que opiniões na informação. Entre estes, os que têm mais dificuldades são os que usam a tv como principal meio de informação" (DN, 28-10-2018, p.2). A Finlândia foi o primeiro país a punir trolls, isto é, a castigar autores de uma campanha de desinformação dirigida contra terceiros.
Curiosamente, diz-nos Julie Posetti, investigadora do Reuters Institute e autora de um manual para a Unesco, "a investigação mais recente sugere que as redes sociais na verdade expõem os utilizadores a mais fontes de informação [e não a bolhas]. O problema é que, como nas redes sociais todas as fontes parecem iguais, é mais fácil manipular os utilizadores. Isso acaba por obrigar os meios de comunicação a ter mais trabalho para merecer a confiança dos leitores. Obriga a criar hábitos de verificação, de transparência e de colaboração com a comunidade. Devo dizer que por um lado estou confiante de que a era digital nos dá mais formas de evitar as tais bolhas, mas ao mesmo tempo isto exige um grau de responsabilidade por parte do utilizador. As notícias foram democratizadas, isso exige mais ao jornalista mas também ao cidadão: não chega simplesmente aceitar a afirmação de um político, é preciso verificar e pensar de forma crítica" (DN, 28-10-2018, p.14). Um estudo muito recente, levado a cabo em Itália e França pelo Reuters Institute, mostra que o consumo de informação em páginas on line de jornais, rádios, tv é maior do que o de páginas de desinformação, mas o número de interconexões - comentários, partilhas, reacções -, geradas por um pequeno número de páginas falsas igualaram ou excederam as interacções com marcas de notícias mais populares.

*Bernardo Pires de Lima dá nota de que, na Holanda, há uma entidade fiscalizadora, que verifica a exequibilidade das propostas dos diferentes partidos ou candidaturas, filtrando a intrujice, o eleitoralismo barato e pugnando a relação entre partidos e cidadãos pela responsabilidade e seriedade.

*Título de artigo de Ruy Castro: "A palavra do ano no Brasil: 'ódio'. E, em segundo lugar, 'medo'."

*Desde 1989 que não havia uma eleição sem debates entre os candidatos (como agora se verificou na segunda volta, por opção de Jair Bolsonaro).

*Confirmou-se que, pelo menos até ao presente, nunca um candidato que ganha a primeira volta das Presidenciais no Brasil, perde no segundo turno.

*O PT está em nono lugar no que a uma perversa classificação diz respeito, na política (partidária) brasileira diz respeito: no número de políticos "caçados" por corrupção. Se bem que o facto de ter um Presidente nessas condições adquira uma dimensão qualitativa que a mera "quantidade" não capta.

*"Em momento solene, em discurso público, num lugar político nobre, o Congresso, frente a câmaras de televisão, ele [Jair Bolsonaro] ter aplaudido e dado vivas ao torturador Carlos Brilhante Ustra. (...) Ustra foi um torturador do regime militar brasileiro e colocava fios eléctricos descarnados nas vaginas de mulheres e chegou a mostrar aos filhos das presas a mãe nua, urinada e vomitada" (Ferreira Fernandes, DN, 28-10-2018, p.48)

*6 a 7 milhões de entre os cerca de 35 milhões de brasileiros que com os governos Lula da Silva se estima que tenham saído da pobreza, a ela terão regressado, com a recessão económica que passou também e muito por um Governo PT (com Dilma Rousseff)

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