quinta-feira, 4 de outubro de 2018

Exposição (pequenas notas)



Por entre as fotografias que biografam Frida Kahlo, no Centro Português de Fotografia, no Porto, algumas citações, versos que integram, igualmente, a sua vida e obra - como a que acima se reproduz.
Uma das coisas que aprendi vendo a exposição foi que na Cidade do México, à semelhança, por exemplo, do nosso interior transmontano, a Queima do Judas era, pelo menos à data das fotografias, no século XX que a artista habitou, uma tradição (com milhares de espectadores - in loco, claro).
A exposição principia com um conjunto de retratos em família, com a figura proeminente do pai, Guilherme, a destacar-se (também a solo). Retratos à antiga, como que encenados, toda a família composta e aperaltada, hirta para a foto. Há, na antiga Cadeia da Relação, auto-retratos de Frida, mas muitas fotos suas são da autoria de terceiros. Podemos testemunhar a sua primeira comunhão (e uma foto, já Frida adulta, em que encena essa mesma comunhão, num gesto dado a múltiplas possíveis interpretações), e, detidamente, as doenças, acidentes, lesões que a acometeram longamente. Não há, nesta exposição, apenas retratos "privados" (muitos deles, de resto, contendendo, também, com a sua relação com Diego Rivera). A dimensão pública é captada não apenas nas viagens a Moscovo que documentou com detalhe (marchas, trabalhadores, alguns líderes, crianças, dia-a-dia), mas ainda, e principalmente, neste acervo, no cadáver de um trabalhador, exangue no chão, jorrando sangue, em resultado de repressão policial no México (talvez a foto mais marcante do conjunto). Trotsky, e o seu affair com Frida, têm, na economia da exposição, como que um circunspecto apontamento. E, talvez mais surpreendente em uma artista que foi militante do partido comunista mexicano, cabem aqui, ainda, um conjunto de fotografias de uma fábrica Ford (à época, símbolo capitalista por excelência; ainda que este desenvolvimento industrial, como já por aqui registámos, não tenha deixado de impressionar muitos socialistas soviéticos). A identidade mexicana passa pela obra, e há indígenas em luto, em um dos olhares, ou construções maias, em outro.
Quem também transparece fotógrafo (como, na verdade, era), nesta exposição, é Guilherme Kahlo, o patriarca, autor da foto de um impressionante mural à entrada da Escola de Instrução Primária (ainda em terras mexicanas). Lado a lado com uma outra fotografia, esta de cariz mais espectacular - aquela em que essa índole mais prima, creio, neste lote de fotos - em que uma motorizada levanta voo, por entre uma pirotecnia que sugere adrenalina e risco.

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