Esta perspectiva fez-nos pensar que o fascismo talvez devesse ser encarado menos como ideologia política e mais como um meio para conquistar e manter o poder. Por exemplo, a Itália dos anos 1920 incluía fascistas confessos de esquerda (que defendiam a ditadura dos despojados), de direita (que defendiam o Estado corporativo autoritário) e de centro (que pretendiam o regresso à monarquia absolutista). O Partido Nacional-Socialista Alemão (os nazis) formou-se em torno de uma lista de reivindicações que apelava aos antissemitas, anti-imigrantes e anti-capitalistas, mas que defendia também pensões de velhice mais elevadas, mais oportunidades de educação para os pobres, o fim do trabalho infantil e melhores cuidados de saúde materno-infantil. Os nazis eram racistas e ao mesmo tempo, no seu entender, reformadores.
(...)
Na minha ideia, fascista é alguém que se identifica fortemente com uma nação inteira ou com um grupo e que reivindica falar em seu nome, alguém que não se preocupa com os direitos dos outros e que está na disposição de usar todos os meios necessários - incluindo a violência - para alcançar os seus objectivos. Dentro desta concepção, um fascista será talvez um tirano, mas o tirano não tem de ser fascista. (...) Um fascista (...) espera que a multidão esteja na disposição de o apoiar e defender. Enquanto os reis tentam acalmar o povo, os fascistas agitam-no de modo a que, quando o combate começar, os seus soldados de infantaria tenham a vontade e o poder de fogo para serem os primeiros a disparar.
O fascismo nasceu nos começos do século XX. Uma época de animação intelectual e de ressurgimento do nacionalismo ligado a um desapontamento generalizado com a incapacidade dos parlamentos representativos de acompanharem o ritmo de uma Revolução Industrial movida pela tecnologia. Nas décadas anteriores, eruditos como Thomas Malthus, Herbert Spencer, Charles Darwin e o meio-primo de Darwin, Francis Galton, tinham difundido a ideia de que a vida é uma luta constante pela adaptação, com pouco espaço para o sentimento e sem garantia de progresso. Pensadores influentes como Nietzsche e Freud, reflectiram sobre as implicações de um mundo que parecia ter-se libertado das amarras tradicionais. As sufragistas introduziram a noção revolucionária de que as mulheres também têm direitos. Os líderes de opinião na política e nas artes falavam abertamente da possibilidade de melhorar a espécie humana através da reprodução selectiva.
Entretanto, inventos assombrosos como a electricidade, o telefone, a carruagem sem cavalos e os navios a vapor aproximavam mais o mundo, e, no entanto, esses inventos deixavam sem emprego milhões de agricultores e operários especializados. Por toda a parte, as pessoas movimentavam-se: as famílias rurais afluíam às cidades em grande número e milhões de europeus dirigiam-se para o outro lado do oceano.
Para muitos dos que ficaram, as promessas inerentes ao Iluminismo e às Revoluções Francesa e Americana tinham-se tornado vazias. Inúmeras pessoas não conseguiam encontrar trabalho; as que trabalhavam eram muitas vezes exploradas ou, mais tarde, sacrificadas no sangrento jogo de xadrez que se desenrolava nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. Winston Churchill escreveu acerca dessa tragédia: «Foram infligidas feridas na estrutura da sociedade humana que um século não conseguirá sarar». Mas com a aristocracia desacreditada, a religião sob escrutínio e as velhas estruturas políticas, com o Império Otomano e o Austro-Húngaro, a desmoronar-se, a procura de respostas não podia esperar.
Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube de Autor, Lisboa, 2018, pp.26-31.
Madeleine Albright, enquanto Professora na Georgetown University School of Foreign Service, discutiu com os seus alunos uma possível definição e caracterização do "fascismo". Caracteres identificados pelos alunos: a) "uma mentalidade de 'nós' contra eles'"; b) "nacionalista, autoritário, antidemocrático"; c) "violência"; d) factor medo a despoletá-lo; e) expectativas por cumprir, relativas a pessoas pertencentes a um grupo étnico e racial diferente; f) fascismo é dependente tanto da riqueza das pessoas poderosas, como da adesão das pessoas comuns; g) os líderes fascistas mais conhecidos foram figuras carismáticas; h) ao contrário da monarquia ou ditadura militar, que são impostos à sociedade a partir de cima, o fascismo vai buscar a energia aos homens e mulheres transtornados por causa de uma guerra perdida, do emprego perdido, de uma memória de humilhação ou da sensação de que o seu país está em declínio acentuado; i) certos líderes fascistas carismáticos mostraram talento para o espectáculo e a encenação. São, ainda, agressivos e militaristas; j) chegados ao poder, controlam a informação. Actualmente, espalham mentiras pelas redes sociais; k) o fascismo é forma extrema de governo autoritário; l) é permeado por um nacionalismo feroz. Com ele, em vez de serem os cidadãos a conferir poder ao Estado a troco da protecção dos seus direitos, o poder começa com o líder, e as pessoas não têm quaisquer direitos. No fascismo, a missão dos cidadãos é servir; a tarefa do Governo é dirigir.
Em 2016, a palavra «fascismo» tinha mais procura no dicionário Merriam Webster online do que qualquer outra palavra em inglês, com excepção de «surrealista», que registou uma subida em flecha depois das eleições presidenciais [norte-americanas] de Novembro (p.24)
Madeleine Albright nasceu na (antiga) Checoslováquia, refugiou-se com a família em Londres, a quando da segunda guerra mundial, regressou à sua pátria, mas com a emergência do comunismo foi levada pela família para os EUA. Três avós e vários tios morreram no Holocausto.
Filha de um diplomata, professor, Madeleine Albright conta que quando entrou o Liceu, nos EUA, criou um clube de assuntos internacionais, nomeando-se, de imediato, presidente do mesmo e suscitando discussões sobre todos os temas, desde o titismo até ao conceito de satyagraha («a força que nasce da verdade e do amor») de Gandy (p.18).
Foi a primeira mulher a desempenhar o cargo de Secretária de Estado norte-americana, entre 1997 e 2001.
Sem comentários:
Enviar um comentário