Tão raro e tão bom ler, falar-se sobre a fé de um modo adulto, maduro, culto. Sem ser um discurso ideológico, sem demagogia nem retórica, intelectualmente sério e honesto. A entrevista do realizador Xavier Giannopoli ao Ípsilon (05-10-2018) abriu-me imediatamente a curiosidade para ver A Aparição:
Lembro-me de em criança o
meu confessor dizer: “Xavier, não
esqueças que os olhos do Senhor
estão sobre ti.” Na verdade, vivia
essa frase como uma ameaça, como
se me vigiassem. Mas hoje, e sobretudo
depois de ter feito A Aparição,
entendo a frase ao contrário: como
uma mãe que tem os olhos sobre
mim e que me protege. Passei da
sensação de ameaça para algo como:
“Não te inquietes, os olhos do
Senhor protegem-te.” Na verdade,
fiz o filme para isso. (...) Não queria fazer um filme que
fizesse proselitismo, mas também
não queria fazer um filme que gozasse.
Queria encontrar um olhar
justo. Evidentemente que há uma
emoção religiosa, encarnada pela
jovem vidente, mas ao mesmo tempo
há um questionamento pela razão.
Numa época em que tanto se
fala de fanatismo e histeria religiosa,
há aquela mulher que diz: “A fé
é uma decisão livre e esclarecida.”
Achei importante dizer isso hoje. (...) Quis filmar padres que não
são iluminados, que são pessoas
que têm uma relação com a fé que
me interessa. Todas as pessoas têm
a sua hipótese no filme. Há quem
viva a fé em estado de exaltação, há
quem a viva em reclusão, há quem,
ao ir atrás de um mistério, acorde
em si o mistério, como a personagem
de Lindon (...) tenho os dois [o céptico e o vidente/crente] em mim (...) Não julgo. Não quero ser ingénuo,
mas não quero gozar. Essas duas personagens estão em
mim. Há uma parte de mim que vai
em direcção a um desejo de recolhimento,
que dá importância à oração,
à interioridade, que olha para o céu,
simplesmente. E há uma parte que
duvida, que resiste. E os dois dialogam.
Antes pensava que esse diálogo
era uma coisa má, porque me sentia
incapaz de fazer uma escolha, mas
é isso, a contradição, que humaniza.
Hoje sei, depois de falar muito sobre
o filme, que essas personagens expõem
a contradição que me habita. (...) Uma coisa interessante
que ele me disse: “Tenho vontade
de acreditar nas pessoas que
acreditam.” (...) A partir do
momento em que sente a engrenagem
nos bastidores, regressa a si
própria e à sinceridade da sua fé.
Não está confortável com os idólatras,
há uma pureza a não querer
ser comprometida. (...) Percebi que as aparições
dividem muito a Igreja, que não há
idolatria, que tem uma relação distante...
Falei com padres, crentes,
fiéis. A um padre disse-lhe: “Você
é mais forte do que eu, no momento
da morte acreditará na vida eterna.”
Ele olhou-me como um miúdo:
“No momento de morrer direi: ‘Espero
não me ter enganado.’” Essa
frase perturbou-me. A beleza da fé
é essa decisão, apesar da dúvida. Em momentos de fanatismo parece
que não somos livres de acreditar. [O escritor] Michel Houellebecq
fala muito de cristianismo nos seus
livros e numa entrevista disse algo
que para mim é uma bomba: se o
cristianismo fosse uma religião de
Estado em França, não haveria problemas
de assimilação dos muçulmanos.
Há uma histeria laica em
França. Mas há algo a fazer e o meu
filme é sobre isso: respeitar a laicidade,
mas admitir que é possível o
mistério. Espantam-me os debates
na TV francesa em que os intelectuais
dizem chocados que há raízes
cristãs no país. Chocados, porque,
segundo eles, está aí a razão por os
muçulmanos não serem bem aceites
no país. Ora, é o contrário: é por causa
disso que os muçulmanos devem
encontrar o seu lugar.
O que quis explicar no filme é que
há muita gente que vive o questionamento
no segredo dos seus corações,
de forma pudica e secreta,
não de forma política e guerrilheira.
O bruá mediático leva os debates
à caricatura. A crença e a fé são uma
matéria de tal modo sensível, tão
contaditória e tão humana, que tinha
necessidade de fazer um filme
que se reapropriasse do lado íntimo
dessas questões e que não fizesse
com isso uma questão política e social
que terminasse em insultos.
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