sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Maturidade e fé


Tão raro e tão bom ler, falar-se sobre a fé de um modo adulto, maduro, culto. Sem ser um discurso ideológico, sem demagogia nem retórica, intelectualmente sério e honesto. A entrevista do realizador Xavier Giannopoli ao Ípsilon (05-10-2018) abriu-me imediatamente a curiosidade para ver A Aparição:


Lembro-me de em criança o meu confessor dizer: “Xavier, não esqueças que os olhos do Senhor estão sobre ti.” Na verdade, vivia essa frase como uma ameaça, como se me vigiassem. Mas hoje, e sobretudo depois de ter feito A Aparição, entendo a frase ao contrário: como uma mãe que tem os olhos sobre mim e que me protege. Passei da sensação de ameaça para algo como: “Não te inquietes, os olhos do Senhor protegem-te. Na verdade, fiz o filme para isso. (...) Não queria fazer um filme que fizesse proselitismo, mas também não queria fazer um filme que gozasse. Queria encontrar um olhar justo. Evidentemente que há uma emoção religiosa, encarnada pela jovem vidente, mas ao mesmo tempo há um questionamento pela razão. Numa época em que tanto se fala de fanatismo e histeria religiosa, há aquela mulher que diz: “A fé é uma decisão livre e esclarecida.” Achei importante dizer isso hoje. (...) Quis filmar padres que não são iluminados, que são pessoas que têm uma relação com a fé que me interessa. Todas as pessoas têm a sua hipótese no filme. Há quem viva a fé em estado de exaltação, há quem a viva em reclusão, há quem, ao ir atrás de um mistério, acorde em si o mistério, como a personagem de Lindon (...)  tenho os dois [o céptico e o vidente/crente] em mim (...) Não julgo. Não quero ser ingénuo, mas não quero gozarEssas duas personagens estão em mim. Há uma parte de mim que vai em direcção a um desejo de recolhimento, que dá importância à oração, à interioridade, que olha para o céu, simplesmente. E há uma parte que duvida, que resiste. E os dois dialogam. Antes pensava que esse diálogo era uma coisa má, porque me sentia incapaz de fazer uma escolha, mas é isso, a contradição, que humaniza. Hoje sei, depois de falar muito sobre o filme, que essas personagens expõem a contradição que me habita. (...) Uma coisa interessante que ele me disse: “Tenho vontade de acreditar nas pessoas que acreditam.” (...) A partir do momento em que sente a engrenagem nos bastidores, regressa a si própria e à sinceridade da sua fé. Não está confortável com os idólatras, há uma pureza a não querer ser comprometida. (...) Percebi que as aparições dividem muito a Igreja, que não há idolatria, que tem uma relação distante... Falei com padres, crentes, fiéis. A um padre disse-lhe: “Você é mais forte do que eu, no momento da morte acreditará na vida eterna.” Ele olhou-me como um miúdo: “No momento de morrer direi: ‘Espero não me ter enganado.’” Essa frase perturbou-me. A beleza da fé é essa decisão, apesar da dúvidaEm momentos de fanatismo parece que não somos livres de acreditar[O escritor] Michel Houellebecq fala muito de cristianismo nos seus livros e numa entrevista disse algo que para mim é uma bomba: se o cristianismo fosse uma religião de Estado em França, não haveria problemas de assimilação dos muçulmanos. Há uma histeria laica em França. Mas há algo a fazer e o meu filme é sobre isso: respeitar a laicidade, mas admitir que é possível o mistério. Espantam-me os debates na TV francesa em que os intelectuais dizem chocados que há raízes cristãs no país. Chocados, porque, segundo eles, está aí a razão por os muçulmanos não serem bem aceites no país. Ora, é o contrário: é por causa disso que os muçulmanos devem encontrar o seu lugar. O que quis explicar no filme é que há muita gente que vive o questionamento no segredo dos seus corações, de forma pudica e secreta, não de forma política e guerrilheira. O bruá mediático leva os debates à caricatura. A crença e a fé são uma matéria de tal modo sensível, tão contaditória e tão humana, que tinha necessidade de fazer um filme que se reapropriasse do lado íntimo dessas questões e que não fizesse com isso uma questão política e social que terminasse em insultos

Sem comentários:

Enviar um comentário