Com Madeleine Albright, é interessante recuperar a biografia de Mussolini, aclamado no seu tempo por Thomas Edison como o «génio dos tempos modernos», por Gandhi como «super-homem», ou com o qual Churchill prometeu estar na «luta contra os apetites bestiais do leninismo».
Nascido em Predappio, a 65 km de Florença de pai ferreiro e socialista e de mãe professora e devota, vivendo desafogadamente, frequentou colégios internos, dirigidos por religiosos, desde os 9 anos, e nos quais se levantou em luta contra a injustiça, quando observava a separação, às refeições, entre os alunos mais abastados e os demais (entre os quais se contava Mussolini). Brigão e duro, gostava, contudo, também da leitura: dos periódicos diários, a Os miseráveis, de Vítor Hugo. Expulso aos 11 anos do colégio, por esfaquear colegas. Obteve o diploma para professor, mas a falta de disciplina nas suas aulas levou a que fosse dispensado. Aos 19 anos, viaja para a Suiça, onde trabalhou como operário, dormia em cima de um caixote de madeira e foi preso por vadiagem (uma de várias detenções). Depois de sair da cadeia, arranjou emprego como pedreiro e tornou-se activo no sindicato. Foi na época em que houve uma viragem das leis laborais num sentido mais favorável aos trabalhadores. Mussolini não era um pensador original, mas um "talentoso actor". Foi expulso da Suiça, regressou a Itália, e escreveu um folhetim contra as elites, em favor dos trabalhadores e apelando, mesmo, à via da violência, com a revolução como método.
Subitamente, muda de ideologia: "a reviravolta pode ter resultado de uma mudança sincera de opinião, porque os compromissos ideológicos de Mussolini nunca foram profundos e o pacifismo era alheio à sua natureza, mas existem outras possibilidades. Interesses empresariais franceses pediram-lhe ajuda para empurrar a Itália para a luta contra a Alemanha e a Áustria-Hungria e prometeram recompensá-lo. Além disso, manter um jornal é dispendioso; os fabricantes de armamentos mostraram-se generosos no financiamento ao Il Popolo d'Italia" (p.35). Quando Itália entra em guerra, Mussolini é recrutado para o exército onde, durante 17 meses, cumpriu serviço militar. Durante uma manobra de treino, com a explosão de um morteiro, quase perde a vida.
Apesar da coligação vencedora, Itália não teve direito aos frutos da vitória, o que fez com que os partidos de esquerda vissem vindicadas as suas razões anti-participação na guerra e aumentassem muito a sua votação nas legislativas. Numerosos governos municipais e fábricas estavam sob o governo de forças de esquerda.
O establishment industrial e agrícola reagiu e as tensões aumentaram fortemente na sociedade italiana. Houve derramamento de sangue, os extremos venciam, as pessoas moderadas e de centro não tinham voz. Os regressados da guerra eram questionados e não tinham lugar numa administração controlada pelos sindicatos. O Parlamento era visto como um bazar de corruptos. Os representantes não faziam um esforço para serem entendidos pelos representados. A Itália estava à beira do desmembramento. Condições propícias a um líder forte, autoritário, que unisse o país. Um Duce. "Os fascistas cresceram porque milhões de italianos odiavam aquilo a que assistiam no seu país e tinham medo do que o mundo testemunhava na Rússia bolchevique" (p.38). Talvez como que ilustrando a tese de que mais do que uma ideologia, o fascismo seria um método de aquisição e manutenção do poder, eis o que escreve Madeleine Albright acerca do discurso de Mussolini: "apelava aos compatriotas para que rejeitassem os capitalistas que queriam explorá-los, os socialistas que se empenhavam em transtornar-lhes a vida e os políticos desonestos e invertebrados que não paravam de falar enquanto a pátria amada se afundava cada vez mais no abismo. Em vez de lançar as classes sociais umas contra as outras, propunha que os italianos se unissem - trabalhadores, estudantes, soldados e empresários - e formassem uma frente comum contra o mundo (...) Quanto aos parasitas que tinham apostado no atraso do país - os estrangeiros, os fracos, os políticos indignos de confiança -, que se desenvencilhassem sozinhos. Apelava aos seguidores que acreditassem numa Itália próspera, pois seria autossuficiente e respeitada porque seria temida. Foi assim que começou o fascismo do século XX: com um líder carismático explorando o descontentamento generalizado com promessas de tudo" (pp.38-39). A america grande outra vez, a Washington corrompida, os exploradores da globalização, o desprezo pelos estrangeiros e pelos fracos actuais têm aqui uma clara ressonância. Como tem o colocar pobres contra pobres, o recorrer a brigadas e esquadrões de entre os que estão na pior posição na escala social para intimidar aqueles que quem domina no movimento fascista pretende afastar: "para contrariar a sua influência [a dos socialistas], os fascistas recorreram à vasta reserva de veteranos desempregados para organizar os esquadrões de homens armados, os Fasci di Combattimento, para matar os dirigentes sindicais, vandalizar as instalações dos jornais e espancar operários e camponeses. Estes bandos prosperaram porque muitos sectores da polícias os viam com simpatia e fingiam não ter conhecimento dos danos que infligiam aos inimigos esquerdistas. Passados meses, os fascistas estavam a expulsar os socialistas das cidades e vilas, especialmente nas províncias do Norte de Itália. Para publicitar a sua identidade, usavam uniformes improvisados - camisa preta, calças cinzento-esverdeado e chapéu preto estilo fez com borla" (p.39).
Convidado a expor o seu programa, Mussolini diria: "É quebrar os ossos aos democratas (...) e quanto mais depressa, melhor" (p.40). Sem ganhar uma eleição, mas sem violar a Constituição, Mussolini chegou à liderança política de Itália, quando o rei Vítor Emanuel entre os socialistas que queriam o fim da monarquia e os fascistas que, sendo grosseiros, poderiam eventualmente mantê-la, e após, vários ziguezagues e paralisia, permitiu que aquele ascendesse ao topo da escala política. Sobre Roma marcharam então pescadores de Nápoles e empregados de escritório e lojistas, vestindo camisolas negras e bonés de piloto. Mas havia camponeses da Toscana, um estudante liceal de 16 anos, gente descalça por não ter dinheiro para comprar sapatos. Gente com pistolas, mosquetes, espingardas, tacos de golfe, gadanhas, entre outros artefactos.
Não tendo a maioria no Parlamento, Mussolini intimidou a Assembleia e teve carta branca para fazer quase tudo o que lhe aprouvesse. E inicialmente destacou-se mesmo em medidas como a desburocratização, admoestando funcionários que chegassem atrasados, despediu 35 mil funcionários públicos em função das contas do Estado, deu a Itália o dia de trabalho de 8 horas, destacou bandos de fascistas para evitar ladrões de mercadorias por caminhos de ferro, financiou clínicas de saúde pré-natal, destinou verbas para construção de pontes, estradas, aquedutos gigantescos, codificou benefícios de segurança social para incapacitados e idosos, criou campos de férias para crianças e deu um golpe na Máfia ao suspender o sistema de júri. Não conseguiu que os comboios andassem a horas, apesar de o tentar (p.43)
Mulherengo, gostava de natação e esgrima - e pouco mais. Aprovou uma lei eleitoral que deu o poder no Parlamento aos fascistas. A fraude denunciada levou a que o dirigente socialista fosse raptado e assassinado. Em 1926, aboliu os partidos políticos concorrentes, acabou com a liberdade de imprensa, neutralizou o movimento sindical e fixou o direito a ser ele a nomear os funcionários municipais. Exortava os italianos a abdicarem do conceito de igualdade humana e a aderir a «o século da autoridade, um século a tender para a 'direita', um século fascista» (...) Nunca antes as pessoas se mostraram tão sequiosas de autoridade, orientação e ordem como agora. Se cada época tem a sua doutrina, então (...) a doutrina da nossa época é o fascismo". (p.44).
Desencadeou uma política externa agressiva que reduziu a Albânia a um protectorado e invadiu a Etiópia ("a maior guerra colonial de toda a história", segundo Mussolini). O Duce "não era um perspicaz avaliador de indivíduos, mas sabia bem o que as grandes massas queriam: espectáculo" (p.45).
Antes de se tornar primeiro-ministro, nunca vestira roupa formal; não aprendera qual a colher ou garfo que se devia usar num jantar em sociedade; não fumava, não apreciava bebidas alcoólicas, nem gostava de apertos de mão (que considerava pouco higiénicos). Mau ouvinte, não gostava de escutar os outros a falar, nem gastava mais de 3 minutos com uma refeição.
Mussolini prometeu tornar a Itália muito mais rica, promovendo, com irrealismo, uma moeda robusta e a auto-suficiência nacional. O falhanço foi rotundo.
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