Quais
são as actuais condições de acesso à obra de arte, ao quadro, à pintura, à
imagem? Se compreendermos em que condições nos encontramos, neste âmbito,
saberemos mais sobre nós-outros, contemporâneos. E entenderemos, igualmente, o
que nos diferencia face a uma tradição de séculos.
A
perspectiva, que diferencia a arte
ocidental, coloca o centro no olho humano. Durante
séculos, o quadro, a imagem fazia parte de um todo, uma Igreja, um museu, e só
poderia ser captada nesse contexto. Era preciso ir até às imagens. Com a
câmara, com a reprodução das imagens, podemos vê-las em nossa casa, às vezes
ficarmo-nos por um dos detalhes de um quadro apenas, e em vez de um mosaico em
que aquela pintura se integrava, temos agora a janela do nosso quarto em fundo,
a nossa secretária; em vez do novo, a familiaridade das coisas. O pano de fundo – nem a obra completa,
necessariamente; nem integrada em um conjunto, mas destacada deste; não o
singular, o novo, mas o familiar como enquadramento – muda substancialmente.
Deixa de haver peregrinação às
imagens (quadros, pinturas) e passam a ser as imagens que vêem até nós.
Ainda assim, poderíamos dizer que as reproduções são toscas, imperfeitas, longe
do original, o que não nos dispensa de as ir observar in loco.
Ora,
conceitos como autêntico, como genuíno, uma certa religiosidade adstrita à arte
assenta, quase sempre, num liame de tipo económico – o preço muito elevado de
determinado quadro, por exemplo – e só deixando e superando essa aura (com esse
tipo de conexão) se pode aceder a algo mais – a algo maior – nessa “originalidade”
(que as imagens possam conter). Essa “religiosidade”
é um substituto do que de facto as pinturas perderam quando passou a haver
reprodução de imagens.
A câmara, ao reproduzir
as imagens, tornou possíveis vários significados para as imagens, em vez de um
único, destruindo o seu significado original e único.
Ganharam algo com isto, as obras de
arte? Ganharam e perderam, em simultâneo. O importante acerca das imagens, elas mesmas, é que são silenciosas
e quietas. É como se a imagem
imóvel fosse um corredor que conecta com o momento que ela representa, com o
momento em que uma pessoa olha. E algo viaja por esse “corredor” a uma
velocidade maior do que a luz, questionando a nossa forma de medir o tempo.
Dado que as pinturas
são imóveis e silenciosas, e porque o seu sentido já não está adstrito a elas
tendo-se tornado transmissível, prestam-se a manipulação. Podem ser usadas para
sustentar argumentos ou pontos de vista que podem ser muito diferentes do seu
significado original. E, como são imóveis e silenciosas, uma forma óbvia de
manipulação é usar som e movimento. A câmara aproxima-se para mostrar um
pormenor isolado do conjunto (do quadro). O seu sentido muda. Uma figura
alegórica transforma-se numa jovem formosa, em qualquer parte. De formar parte
de um estranho mundo poético de metamorfose, um cão pode transformar-se numa
mascote.
Um
quadro de Bruegel, O caminho do Calvário,
com um significado claro, uma multidão ávida de curiosidade, com superstição, e
as figuras de Cristo e João transforma-se pela tv em algo imperceptível que
necessita do zoom de aproximação para dizer algo. É possível isolar detalhes que façam desta pintura aquilo que ela
não é, um quadro devocional. Mas com um simples movimento de câmara, este mesmo
quadro, pode ser tomado como exemplo de pintura paisagista. Os detalhes podem,
ainda, fazer dele um quadro acerca da história do vestuário. Ou dos costumes
sociais.
O sentido, o
significado de um quadro também é influenciado por aquilo que ouves (que estás
ouvir enquanto o vês; por exemplo, dão-te a informação de que se trata do
último quadro de Van Gogh antes de se suicidar e de imediato uma música
melancólica passa enquanto observas o quadro). Um Caravaggio recortado por uma
ópera italiana, ou por um coro religioso são coisas bem distintas.
O significado de uma
imagem pode mudar consoante aquilo que esteja a seu lado, ou o que venha a
seguir – por exemplo, se pensarmos no modo de reprodução da imagem em um jornal.
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