sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O DESASSOSSEGO SANTO COMO CAMINHO DA PAZ DIVINA


«Escreves sobre ti?» [estás a fazer uma autobiografia?] Também posso responder que escrevo sobre Deus. Mas será possível falar sobre Deus sem inserir nesse depoimento a vida pessoal? Se falasse sobre Deus «objectivamente», sem entregar nisso o meu eu, estaria a falar sobre um abstracto exangue.
Não seria tal «Deus exterior» apenas um fetiche? E também o contrário: será possível falar sobre mim sem dizer nada sobre Deus, poderia atribuir a mim próprio aquilo que a Ele pertence e cair para sempre na armadilha da egocentricidade ou afogar-me na superficialidade de Narciso. Quando Narciso se debruça sobre a superfície do lago, vê-se apenas a si próprio, ficando preso na superfície, na sua própria imagem sobre a superfície da água, e essa superficialidade torna-se fatal para ele. O olhar do homem crente deve penetrar mais fundo - só assim a profundeza não se torna para ele uma armadilha nefasta.
Dois factos, centrais para a nossa vida, são invisíveis: o nosso eu e Deus. Vemos muitas manifestações que podemos atribuir ao nosso eu e outras, por sua vez, a Deus, mas nem o nosso eu nem Deus se encontram perante nós como uma coisa à qual possamos apontar e que possamos localizar inequivocamente. É compreensível que algumas correntes filosóficas classifiquem Deus, e algumas também o «eu» humano, como uma mera miragem. Os místicos, nomeadamente o meu amado Mestre Eckhart, afirmam uma coisa imensamente profunda e ao mesmo tempo imensamente perigosa: Deus e eu somos um só.
Sim, esta perspectiva pode ser perigosa. Quando Deus se funde com o nosso eu, de modo a trocarmos Deus pelo nosso eu, perdemos a nossa alma. Ao separarmo-lo estritamente de nós próprios e começarmos a ver Deus como algo completamente exterior e separado da nossa alma, perdemos o Deus vivo, substituindo-o por um fetiche, puro objecto, uma «coisa entre as coisas». É tarefa constante da teologia mostrar esta inoculação dinâmica da imanência e da transcendência. Talvez possamos dizer sobre a fusão do nosso eu com Deus aquilo que disse o Concílio de Calcedónia sobre a relação da humanidade e divindade em Cristo: são inseparáveis e, mesmo assim, não estão misturadas. Se levo a sério o segredo da Encarnação, coração da fé cristã, se o entendo não só como um acontecimento acidental do passado, mas, sim, como a chave para a compreensão de todo o drama da história da salvação, história da relação entre Deus e os homens, então, na verdade, não posso pensar a humanidade e a divindade em separado. Ao dizer «eu», digo o homem sem Deus não é inteiro
Só na relação com Deus começamos a suspeitar que o nosso eu tem uma estrutura algo diferente daquilo que nos parece sob o olhar ingénuo do quotidiano. Por trás do nosso «ego» entrevemos, às vezes, aquilo para que os místicos e também a psicologia profunda contemporânea procuram um termo adequado: o «homem interior», o «eu profundo», das Selbst [o Si mesmo]...O Mestre Eckhart falava do «Deus interior», do Deus por detrás de deus. Alguns teólogos modernos e pós-modernos (e os a-teístas) falam do «Deus por trás do deus do teísmo». Talvez apenas quando revejamos a compreensão ingénua e objectivista de Deus e a compreensão semelhante ingénua do «eu» como uma ilusão, seremos capazes de compreender a frase de Eckhart: «Deus e eu somos um só». Compreenderemos que aqui não se trata, de todo, de uma divinização própria, de blasfémia nem de ateísmo oculto.
A relação entre Deus e o homem é um círculo sem fim e sem princípio. O olho com o qual olhas Deus e o olho com o qual Deus te olha é o mesmo olho, escreveu o Mestre Eckhart. E algo parecido podemos encontrar também em Santo Agostinho: o amor com o qual amas Deus e a procura com a qual procuras são o amor e a procura com os quais Deus te procura e ama. (...)
A vida do homem é uma autointerpretação constante. Quando quero apresentar-me ao outro, ou se quiser compreender-me a mim próprio, começo a contar a minha história. Este sou eu no tempo: ao contrário de um animal ou de um objecto, não sou apenas «agora», mas, sim, uma acção auto-observadora. Decorro desde o passado que trago comigo e «tenho» já agora, em certo sentido, também o futuro: em forma de esperança, planos e preocupações
A palavra religião, religio, é às vezes derivada de re-legere: ler de novo. Sim, a fé é a re-lecture [re-leitura] da nossa história pessoal: lemo-la sob um novo ângulo, num contexto mais amplo, com distância, com perspectiva e com compreensão mais profunda. A nossa vida, vista pelos olhos da fé, não é «story told by an idiot, signifying nothing» [«uma história contada por um idiota, não significando nada»], um balbuciar de um idiota, como diz o Macbeth de Shakespeare. É uma história, cujo autor e realizador é Deus. Mas Ele não nos manipula como marionetas suspensas por fios. O drama em que nos colocou, é mais uma comedia dell'arte [comédia da arte], uma peça em que nos ofereceu um grande espaço para a improvisação. A caligrafia de Deus pode ser reconhecida pela sua generosidade infinita, pela sua confiança inexplicável acerca da nossa liberdade. Ali onde a liberdade do homem não está deformada e caricaturada pela indisciplina e voluntarismo, onde se concretiza no amor e na criação, justamente aí, nessa liberdade da transcendentalidade humana, podemos avistar talvez a mais pura imagem e parábola de Deus que são a própria liberdade e generosidade
As Confissões, título do livro mais conhecido de Santo Agostinho, denomina tanto a confissão dos pecados, como a solene declaração da fé. A confissão de pecados em forma da narração honesta do nosso caminho de vida com todos os erros e dúvidas, realmente, está estreitamente relacionada com a confissão no sentido de declaração da fé, o reconhecimento de Deus. Na Missa confessamos a nossa pecaminosidade e também a nossa fé. Antes de, confessando, reconhecer Deus, confessamos os pecados e as dúvidas, reconhecendo a nossa humanidade.
Na confissão dos nossos pecados e fraquezas, confrontamo-nos com aquele homem dentro de nós que tanto gostaríamos de deixar atrás da porta da igreja, mas ele é aquele que na realidade é convidado para o banquete. «Quando deres um banquete [não convides os teus amigos ricos, mas] convida os pobres, os aleijados...» [Lucas 14, 12, 13]. Deus também faz assim: não convida aquela faceta rica, de fato de domingo, justa e pia do nosso ser, que lhe quer, pensando que pode retribuir. Convida aquilo, dentro de nós, que é cego e aleijado, que chora, que é pobre e faminto. Não para condenar, humilhar e suprimir essa faceta «menos atraente» do nosso ser, mas para saciá-la e alegrá-la. Foi justamente sobre isto que o rabino de Nazaré falava constantemente nas suas disputas com os fariseus.
O homem nas suas «virtudes», certezas e força, frequentemente costuma estar orgulhosamente fechado. O essencial nele abre-se através da sua fome, avidez e chagas. O essencial dentro de nós é a nossa própria abertura: a abertura ao essencial, ao «único necessário» que não se nos irá abrir nos momentos da nossa autoconfiança saciada e autossuficiente. A abertura do coração humano e a abertura do «Reino de Deus» é uma e mesma abertura. 
Quem sou, na verdade? «A questão que me tornei para mim mesmo», diz Santo Agostinho. Sim, o nosso eu, tal como o nosso Deus, deve ser para nós objecto de perguntas, dúvidas e buscas constantes. Também procuramos o nosso Eu e o nosso Deus através da narração da nossa história e de não escondermos a nossa emoção ao narrá-la. Apenas o coração que não deixou de se emocionar com o desassossego santo pode, no final, descansar no mar da paz divina.

Tomás Halík, Diante de ti. Os meus caminhos, Paulinas, Prior Velho, 2018, pp.19-23.

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