quarta-feira, 24 de outubro de 2018

"O FASCISMO NÃO É UMA EXCEPÇÃO À HUMANIDADE, MAS PARTE DELA"


Em retrospectiva, é tentador rejeitar todos os fascistas dessa época [anos 20/30 do séc.XX] como tipos malévolos ou lunáticos, mas isso é demasiado fácil e, ao provocar a complacência, é também perigoso. O fascismo não é uma excepção à humanidade, mas sim parte dela. Mesmo as pessoas que se filiaram nesses movimentos por ambição, ganância ou ódio, provavelmente não tinham consciência dos verdadeiros motivos - ou então negavam-nos perante si mesmas
Relatos orais desse período testemunham a esperança e o entusiasmo que o fascismo gerou. Homens e mulheres que tinham desesperado por uma mudança política subitamente sentiram-se perante as respostas que procuravam. Ansiosas, percorreram longas distâncias para assistir a comícios fascistas, nos quais encontraram almas gémeas desejosas de restaurar a grandeza da nação, os valores tradicionais da comunidade e o optimismo quanto ao futuro. Ali, nesta cruzada, ouviram explicações que para elas faziam sentido acerca das poderosas correntes que estavam em movimento no mundo. Ali encontravam as oportunidades que procuravam para participar em grupos juvenis, organizações de atletismo, acções de solidariedade e actividades de formação profissional. Ali estavam as ligações de que precisavam para iniciar um negócio ou pedir um empréstimo. Muitas famílias que se tinham limitado a ter dois filhos, pensando que eram os que podiam criar, encontravam a confiança necessária para ter quatro, cinco ou seis. Na companhia de outros fascistas com quem sentiam afinidades, podiam partilhar uma identidade que lhes parecia correcta e envolver-se numa causa que serviriam com alegria e espírito franco. Acreditavam que estes eram prémios pelos quais valia a pena marchar e até renunciar às liberdades democráticas - desde que os dirigentes pudessem cumprir o prometido e tornar reais as suas fantasias.
Durante muito tempo, pareceu que esses líderes podiam fazer o que prometiam. Ao longo dos anos de 1920, Mussolini tinha o aspecto de vencedor, assim como Hitler depois de 1933.  Neles - mais do que em quaisquer outros estadistas europeus - residia a confiança de que viessem a ser bem-sucedidos onde os políticos convencionais tinham fracassado. Eles eram os pioneiros, os visionários que estavam firmemente em contacto com o perturbador, e no entanto estimulante, zeitgeist, o espírito do tempo. (...)
O fascismo consolidou-se porque muitas pessoas na Europa e noutros lugares viram nele uma vaga poderosa que estava a transformar a história, que apenas a elas pertencia e que não podia ser travada.

Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube do Autor, 2018, pp.86-87.

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