terça-feira, 9 de outubro de 2018

O que é que eles dizem


1.O que dizem, o que captam afinal as estatísticas de Pinker ou de Harari? Como se mede, em estatística, a qualidade de vida (democrática), num tempo em que passamos a várias democracias musculadas, iliberais, democraduras, pós-democracias? Desconfio sempre das estatísticas - e da sua pertinência para explicar tudo - e menos ainda o essencial. Estamos muito melhor? (pestes, guerras, esperança média de vida). Como diria o Doutor Seiça, "depende" (regresso dos autoritarismos, imprensa independente sob fogo em cada vez mais lugares, o poder judicial debaixo de fogo de Executivo, liberdades e liberdade do cidadão em retrocesso em vários lugares).

2.No Brasil, já ontem, no Jornal da Globo, Jair Bolsonaro decidiu recentrar o discurso. "Desautorizo", afirmou agora sem hesitações, o vice-presidente que prometeu mudar a constituição sem passar pelo congresso. Ou o elogio ao programa Bolsa Família (sempre com o jogo duplo político de, ao mesmo tempo, dizer que vai aumentar os seus beneficiários...depois de excluir os que recebem essa prestação social em alegada fraude; não é precisa muita imaginação para prever o que se segue nestas circunstâncias). Na garantia de que aqueles que recebem até 5 salários mínimos estarão isentos de imposto - mas depois a aplicação de uma taxa única aos demais contribuintes, uma medida de clara inspiração liberal (e que, evidentemente, coloca em causa a progressividade fiscal). Seja como for, e ao contrário do que fez Trump, com o qual tem sido comparado, com vista a rapidamente chegar aos pouco mais de 4% que lhe faltam para ser Presidente do Brasil, Bolsonaro prefere recuar para mais perto do centro, lobo com pele de cordeiro.

3.No Sábado, no Expresso, o diretor Pedro Santos Guerreiro recordava que a ANA - aeroportos foi vendida por 3 mil milhões de euros, ao tempo de Vítor Gaspar, todo poderoso ministro das Finanças. Lembrava, ainda, Guerreiro que no momento da venda muita gente alertou para o que aí viria e para o preço que se estava a exigir. Agora, verificou-se que em apenas um ano, esta ANA deu 500 milhões de lucro, sendo que, a replicação dos resultados faria com que em 6 anos os 3 mil milhões fosse liquidados - ficando 44 anos para lucro...(dos 50 concessionados). Observou-se que as taxas aeroportuárias aumentaram (e quanto mais aumentarão?, ficando o lucro da empresa a cargo dos passageiros (diga-se que o funcionamento e gestão nos CTT e da ANA não têm sido uma grande propaganda em favor de privatizações a qualquer preço). José Luís Arnaut, escreve o director do Expresso, merece o prémio de funcionário da década, nesta autêntica "vaca leiteira francesa" (para a Vinci).
Houve, há meses, um senhor do BE que deu o dito por não dito, foi incoerente na diferença entre um discurso e uma prática, após um discurso com anátemas. O senhor foi corrido, desancado por todos, não houve comentador que não lhe chegasse, com visível satisfação. A concorrência, incluindo à esquerda, não se fez rogada, procurando, ups, capitalizar com as quase mais-valias de Robles. Quase. Fosse o pecado deste bodo à Vinci assim tão grave, e certamente teríamos os mesmos comentadores, as primeiras páginas, e os senhores dos cafés a glosarem sem apelo nem agravo com este negócio dos bons. Acontece que os senhores dos cafés nem sabem da ANA, da Vinci, nem de José Luís Arnaut.

4.Boa propaganda, às segundas, à hora de jantar, ao Telejornal da RTP: de um lado, Moura Guedes, num espaço cujo título - "A provedora" - não deixa de sinalizar o estilo e o conteúdo (ela está lá para "defender o povo", senão mesmo em "nome do povo"); do outro, Sousa Tavares (que há muito muito tempo deixou de ser uma referência, e se acomodou numa modorra e repetição, quando não falta de empatia com quem está pior).


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