quarta-feira, 10 de outubro de 2018

O que vale a pena?


Se o trabalho de Sísifo parece, em si mesmo, absurdo, e imaginamos Sísifo completamente insatisfeito com o que faz, caso, contudo, uma substância lhe fosse inserta nas veias, de modo que agora Sísifo se sentisse satisfeito, feliz ao levar sucessivamente a(s) pedra(s) ao cimo da montanha (depois de estas, de modo igualmente imparável, rolarem dali a baixo para de novo serem conduzidas ao topo), esse mesmo exercício - o de levar a pedra ao cimo da montanha, que rola para de novo ser erguida até ao cume, e assim sucessiva e infinitamente - passaria a ser um bom trabalho? Quem, acerca da realização (no trabalho), quem de uma actividade/emprego tiver uma concepção estritamente subjectivista poderá alegar que sim: a pessoa está satisfeita com a actividade que desenvolve, pelo que o trabalho se justifica/vale por isso (por esse próprio facto; não há que procurar mais nada, aqui: o que conta é a satisfação com o que se faz, ponto). Todavia, este exemplo, ou experiência intelectual serve, na perfeição, a Susan Wolf para demonstrar o inverso: o facto de, por uma substância nas veias, Sísifo passar a satisfazer-se com aquilo que, manifestamente, é absurdo, em nada retira deste (despropósito), e facilmente compreendemos esse mesmo sem sentido (como prosseguindo/permanecendo naquele labor). Esse sem sentido não se altera porque o sujeito passa a alegrar-se com uma actividade que não o justifica (e quem diz levar pedras ao cimo da montanha para que voltem ao início para serem carregadas de novo, num processo imparável, dirá do fazer sudokus de manhã à noite, do fumar erva, do dedicar-se exclusivamente a jogar computador ou atirar setas - por muito que estas actividades satisfaçam o sujeito e/ou lhe assegurem a sobrevivência material). 
O exemplo de Sísifo permite, pois, com Susan Wolf, reconhecer um certo padrão independente - ou, em realidade, objectivo-subjectivo, dado que se espera que a dedicação a actividades que merecem a nossa devoção, que estão para além (não se esgotem ainda que as não excluam) do nosso perímetro de satisfação, de prazer, nos tragam realização, pelo que ao padrão objectivo se junta, ainda, esta entrega amorosa subjectiva - a uma actividade objectivamente valiosa - que podemos encontrar no tipo de actividades a que podemos dedicar-nos).
Muda a situação com a substância injectada em Sísifo? Muda. Mas para pior: o sujeito, em vez de estar insatisfeito (antes da injecção da substância), é agora uma pessoa que se encontra em um estado de ilusão, ou mesmo em posição de capacidades intelectuais diminuídas - o que é pior para ele.

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