Cícero declarou que «governar uma república é uma arte difícil». Entre a sua época e a nossa, não se tornou mais fácil. Consideremos que, de todas as pessoas que festejarem este ano o seu décimo sexto aniversário, nove em cada dez fá-lo-ão num país com um nível de vida abaixo da média. Nas quatro dúzias de nações mais pobres do mundo, a população adulta mais do que triplicará até meados do século. Globalmente, mais de um terço da força de trabalho não conta com emprego a tempo completo. Na Europa, o desemprego juvenil é superior a vinte e cinco por cento, e este nível é ainda mais elevado entre os imigrantes. Nos Estados Unidos, um em cada seis jovens não frequenta a escola nem tem emprego. Os salários, em termos reais, estão estagnados desde os anos 70.
Estes números seriam perturbadores em qualquer época, mas são particularmente preocupantes na actualidade, quando são tantos os países onde a população que atinge a idade adulta está ansiosa por iniciar uma carreira, mas não tem nenhuma hipótese realista de o fazer. Pensemos no candidato a um doutoramento que conduz um táxi; no licenciado que anda a abrir valas; e no elevado abandono escolar que não tem oportunidade de ser contratado. As pessoas querem votar, mas precisam de comer. Em muitos países, o clima faz recordar aquele que, há uma centena de anos, conduziu ao fascismo italiano e alemão.
A inovação é o principal gerador de emprego, mas é igualmente o seu destruidor número um. A tecnologia tem permitido às empresas aumentar a produtividade - uma bênção para os consumidores, mas não para aqueles cujos empregos se tornam obsoletos. É por isso que temos menos mineiros de carvão, trabalhadores agrícolas, rebitadores, soldadores, calceteiros, empregados bancários, costureiras, ferreiros, tipógrafos, jornalistas de imprensa, caixeiros-viajantes e telefonistas - um défice que não é compensado pelo aumento de programadores informáticos, consultores, técnicos de saúde, especialistas em aconselhamento sobre dependências e estrelas dos reallity shows da televisão. O concorrente mais difícil para qualquer trabalhador é uma máquina que pode fazer o mesmo trabalho quase sem custos. Esta competição desigual entre as nossas invenções e a nossa força de trabalho deprimiu os salários e privou milhões de pessoas da dignidade que provém de um emprego regular - e, juntamente com isso, do sentimento valioso de se sentirem úteis e do optimismo quanto ao futuro.
Com este pano de fundo, o espírito de celebração que nasceu em muitos - eu incluída - quando a Guerra Fria terminou dissipou-se. Em 2017, o Índice de Democracia do The Economist mostrou um declínio na saúde democrática de setenta países, com base em critérios como o respeito pelo devido processo, a liberdade religiosa e o espaço concedido à sociedade civil. Entre as nações menos bem pontuadas estavam os Estados Unidos, que, pela primeira vez, foram considerados uma «democracia deficiente», em vez de «plena». (...) O número de americanos que dizem ter fé no seu Governo «tal como sempre» ou «na maior parte das vezes» desceu mais de setenta por cento no início da década de 1960 para menos de vinte por cento em 2016.
Sim, continua a haver avanços. Em África, quarenta chefes de Estado abandonaram o Poder voluntariamente no último quarto de século, comparados com uma simples mão-cheia nas três décadas anteriores. No entanto, os progressos registados em África e num reduzido número de países não conseguiram obscurecer um nivelamento mais geral. Actualmente, cerca de metade das nações da Terra podem ser consideradas democracias - deficientes ou não -, enquanto as restantes cinquenta por cento tendem para o autoritarismo.
As sondagens indicam que a maioria da população continua a acreditar que a democracia representativa (...) tem partes excelentes. Contudo, as mesmas sondagens demonstram uma curiosidade crescente acerca de potenciais alternativas. Em média, uma pessoa em quatro tem boa opinião de um sistema que permite a um líder forte governar sem a interferência do parlamento ou dos tribunais. Uma em cada cinco sente-se atraída pelo conceito de um governo militar. Previsivelmente, o apoio às opções não democráticas é mais evidente entre as pessoas, sejam elas da direita ou da esquerda políticas, que não possuem instrução superior e que se sentem infelizes com as circunstâncias económicas - os grupos mais atingidos pela evolução na natureza do posto de trabalho. A crise financeira de 2008 reforçou esta tendência, levando muitos cidadãos a duvidar da competência dos dirigentes e pôr em causa a justeza de sistemas que parecem proteger os ricos à custa de todos os outros.
Madeleine Albright, Fascismo. Um alerta, Clube do Autor, 2018, pp.141-144.
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