
Neste livro, que é uma auto-biografia, além desta confissão de ter tido, pelo menos, três grandes crises de fé (até ao momento, na sua vida), Tomás Halík dá-nos a conhecer a Igreja clandestina, na Praga comunista, com alguns dos maiores teólogos do século XX a passarem por um conjunto de apartamentos a oferecerem seminários, para que a Igreja, viva, pudesse manter-se actualizada e vivificasse - testemunhos, aliás, numa Igreja acossada, que vieram a dar fruto, com a admiração generalizada do povo checo (na resistência ao totalitarismo). Sempre que sem privilégio, historicamente, uma Igreja ainda mais forte. E, todavia, se exemplar a reacção face ao totalitarismo, mais difíceis as forças no que se lhe seguiu.
Halík, nesta obra, conta, também, a sua educação (liberal/humanista) e o modo como após a sua ordenação sacerdotal sempre se encontrou preparado e disponível para acompanhar os inquietos intelectualmente, fosse no mundo dos estudantes universitários, fosse entre académicos propriamente ditos, ou no meio artístico e jornalístico. Veio, em termos familiares, do meio intelectual burguês de Praga e sempre assumiu que, mais do que deslocado em uma paróquia rural, era nesse meio que, porventura, o seu potencial evangelizador seria melhor aproveitado. A seguir à queda do regime comunista, foi sondado, por próximos de Vaclav Havel, alguém a quem era muito chegado e por quem mostra uma enorme admiração, para ser Ministro da Cultura. Rejeitou. Também rejeitaria, embora houvesse nisso ponderado, candidatar-se à Presidência do seu país. Diversos jornais fizeram com ele manchetes, apontando-o como um dos favoritos. Sondagens colocaram-no bem posicionado. Halík afirma que sopesou essa possibilidade por o cargo de Presidente, na sua geografia/cultura, não significar nem um executivo à maneira de uns EUA, por exemplo, nem uma figura decorativa e protocolar, mas, essencialmente, e de maneira singular, alguém que deve adicionar ao nível dos valores, que saia do mainstream, e que se afirme como autoridade intelectual e espiritual. Política e ideologicamente, vemos Halík próximo do «centro da direita» (p.311), nos anos 90 atraído pelo «neoconservadorismo» (e seus principais representantes, Michael Novak, George Weigel e Richard Neuhaus; Novak representou "uma variante de direita do pensamento político e social católico" e que procurou "diminuir a tensão" entre o conservadorismo liberal à maneira americana e a doutrina social da Igreja; conta-se que terá sido um dos inspiradores, com Rocco Buttiglione, da Centesimus Annus, de João Paulo II, que recebeu entusiasticamente; Neuhaus foi um manifestante contra a guerra do Vietname, na sua juventude, militou à esquerda, mas veio a mudar o seu pensamento político; ordenou-se sacerdote já depois dos 50 anos), mas abandonando tal território depois da experiência de George W.Bush no Iraque (p.325). Como bom intelectual, imagina-se indeciso, esgotando-se na compreensão, nas razões que os lados das questões que teria de arbitrar colocariam, de modo pertinente, sobre a mesa. Um convite para Oxford, onde ficou durante meses, resolveu de vez o dilema (para o qual contou com o discernimento inaciano: a) percepção dos sentimentos primários face ao problema com que se confrontava; b) o que a razão lhe indica; c) a escuta espiritual). A verdade, porém, é que sempre se sentiu melhor entre gente das artes, da comunicação social, da Academia do que junto dos sacerdotes seus compatriotas - ainda que, rumando a Oeste, percebia, de imediato, que lia os mesmos livros, colocava as mesmas perguntas, tinha os mesmos interesses que os sacerdotes locais. Em casa, em Praga, era solitário (poucos amigos entre o sacerdócio) e parecia-lhe recuar 50 anos (em termos de mentalidades e do tipo de catolicismo que era promovido, o tipo de estruturas existentes). Essa sensação deve, ainda, ter sido reforçada quando, integrando a faculdade de teologia como docente, no pós-comunismo, sentiu não apenas a falta de vitalidade, a apologética, a inexistência de confronto com o exterior, a metodologia anquilosada, como foi alvo de uma perseguição, pelo diretor da Faculdade, que o levou a perceber uma face da Igreja que ignorava e que o implicou em um enorme desgaste interior. Ele que saíra da clínica, onde era psicoterapeuta, para ganhar 4 vezes menos naquela Faculdade, dada a sua vocação. Conquanto aparecesse e fosse permanentemente solicitado para conferências, debates, programas de tv, sendo muito conhecido e reconhecido, não pensou passar dificuldades, como não passou, para encontrar novo emprego, desta feita na Faculdade de Letras (que tinha um núcleo de estudos da religião). Aqui, a formação em Sociologia, por parte do autor, também resultava em uma mais-valia. Halík, o católico jesuíta, muito dado ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso ao longo de todo o seu trajecto, considera o viajar como parte necessária de uma Educação e, na verdade, deu aulas e palestras um pouco por todo o mundo: do Chile aos EUA, do Reino Unido à Polónia, de Roma à Índia (na qual encontrou comunidades católicas que se pareciam com os primeiros cristãos, nomeadamente na solidariedade mútua que praticavam; em Goa, encontrou "muitos monumentos do tempo dos colonizadores portugueses", p.330; por estas terras, em fazendo um sermão acerca dos benefícios do jejum, perto da Páscoa, sentiu a vergonha de falar para quem, em realidade, nunca tivera refeições a sério; os cristãos são cerca de 2% da população indiana, sendo que a aposta dos católicos, em tais paragens, é sempre na educação, e na formação contínua dos sacerdotes, que o chegam a ser muitas vezes após terem um bacharelato noutra área, como Literatura Inglesa; e nem considerações de tipo pragmático, a escassez de mãos no terreno, fazem com que se dispense uma aturada e intensa preparação para que alguém venha a exercer o sacerdócio, porque se entende que isso dará frutos),passando pelo Egipto, Marrocos, Canadá, África do Sul, Nepal, Austrália, Tailândia, Vietname, Taiwan, Birmânia, Japão. E, em 2016, "causou-me muitas impressões profundas uma viagem, bastante curta, mas muito intensa, para algumas palestras em Portugal" (p.349). Onde concelebrou missa com José Tolentino de Mendonça, "com o qual temos muito em comum" (p.350) Em Roma, esteve na sede da Opus Dei, reconheceu o mérito das suas gentes, mas sentiu que não era o seu ambiente. Numa viagem na ilha de Nélson, quase conhece a morte: "foi uma experiência espiritual peculiar que me trouxe mais do que a confirmação de que, quando uma pessoa se vê verdadeiramente aflita, rapidamente se lembra de Deus. Aí venerá-lo-á também aquele que toda a sua vida se gabou de ser ateu. Ocorre-nos se o ateísmo não será apenas uma ilusão de luxo a que se podem permitir somente aqueles que não conheceram a necessidade real ou que eliminaram da sua consciência a experiência pela qual passaram (...) Experimentei um grande alívio de que a minha vida não está sob a minha própria direcção e que a minha força de sobreviver e resistir vem de uma fonte muito mais profunda do que o enredo do meu eu, os meus músculos, os meus pensamentos e os meus nervos. E entreguei-me completamente a essa fonte, «liguei-me a Deus», entreguei-lhe o leme e senti um grande afluxo de força e uma grande libertação. Houve nisso uma certa «resignação», mas nada de passividade. Em vez disso, senti uma enorme intensificação da minha actividade e a sua liberação de qualquer medo pela minha pessoa que me travasse e enervasse (...) Só no momento limite, isso [o confiar da vida a Deus] sai do homem como uma chama, como o inspirar profundo daquele que se está a afogar ou a sufocar. Sem palavras ou grandes pensamentos, como um acto imediato e puro do espírito, no qual o homem está totalmente inteiro, com corpo e alma, passado, presente e futuro" (pp.361-362). Esta mesma experiência poderia ser descrita com recurso a neuromodeladores, ao processo neurofisiológico, mas, apesar das duas chaves de leitura serem possíveis, "não é simplesmente o mesmo com outras palavras. Querem dizer o mesmo, não são simplesmente substituíveis, porque ambas expressam um ponto de vista específico e afectam outros aspectos e níveis do acontecimento que vivemos (...) O que se perde quando não reproduzir a minha experiência na linguagem da fé? Uma coisa é certa: um sentimento de gratidão. (...) O facto de uma pessoa, pelo menos por um tempo após esta experiência, começar a apreciar a vida como um dom que não é evidente, tendo uma forte necessidade de «agradecer», e não só pela salvação, mas também pela vida em geral, isso realmente não pode ser expresso de forma mais completa do que com a linguagem da fé" (pp.365-366).
A teologia sobre (ou pós) Auschwitz sempre o interessou de um modo decisivo e continua a marcar: "A chamada «teologia de Auschwitz, tanto judaica como cristã, é uma inspiração muito significativa para a minha espiritualidade e pensamento teológico. E eu procurava honestamente uma resposta para a pergunta: «onde estava Deus em Auschwitz?» Para a minha pergunta, aceitei as respostas de dois pensadores judeus. Primeiro, Deus estava lá no seu mandamento «Não matarás!»! E em segundo lugar, a pergunta correta deve ser: onde estava o homem em Auschwitz? Quando transferimos a nossa responsabilidade humana para Deus, fazemos dele uma tela de projecção dos nossos desejos ou da nossa dor, raiva e indignação moral. O «Deus da ponte de comando», algures acima das ondas da nossa dor, que, como se fosse um deus ex machina, atracasse sempre onde nós humanos tornamos o mundo que nos tinha confiado um inferno, realmente morreu, e isto para muitos, claro, aconteceu no contexto de tragédias como as guerras mundiais, Auschwitz e Gulag. Tal deus era uma projecção humana" (p.297).
No livro, narra-se, igualmente, o primeiro encontro de Halík com João Paulo II, e como este, em levando o checo e outro convidado ao seu apartamento, principia, com estes, por orar, muito intensamente (o que impressionou o homem que veio de Praga: "Depois, chegou o secretário Dziwisz, deu-nos as boas-vindas e levou-nos ao apartamento papel. O Santo Padre entrou e levou-nos, como em todas as outras visitas, primeiro à sua capela e, ali, ajoelhou-se diante de nós em frente ao tabernáculo para uma longa e silenciosa oração. Na verdade, foi o momento mais poderoso. Vi o Papa mergulhar em oração, como se uma pedra caísse num poço profundo, parecendo que nos estava a puxar consigo para as profundezas. Pensei: então é a partir daqui que toda a Igreja é governada", pp.187-188), na capela que este continha (numa outra ocasião, João Paulo II pergunta a Halík que livros de Havel lhe aconselha; este, escolhe três títulos; "esses, já li. O Papa lê à noite"). Foi com João Paulo II que Halík seria nomeado para um Conselho para o Diálogo com os Não-Crentes, já depois de incentivado a um doutoramento em teologia (que versou a doutrina social da Igreja). Creio que um pequeno passou, já no final destas suas deambulações auto-biográficas, descreve na perfeição o seu modo de se posicionar e de entender o lugar do cristianismo: "Toda a literatura patrística está repleta de referências à cultura antiga, à mitologia, poesia e filosofia. Se nos primeiros séculos entre os cristãos prevalecesse o medo da abertura amigável para com a cultura e a espiritualidade do seu tempo, o Cristianismo teria provavelmente permanecido uma insignificante seita à margem do Judaísmo, nunca se tendo tornado a corrente moral e espiritual que mudou a face cultural da Europa e de outras grandes partes do Planeta, de forma mais intensa e duradora do que qualquer outra doutrina" (p.344).
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