14.Para
os gregos antigos, uma vida boa não
depende de riquezas. É certo que são necessários alguns bens para que a pessoa
possa dedicar-se a uma vida contemplativa; mas a felicidade não depende de
riquezas. Já o romano Séneca
postulou, inclusive, que as riquezas podem ser obstáculo a uma vida consagrada
ao espírito. As reflexões de Séneca são ainda hoje relevantes para quem pratica
um modo de vida alternativo ao capitalismo
– ainda que não conste que o próprio autor se tenha devotado à pobreza (p.132).
Em todo o caso, a pobreza de que nesta obra se cura é aquela involuntária (e
não uma outra, voluntária, que no entender de alguns poderia levar a uma
pretendida ascese).
Quase
até aos nossos dias, entendeu-se que a pobreza era um mal, mas um “mal inevitável”; havia a
convicção de que “sempre haveria pobres” e que a “pobreza não era causada por
nenhuma injustiça social que seria obrigatório remediar” (p.132). Efectivamente,
a ideia de que a pobreza involuntária
tem causas sociais e que o pobre tem direito a ter oportunidade de levar
adiante uma vida boa apenas surgirá no
final do século XVIII. Até há um
par de séculos, a situação geral da humanidade era de pobreza. Depois, com a tecnologia,
o emergir do carvão, as forças do mercado, a divisão do
trabalho, o parlamentarismo, das teorias do contrato social, a
situação altera-se: em nossos dias, “há
recursos suficientes para erradicar a fome” (p.133). Em síntese, nos
últimos 200 a 300 anos, assistimos à passagem do entendimento da pobreza como
uma questão (apenas) pessoal ou grupal, a uma outra compreensão que a toma na
sua dimensão social.
O
imperativo categórico kantiano, a
pessoa olhada como fim em si mesmo,
seria a melhor expressão do fundamento do direito dos pobres a serem empoderados – e da devida actuação do Estado
nesse sentido. Nos seus Objectivos de
Desenvolvimento do Milénio, formulados no ano 2000, a ONU colocou a meta de
ausência de pobreza extrema e da fome para o ano de 2015; nos Objectivos do Desenvolvimento para 2030,
sobe um patamar nas pretensões: não já o fim da pobreza extrema, mas sim da pobreza (tout-court).
Adela
Cortina distingue o combate à pobreza, enquanto manifestação da protecção da
sociedade (evitar, eliminando ou mitigando a pobreza, problemas de segurança,
de coesão social, de delinquência) (p.135), daquele realizado em função da promoção da própria pessoa que passa por
uma situação de pobreza (protecção vs
promoção). O primeiro Tratado sobre a
pobreza surge em 1526, numa altura em que cresciam prodigiosamente o número de
pobres, mendigos, mulheres dedicadas à prostituição, feiticeiras e bruxas
(p.135). Todavia, já 500 anos a.C., Confúcio considerava a pobreza uma das
“seis calamidades” que havia que tratar para salvar a ordem social (p.136). O
“Tratado de Socorro aos Pobres” foi da autoria do humanista Juan Luis Vives, com o objectivo de
averiguar o número de pobres, o tipo de pobres existentes, e propor medidas
para os aliviar – tudo isto realizado, sempre e em todo o caso, para protecção da sociedade. Naquela segunda
década do século XVI, podia ler-se no Tratado: “é coisa vergonhosa, para nós cristãos, a quem nenhuma coisa tanto nos
encarrega como a caridade, e só ela creio que nos encarrega, consentir entre
nós a cada passo tantos pobres e mendigantes. Para onde quer que coloques os
olhos verás mil pobrezas e mil necessidades, mil mãos forçadas a pedir, por
pobreza” (p.136). Talvez o mais
surpreendente neste livro seja a defesa, nele realizada, de que a luta contra a
pobreza não deveria ficar a cargo de instituições caritativas ou da esmola
individual, mas sim a cargo dos poderes públicos, nomeadamente os municípios
(p.136). Para a ensaísta, aqui estará prefigurado, em gérmen, o Estado de Bem-Estar ou Estado Social.
Porém,
será necessário esperar até aos anos 60/70 do séc.XX para que medidas anti-pobreza
– subida de salários, sistemas de educação, mercados financeiros – permitissem
a promoção do pobre. Será só, ou sobretudo, a partir do pós-guerra e muito na
década de 60 que da protecção da sociedade se passa à promoção do pobre. É
preciso, neste âmbito, não cair em anacronismos e perceber, ainda, que a chave
de compreensão do mundo moderno é a era do indivíduo e seus direitos, pelo que,
diversamente, não poderíamos pretender que o mundo medieval ou, mesmo, o
Renascimento, onde as chaves de leitura eram outras, firmassem sobre a pobreza
conclusões que não era possível retirar a partir da sua pré-compreensão do
mundo.
15.A
professora de Filosofia sublinha o grande contributo e o carácter pioneiro das
religiões monoteístas na luta contra a pobreza: “em realidade, foram as religiões monoteístas – judaísmo, cristianismo e
islão – as que colocaram, em primeiro termo, que a pobreza é um problema, e que
contribuir para a sua eliminação, partilhando os próprios bens, é um
compromisso que se segue com a [para quem tem] fé” (p.137). Essa partilha
fazia parte da ortopraxis. Situando-se
numa área cultural muito marcada pela tradição judaico-cristã, a ensaísta
guia-nos pelas mais conhecidas passagens do Antigo e do Novo Testamentos para
concluir, sem dúvidas, que aí se espelha a opção
preferencial pelos pobres de que fala a Doutrina Social da Igreja Católica.
E mostra como os textos dos Evangelhos inspiraram multidões de revoltas, no
mundo medieval, de movimentos cristãos que reclamavam a atenção aos pobres e a
purificação da Igreja (com o célebre caso de Thomas Muntzer, ao qual aludirá o próprio Karl Marx).
16.
Aporofobia – a rejeição do pobre
conclui-se com um acervo de propostas da autora com vista à erradicação da
pobreza - por um lado -, e pelos caminhos para a edificação de uma sociedade
cosmopolita - por outro.
A
redução das desigualdades como modo de reduzir a pobreza e fazer aumentar o
crescimento; eliminar uma economia clientelar; evitar práticas de corrupção;
afirmar um sistema fiscal proporcional [progressivo] como um instrumento
básico; reforçar as políticas sociais; criar ou reforçar rendas básicas de
cidadania; enfoque na responsabilidade social das empresas (bem como pluralismo
de modelos destas) são as propostas no campo do que poderíamos chamar economia
política.
A
criação de uma sociedade cosmopolita em que todos se sintam cidadãos – que
deita raízes no sonho dos estóicos, que sabem que são simultaneamente cidadãos
do seu país e do mundo, passa pelo cristianismo, cristaliza na Ilustração e é
um dos grandes desafios do nosso tempo (p.151) – é o tópico derradeiro deste
livro. Nessa tradição, a virtude da hospitalidade, um dever de hospitalidade que corresponde a um direito à hospitalidade, desejavelmente impõe-se e institucionaliza-se (diz respeito às
instituições jurídicas, políticas, e sociais e ás obrigações do Estado). A hospitalidade recolhe o conteúdo do
vocábulo “filoxenia”, o amor e o afecto aos estranhos, e tem a sua origem no
latim «hospitare» que significa «receber como convidado». Atitude amável por
parte daquele que acolhe estrangeiros e visitantes, a hospitalidade – “a
disposição para acolher em casa um estrangeiro e necessitado de ajuda era um
signo de civilidade ou de religiosidade” (p.152) – era inquestionável.
Rejeitar o estrangeiro necessitado de ajuda é que carecia de explicação (ao
contrário de hoje, em que se inverteu o ónus da prova: é preciso agora
demonstrar, em detalhe, porque devemos receber o estrangeiro mesmo que este se
encontre muito necessitado). Tanto no mundo ocidental como no Oriente. Os relatos
de hospitalidade abundam na Ilíada,
na Odisseia, em mitos como o de Filémon e Báucis e na Bíblia. Esta
mesma atitude aquela que levou, em definitivo, no nosso tempo, a que muitas
famílias, ainda assim, quisessem acolher, e tenham acolhido, vários refugiados
em suas casas. Mas também no campo da hospitalidade, a dimensão pessoal não
chega e é necessária uma institucionalização.
Contudo,
o cosmopolitismo nem sempre foi
valorado de forma positiva; não raramente, o cosmopolita foi entendido como um individualista radical que
rejeita qualquer compromisso com a comunidade - posicionamento que levaria ao
reforço do interesse pessoal (p.157). No “Dictionnaire de La Academie”, de
1762, diz-se que um cosmopolita não é um bom cidadão. Os cosmopolitas são
criticados por Rousseau na sua obra.
Quem,
sem embargo, hoje demanda uma sociedade cosmopolita,
como é o caso de Adela Cortina, procura promovê-la – pelo menos é essa a
proposta desta autora - com os seguintes fundamentos: a) direito de propriedade
comum da Terra, não existindo ninguém, originariamente, com mais direito do que
outro a estar em determinado lugar do globo; b) o facto de os homens não
poderem estender-se ao infinito sobre a superfície da Terra, por esta ser
esférica, implica a obrigação de se suportarem mutuamente (de serem suporte uns
dos outros) (p.161).
Numa
palavra, formar, à altura do nosso tempo, cidadãos compassivos capazes de
assumirem a perspectiva dos que sofrem e, sobretudo, comprometer-se com eles
(p.168) é um desígnio iniludível.
(continua)
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