Aporofobia – a rejeição
do pobre. Um desafio para a democracia – Um possível balanço
Obra comprometida com as grandes
questões do seu/nosso tempo, com uma atenção muito particular à problemática
das migrações, dirigida à polis e,
portanto, aos cidadãos (para lá das
pessoas, mesmo que esta distinção pessoa/cidadão não se deva afirmar sem a
devida adversativa – a dimensão institucional, para lá da pessoal, é
postulada, em permanência, enquanto proposta para combater alguns dos
principais constrangimentos que vivenciamos hoje por hoje), politicamente
empenhada, Aporofobia – a rejeição do
pobre, de Adela Cortina,
constitui-se como proposta de combate à pobreza, integrando um amplo leque – mais
vasto, porventura, do que as abordagens mais convencionais na matéria – de
elementos que considera determinantes para o bom andamento deste combate. Às
abordagens mais integradas nos campos ou âmbitos da economia e filosofia
políticas (pensemos, por exemplo, para falar de dois autores, prémios Nobel da Economia, e de duas obras,
relativamente recentes, com os e as quais, cremos, haveria, em Adela Cortina,
alguma comunhão de ideias nesses domínios, Joseph
Stiglitz, com “O preço da desigualdade”, ou Paul Krugman, com “Consciência de um liberal”), matérias que neste
livro são igualmente acomodadas, a autora aduz a pertinência de tomar em grande
consideração as perspectivas que confinam com a biopolítica, a urgência de
levar em linha de conta os limites, a plasticidade cerebral-biológica, e, bem
assim, a ecologia a desenvolver para promover uma adicional motivação moral em
favor dos desfavorecidos. Se é verdade que a pesquisa antropológica e a
recusa do homo economicus, do agente racional que apenas prossegue o seu interesse – e este interesse concebido
em termos estritamente egoístas –
havia merecido, em anos recentes, forte contraditório em um conjunto de obras –
Sen, em A ideia de Justiça, segue Francis
Edgeworth, afirmando que o ser humano é “um egoísta impuro, um utilitarista
misto”[1].
Em suma,
“A
suposição de um ser humano completamente egoísta viria a assenhorar-se de
grande parte da corrente económica dominante, ao passo que muitos dos grandes
cultores da disciplina já viriam a expressar sérias dúvidas acerca da
veracidade de uma tal suposição (…) É frequente pensar-se erradamente em Adam
Smith como um defensor da suposição exclusiva busca do interesse próprio, sob a
forma do ‘homem económico’. A realidade, porém, é que Adam Smith nos oferece
uma discussão particularmente elaborada dos limites dessa suposição de uma
universal busca do interesse próprio. Adam Smith realçava o facto de que o
‘amor de si mesmo’, como ele chamava ao impulso subjacente aos comportamentos
exiguamente auto-interessados, é apenas uma das muitas motivações que os seres
humanos podem ter. Ele distinguia claramente entre diferentes razões que podem
levar alguém a contrariar os ditames do amor de si mesmo, aí se incluindo,
entre outras, as seguintes: simpatia (…), generosidade, espírito cívico”[2],
sendo
o mesmo raciocínio válido para a teorização de Francis Fukuyama,
em As
origens da ordem política, 57:
“Podemos
catalogar isto como a grande falácia hobbesiana: a ideia de que os seres
humanos eram primordialmente individualistas e que apenas formaram sociedades
num ponto mais tardio do seu desenvolvimento, devido a um cálculo racional
segundo o qual a cooperação social era a melhor forma de alcançarem os seus
fins individuais (…) A premissa também está implícita na economia neoclássica
contemporânea que constrói os seus modelos segundo a assunção de que os seres
humanos são agentes racionais que desejam maximizar os seus proveitos ou
rendimentos individuais. Mas foi de facto o individualismo, e não a
sociabilidade, que se desenvolveu ao longo da história humana. Se o
individualismo parece hoje um sólido pilar do nosso comportamento político e
económico, é porque desenvolvemos instituições que se impõe aos nossos
instintos comunais mais básicos. Aristóteles estava mais correcto do que estes
teóricos liberais dos primórdios da modernidade, quando afirmava que os seres
humanos são políticos por natureza”,
ou
Ha-Joon Chang,
em 23 coisas que nunca lhe
contaram sobre economia, todavia, no caso
de Adela Cortina, mais do que um apelo à história da Filosofia e a considerações
dos seus principais cultores acerca da condição humana, intervieram aqui
considerandos de ordem biológica-cerebral[3]
(e, nesse concreto tópico, creio que há novidade em trazê-los a debate com
vista à eliminação da pobreza).
Isto é, a um receituário (programático) que,
com opções e interesses a promover diversos, sempre há-de ocorrer,
inevitavelmente não isento de controversão, no que a medidas fiscais, de
política social ou, por exemplo, de rendas
básicas de cidadania diz respeito, Adela Cortina deixa-nos, com o seu
livro, a perspectiva de que uma luta de tipo filosófico-político, ideológico,
não chega. Averiguar do modo de potenciar cerebralmente, de acrescer à
motivação moral, eis problemas que têm que ser afrontados caso queiramos
combater, radicalmente (ir à raíz), a pobreza.
Neste
documento, a Professora de Ética principia por desenvolver, consistentemente, o
conceito que cunhou - justamente a aporofobia
- quer para denunciar a sua existência nas barbas da nossa normalidade
quotidiana (a banalidade do mal
no desprezo, impensado/irreflectido do pobre, do mendigo, do sem-abrigo),
obrigando-nos a abanar as cascatas de “senso comum” em que estamos imersos (António Hespanha), quer sacudindo a hipocrisia
larvar na desculpa da ostracização do outro, por ser estrangeiro, de outra
cultura – afinal, vemo-lo agora com clareza, fundamentalmente por ser pobre. Na
desocultação, na reinterpretação do “novo normal” – a hospitalidade havia
pertencido à condição dos deveres óbvios
para com o estrangeiro, enquanto tomamos em 2018 por adquirido que deste devemos desconfiar ao extremo -, na impugnação
da fácil divisão teoria-prática e na cabal demonstração de que não há nada mais prático do que uma boa
teoria (e, já agora, nada mais
teorético do que uma boa prática) - a criação de um delito específico de
ódio ao pobre - se ancora um dos grandes méritos desta obra. Em realidade, a
originalidade do termo criado por Adela Cortina, a visibilidade que deu ao
pobre, e às agressões de que padece, o desenvolvimento de diversos precipitados
que contendem com a aporofobia,
incluindo a interpretação extensiva do termo (enquanto atitude vital), são manifestamente meritórias.
A
aproximação holística – repare-se como o livro recorre à
pesquisa propiciada por alguns dos maiores investigadores de áreas como a
antropologia evolutiva, a psicologia, as neurociências, a sociologia, a
economia – poderemos firmá-la na hodierna forma
mentis do informado e conhecedor cidadão da segunda metade da segunda
década do século XXI. Não só, aliás, a interdisciplinaridade
se busca desde há muito, como se promove, agora, ainda, a exigência de transdisciplinaridade (Adriano Moreira). Sendo que, no caso em
apreço, o que subjaz ao estudo/investigação feita nas várias disciplinas, o que
é transversal no propósito de as convocar é contribuírem para o integral
respeito pela dignidade da pessoa, de cada rosto concreto, tomando, por consequência,
a eliminação da pobreza como prioridade.
De
entre as disciplinas visitadas, aquela que a última década e meia, porventura,
impôs, mesmo, como inevitável foi a da área das neurociências. Muito do seu
tempo, este ensaio percorre autores e obras que investigam o que se passa
no nosso cérebro, sem deixar de registar a ambiguidade de que esta zona de
estudos se encontra revestida - Cortina nota como o impressionante fluxo de
financiamento, direcionado às neurociências, enquanto ciência-estrela deste início de séc.XXI, por vezes, parece mais
ligada a uma dimensão de marketing
que promete mais resultados do que aqueles que pode alcançar, ou que tem
logrado; ainda muito desconhecemos daquele quilo
e duzentos gramas a que chamamos cérebro.
E,
neste domínio, vai um dos pontos talvez mais assaz curiosos/desafiantes do
livro: a indagação biológico-naturalista
de acções que torpedeiam os pobres. De uma banda, a autora sabe, e vinca, que negligenciar o corpo, a biologia, a natura, reclamando para um terreno mais
ou menos etéreo (desencarnado), exclusivamente volitivo, de escuta do daimon, de uma voz interior, de (exclusiva) formação do espírito, âmbito abarcado/tratado,
em termos disciplinares, pela filosofia ou, por exemplo, por doutrinas abrangentes (maxime, religiões), pela pedagogia,
psicologia ou a literatura, seria arriscar, no limite, decair em um dualismo antropológico hoje superado.
Por outro prisma, à (simplista) ansiedade do espírito do tempo de matematização
do mundo[4]
– as mais avançadas tecnologias que nos permitem observar as ressonâncias
cerebrais dar-nos-iam, igualmente, a ver, e permitir-nos-iam remediar, as
maleitas do humano, estas lidas em chave exclusivamente naturalista – responde com a inevitável ambiguidade/complexidade
que nos permeia: há no cérebro, e na evolução, prefigurações, tendências
que são ambivalentes, há a procura do familiar, do próximo, da tribo, mas há
também um gene altruísta e, seja como
for, o cérebro é de natureza bio-social,
plástico, modifica-se, podemos operar sobre ele.
A compreensão sobre quem somos – uma
simples “superfície biológica”? (como afirma um personagem de Houellebecq); ou, como escreveu Berdjaev, a pessoa não é, como o
indivíduo, um fenómeno natural, mas ordem do Espírito que se revela no destino
da existência? – subjaz, como pano de fundo, a uma
formulação que, creio, se situa no consenso do complexo ser uni-dual no qual o Espírito não é sem matéria – a lesão
(cerebral) de Phineas Gage, sobre a
qual podemos ler, entre outros, em O erro
de Descartes, de António Damásio,
implicou um (subsequente) pior desempenho ético daquele concreto homem; o
sistema moral não funciona sem, não prescinde da natura; em linguagem religiosa, a graça supõe a natureza -, mas esta não aniquila o Espírito, a voz interior, o daimon.
No perímetro do humanismo exclusivo (e
excludente), o desencantamento de um
cosmos povoado de espíritos – benignos e malignos -, agentes espirituais que
tudo preenchiam, com os quais o humano se confrontava, inapelavelmente, em uma
miríade de etapas ou acontecimentos[5],
quotidianamente, a identificação da presença de todos as sombras e fúrias no
interior do sujeito, especificamente na sua mente (“a única localização de
pensamentos, sentimentos, arrebatamento espiritual está no que designamos como
mentes”[6]),
ofereceu um substracto hermenêutico para a mutação paradigmática que deslocou o
terreno do contacto com/presença do sobrenatural – por vezes, mediada, ou
orientada num determinado sentido, por relicários, ladainhas, velas benzidas,
mezinhas, santos…– para a pura explicação imanente (no sujeito; as mentes são
humanas, limitadas e são espaços internos). É deste (último) modo que
assumimos, actualmente, que as coisas são (ainda que nelas não necessariamente
nos detenhamos, reflexivamente – o que nos permite tomar, com maior exactidão,
a medida do pulsar nosso contemporâneo).
Em anos recentes, António Damásio
destacar-se-ia, no sublinhar das limitações da abordagem cartesiana (ou, pelo
menos, da leitura, pelo neurocientista, desta): as emoções não só não devem ser
colocadas de parte, como são essenciais à boa decisão (razão); uma lesão
cerebral pode implicar o afectar de funções/tarefas (cerebrais) que, por
exemplo, contendem com o bom desempenho ético (visto, tradicionalmente, como
estando em uma outra ordem – suprassensível)[7]. A
identificação cérebro-mente voltava,
assim, à ordem do dia.
O filósofo Miguel Real, descrevendo o estado
da arte no interior desta temática, deixa-nos um acervo interessante de
mistério por resolver: o que os behavioristas, cognotivistas (partem dos estudos lógico-matemáticos das ciências
da informação), ou neurólogos (partem
da anatomia do cérebro), para quem a paixão, a inteligência, a razão só têm uma
sede – o cérebro, pois claro – não conseguem explicar ou responder, prende-se
com três questões essenciais: a) a criação de valores universais; b) a criação
do conhecimento sobre valores universais (a criação de conceitos universais e
de meta-conhecimento sobre conceitos universais – eternidade, infinito,
números, letras do alfabeto; c) a existência de conceitos sem imagem como
suporte do significado (ordens, séries, conjuntos, números não naturais)[8].
A (pura) relação corpo-mente é,
manifestamente, insuficiente para lhes dar resposta. “Amor” e “Deus”, para
exemplificar, não encontram expressão nestas teses; enquanto criação da própria
humanidade – mesmo supondo tal hipótese – existe a ideia de Deus: ideia de Deus
enquanto símbolo de infinito, eternidade, omnipotência, omnisciência,
perfeição. Amor que não abrange a minha
mulher, o meu filho, os meus amigos – pois este amor se encontra
já nos primatas –, mas amor de toda a humanidade, amor aos próprios inimigos –
este amor não encontra expressão lógica: “não há expressão lógica para a frase:
‘o amor de Deus’ ”[9].
Esta criação de valores universais, de que, aliás, a Bíblia é repositório, não tem lugar na investigação neurológica. Nenhum dos métodos de carácter lógico-matemático nos permite aceder a um ponto indeterminado como Deus. “Deus seria a expressão do cálculo como do calculador”; Deus é “fora de série”, Deus é “paralelo ao mundo”, Deus é “transcendente ao mundo”, dir-nos-iam.
Esta criação de valores universais, de que, aliás, a Bíblia é repositório, não tem lugar na investigação neurológica. Nenhum dos métodos de carácter lógico-matemático nos permite aceder a um ponto indeterminado como Deus. “Deus seria a expressão do cálculo como do calculador”; Deus é “fora de série”, Deus é “paralelo ao mundo”, Deus é “transcendente ao mundo”, dir-nos-iam.
Sistematizando,
poderemos dizer que, face ao problema em apreço, temos, na formulação deste
autor, x) a posição monista – que é comportamentalista, fisicalista, biológica, culturalista – que afirma: “os cérebros
causam a mente”. A mente
identifica-se com o espírito. Na formulação – culturalista – de Popper
há três dimensões – corpo, mente, espírito –, sendo, todavia, o espírito
criação da mente; (aquilo) tudo o que a mente criou; xx) a posição religiosa clássica – para a qual a alma ou espírito acresce
ao corpo (tese dualista ou descontinuista); xxx) a posição transcendentalista (defendida por Miguel
Real): o corpo humano é a casa do espírito. Este transcende o corpo, mas não se
realiza sem ele. O espírito, a existir sem corpo, tem de operar uma
transfiguração: não é mais o espírito humano.
No
desenvolvimento oferecido pelo filósofo português, a mente nasce contra o
corpo, isto é, emerge da necessidade de prevenir o mal (a doença, a carência, a
morte, o sofrimento, a incerteza quanto ao futuro, os ataques do inimigo…). O
espírito forma-se para dar sentido à união corpo-mente,
estabelecendo finalidades para a existência do corpo e da mente, criando a
esfera dos valores morais e conceitos intemporais. Em suma, precisamos do nosso
corpo. Da mente. Do espírito. O eu
englobará, de acordo com esta teorização, três níveis: razão, entendimento,
intelecto (logos, ratio).
Quem pretender retirar desta equação o espírito tem que responder aos três
desafios – a), b), c) – formulados, de modo fisicalista
(e até ao momento não houve esse eureka!).
Miguel
Real, ouvinte atento de Corelli e de Mozart, sabe, afinal, que aos reducionismos
- passíveis de serem achados em várias áreas do saber, e, por isso, patentes,
por vezes, também no campo das neurociências – falta esse espectro capaz de nos
ler e explicar na emoção que sentimos perante um quadro, uma composição
musical, a arte pela arte, a beleza pela beleza. A greve de fome é o
inexplicável pelo cérebro tanto quanto é, já se vê, atentado contra o corpo (o
suicida, paradigma da inexplicação cerebral): a greve de fome só se entende por
solidariedade de valores.
Anselmo Borges, colocando-se perante o mesmo repto - o de procurar
compreender a relação mente-cérebro -, reflectirá nestes termos:
“A questão da subjectividade pertence ao núcleo da
reflexão humana. Embora algumas correntes filosóficas falem da sua dissolução,
penso que o sujeito é ineliminável. Argumento, mostrando que a condição de
possibilidade de objectivar – no caso do Homem, de se objectivar – é o sujeito,
de tal modo que, por mais que objective de si mesmo, o Homem nunca se
objectivará completamente, já que continuará a ser o sujeito que (se)
objectiva. Manfred Frank também afirma que
nunca será possível reduzir a consciência e o espírito a processos neuronais, e
isso ‘por razões de princípio’. Há uma questão de princípio: como explicam as
neurociências a passagem de processos físicos inconscientes a processos mentais
conscientes? ‘Não é possível substituir o saber sobre nós mesmos por um saber
objectivo sobre o mundo.’ A subjectividade cai fora do mundo, não pertence ao
mundo dos objectos. O ‘eu’ do autoconhecimento não é
redutível àquilo a que nos referimos com nomes ou caracterizações. ‘A
autoconsciência é um conhecimento único, reflexivo, no qual uma pessoa se
refere conscientemente a si mesma, mas a si mesma em posição objectiva. Como
poderia ela, porém, captar este eu-objecto como ela mesmo enquanto sujeito, se,
antes desta apresentação objectiva, não tivesse tido uma consciência
inobjectiva de si?’ Esta consciência inobjectiva quer dizer vivida,
pré-reflexiva (…) A tese de neurocientistas que
afirmam não haver, por detrás do alegado livre-arbítrio, senão processos
neuronais, que determinam a vontade, contradiz não só a compreensão jurídica de
responsabilidade, mas também a nossa própria autocompreensão: queremos ser
autores racionais de mudanças no mundo – tentamos ‘tomar decisões racionais’.
(…) E há esta virtude admirável:
resistir moralmente à maioria. Os opositores ao Terceiro Reich ‘merecem o nosso
sumo respeito’, precisamente porque foram poucos e capazes de enfrentar a
morte. Aí, ‘os neurocientistas têm muito para justificar no sentido de dar
conta do normativamente correcto dessas decisões a partir de processos
neuronais’. Tudo o que é essencial, quando
pensamos na humanidade, ‘vinculamo-lo ao pensamento da subjectividade e não à
nossa representação do cérebro. São sempre pessoas, sujeitos, que consideramos
como criadores de literatura, cultura ou religião’. Afinal, ‘temos cérebros e
somos eus’. Daí poder formular-se o imperativo categórico de Kant nestes
termos: ‘Nunca trates os seres humanos como coisas, mas sempre como sujeitos e
pessoas. Se o mundo consistisse só em
objectos, não haveria ninguém a quem dirigir o preceito: ‘porta-te decentemente
com os outros sujeitos’”[10].
Por sua
vez, o médico e neurocientista Miguel
Castelo-Branco, explicando o conceito de delusão – “algo é visível ou percebido mas não consegue perceber
uma outra realidade subjacente”[11]
– indaga, com expressividade, mas ainda de modo (algo) retórico:
“será que a ciência pode estabelecer a espiritualidade
religiosa como uma delusão que pode ser explicada, e transformá-la na
explicação perceptível de uma ilusão da qual se pode escapar? Se assim fosse,
como explicar as ‘delusões’ duradouras do budismo, hinduísmo, cristianismo,
islamismo e judaísmo? Elas desafiam a explicação científica, escapam ao seu
reducionismo e revelam-se como transcendentais”[12].
A conclusão do investigador, porventura
temperada pelo signo da provisoriedade, é a de que “talvez a ciência possa
simplesmente explorar a fenomenologia da espiritualidade”[13].
Em seu entender, “a emergência de estados mentais a partir de relações físicas
ou biológicas parecem envolver um tipo de processo que não pode (pelo menos por
ora) ser extraído através de um esquema dedutivo”[14],
quer dizer, “continua porém por definir como é que se opera uma transição
metodológica da ‘explicação’ epifenomenal à ‘descrição’ iluminada da
experiência espiritual e religiosa”[15]. Maria Filomena Molder recorda Kant: “A ciência da natureza não há-de nunca revelar-nos o interior das coisas”[16]. E,
posicionando-se sobre os limites da ciência, aduz:
“A ciência não
conhece o limite como limiar, não tem a experiência do umbral, cria as suas
próprias limitações, que nada deixam de fora (deixando tudo o resto de fora)
(…) Não há, na verdade, qualquer tensão na ciência em relação àquilo que fica
fora dela, pois fora dela não há nenhuma coisa que a transcenda, o exterior da
ciência é impensável, irrepresentável, pela própria ciência. Nessa medida, não
se podem estabelecer limites éticos à ciência ou aparecerão sempre estranhos ao
universo dos seus métodos, operações e objectivos. A matemática não pode
conduzir à metafísica (nem tem necessidade disso) (…) A matemática nunca nos
revelará o ser interior das coisas, que lhe é heterogéneo, mas também não é
isso que ela pretende. Ao invés, a metafísica instituída pela própria natureza
da razão não é um resultado de uma escolha arbitrária nem de um crescimento do
progresso da experiência. O anseio da razão de chegar à plenitude, de ir até ao
ponto de contacto do espaço cheio da experiência com o espaço vazio do qual nada podemos saber, conduz-nos
aos limites e àquilo que os exorbita (as ideias transcendentais), e isso
implica-nos até à medula”[17].
Superação
de reducionismos, dizíamos[18].
Só atenta/considerada/levada em linha de conta esta voz interior é que se completa e complementa o entendimento do modo
como o gene altruísta foi
seleccionado – quer dizer, como a evolução
implicou os grupos mais coesos e solidários interiormente: se o egoísta, num duelo, poderia mostrar-se
mais adaptado e fazer sucumbir o altruísta,
não assim já quando saímos do exemplo académico e observamos o real e gregário
humano, que só em grupo se dá, e em grupo sobrevive -, mas, num gesto de
derradeira liberdade, o (ao grupo) supera ainda, na medida em que, pelo menos
em alguns que frequentam a humana condição, a inovação moral, a criação moral
ou, mais prosaicamente na maioria dos casos em que isto sucede, a recusa da
submissão grupal (seja nas piores das praxes, seja na renúncia a aceitar a
condenação de inocentes, etc.) foi, e é, uma realidade. A história é a melhor
aliada da rejeição da compreensão da consciência moral em termos puramente
sociológicos (a voz da consciência mais não seria, para certo entendimento, do
que as regras da sociedade; ora, Jesus
de Nazaré disse que o Sábado era para
o Homem e não o Homem para o Sábado; exortou os que nunca pecaram a
apedrejar a apanhada em adultério; condenou os vendilhões do templo; rompeu
com a família e, para os que nele vêem o Cristo de Deus, com a própria
morte – não menor rompimento cultural (Joaquim
Carreira das Neves, em “Deus existe? Uma viagem pelas religiões”). Podemos
estar a viver o século das reputações
e não o das consciências, mas há um
fundo incorruptível em nós – considerará a autora. A consciência moral, na pluralidade assim desenhada, poderá, até,
incluir um cálculo prudencial,
integrar o conhecimento das regras de grupo e o castigo pela subversão das
mesmas, sublinhando a importância da reputação, mas implicará ainda o
reconhecimento de uma voz interior,
liberdade mesmo que condicionada, responsabilidade, dignidade.
De
resto, numa obra que é ensejo também, como frisámos, para equacionar grandes
dilemas ético-filosóficos hoje presentes em nossas sociedades – natureza do cérebro, trans-humanismo vs Bio conservadorismo, livre-arbítrio
vs determinismo, promoção do pobre vs protecção
da sociedade, assistencialismo vs
autonomização da pessoa, etc. -,
sempre diríamos/acrescentaríamos, em tal contexto, que a natureza da referida voz interior é susceptível, depois, por
certo, de diversas interpretações/leituras da realidade (da mesma). Quando
Adela Cortina escreve que para se garantir a inexistência de perjúrio (outrora)
se remetia para Deus (a pessoa, e a ordem social, assentavam na garantia da não
violação dos seus preceitos, nomeadamente os codificados sob o Decálogo; de um Deus que puniria
comportamentos desse jaez – nas Preces,
de Flannery O’Connor: Deus, tira-nos o Inferno, e nós
transformamos a Terra num Inferno, potencialmente em continuidade genética
com o Se Deus está morto, tudo é
permitido, atribuído a Dostoievsky,
presente em Os irmãos Karamazov,
mesmo que não em exacta paráfrase; e, todavia, José Tolentino de Mendonça sugere que o cristianismo está muito
para lá de uma fábrica de castigos e recompensas: “amar sem ser por nada”),e
agora ficamos apenas remetidos à consciência individual (de cada um), talvez
valha a pena matizar/problematizar. Desde logo, com o teólogo Andrés Torres Queiruga, em A
teologia, a partir de «o Deus que cria por amor», in Anselmo
Borges (org.), Deus ainda tem futuro?, pp .263,
na medida em que este assinala que o que “profeta descobre não é uma
realidade externa ou sobreposta, mas a única realidade humana (e
do mundo); a especificidade do seu contributo não é acrescentar-lhe um
suplemento «sobrenatural», mas vê-la na sua integridade e profundidade, ao
descobri-la fundada e animada pelo Deus que cria e salva”, “vê-a
não com um órgão estranho ou mediante um intervencionismo milagroso, mas com
uma razão humana que, criada e habitada também ela por Deus, consegue captar a
sua presença”, e precisada pelo teólogo Tomás Halík,
em termos como os que se seguem, em Diante de ti. Os meus caminhos, pp.19-23: “os místicos, nomeadamente o
meu amado Mestre Eckhart, afirmam uma coisa imensamente profunda e ao
mesmo tempo imensamente perigosa: Deus e eu somos um só. Sim, esta perspectiva pode ser perigosa. Quando Deus se funde com o nosso eu, de modo
a trocarmos Deus pelo nosso eu, perdemos a nossa alma. Ao separarmo-lo
estritamente de nós próprios e começarmos a ver Deus como algo completamente
exterior e separado da nossa alma, perdemos o Deus vivo, substituindo-o por um
fetiche, puro objecto, uma «coisa entre as coisas». É tarefa constante da teologia mostrar esta
inoculação dinâmica da imanência e da transcendência. Talvez possamos dizer sobre a fusão do nosso
eu com Deus aquilo que disse o Concílio de Calcedónia sobre a relação da
humanidade e divindade em Cristo: são inseparáveis e, mesmo assim, não estão
misturadas. Se levo a sério
o segredo da Encarnação, coração da fé cristã, se o entendo não só como um
acontecimento acidental do passado, mas, sim, como a chave para a compreensão
de todo o drama da história da salvação, história da relação entre Deus e os
homens, então, na verdade, não
posso pensar a humanidade e a divindade em separado. Ao dizer «eu», digo o
homem sem Deus não é inteiro”.
Este
situar do problema da consciência moral recorrendo, prima facie, à natura
permite ajudar a explicar ou compreender, como vimos de dizer, tendências que
no indivíduo existem que podem contribuir para práticas egoístas da sua parte
(e, nestas, as de seguir, senão bajular, os melhor situados, e desprezar os que
se encontram em pior situação) e, nesta medida, evitar uma abordagem
estritamente de tipo moralista; mas,
ainda assim, a ensaísta, ao convocar a voz
interior ao problema, implica-nos numa liberdade (recusa do determinismo), mesmo que condicionada,
e, portanto, não deixa de responsabilizar o sujeito (no que significa,
igualmente, respeitar, mesmo que com algumas palavras de censura, ou, in limine, uma punição penal, a sua
dignidade). Mas a complexidade do problema remete, outrossim, e ainda, para uma
dimensão social (complexo biológico-pessoal-social): é que se o cérebro é bio-social, a parte que na consciência
moral há de gene altruísta obediente
ao grupo, devia levar-nos a conceber como norma do grupo a rejeição da estupidez
e do vício, sendo que maltratar os débeis costuma combinar ambas as
características. Esta dimensão social (societária), no que à Educação diz
respeito, implicaria, seja na apropriação familiar (privada) da mesma, seja no
que à acepção, nesta, de Instrução
importa, de criar uma ecologia favorável a reforçar os mecanismos de empatia,
respeito pela igual dignidade das pessoas.
Temos
que contar com o que os estudos sobre o cérebro nos dizem acerca do
funcionamento deste para ajudar a explicar os comportamentos; mas notamos como
há uma ambiguidade e complexidade no humano que faz com que mesmo com as
tecnologias mais avançadas olhemos para o cérebro e não possamos saber
exactamente o que vai resultar em comportamento da pessoa ao longo de anos
(apesar dos Relatórios Minoritários,
de Philip K.Dick ou de Steven Spielberg, que lemos, ou que
vemos no cinema, respectivamente). Ah (!), há uma voz que escapa à captura, e é
por isso que nem juntando todos os Frankenstein,
agora em versão benevolente, pensando que, para a moral, vale a engenharia
genética, a intervenção biomédica, se obterão resultados pretendidos. Não
podemos poupar-nos ao esforço, à paciência, à dedicação, ao empenho de procurar
formar, da melhor maneira, o carácter daqueles que nos são acometidos (não há o
comprimido para tornar alguém boa pessoa
e, com erros pelo meio, vamos ter que continuar a formular estratégias sem
recurso a intervenções biomédicas para o alcançar). E dizer isto é um outro
modo, igualmente, de percebermos como muito dificilmente em moral poderemos
falar, sem extrema prudência, de progresso (um substantivo a guardar,
sobretudo, para a técnica). Essas intervenções poderão acrescentar cognição?
Pois um dos problemas do nosso tempo não é mesmo a inteligência separar-se da
consciência? (Yuval Harari)
Talvez
se possa dizer que, em um livro em que o desafio de responder aos grandes
dilemas da actualidade se coloca com intensa acuidade, e conhecida, no Velho Continente, na lição de Adriano Moreira, em A circunstância do estado exíguo, a tripla cidadania que nos incumbe – nacional, europeia e mundial –
falta Europa (sua encruzilhada institucional, os problemas de paz e guerra que
germina, na dimensão política potencialmente lacunar – no caso dos debates
públicos em Portugal, nos anos mais recentes, vários dos mais relevantes
contributos versaram esta matéria, de Portugal
na queda da Europa, de Viriato
Soromenho-Marques a João Ferreira do
Amaral, em Porque devemos sair do
euro?. passando por Vítor Bento,
Euro forte, euro fraco ou José Medeiros Ferreira, Não há mapa cor-de-rosa. A história (mal)
dita da integração europeia). Sobre esta, um recente ensaio controverso – e
com uma postura bem diferente da de Adela Cortina, sobre a vinda de
estrangeiros para a Europa; e identifico-me com a visão da autora; se bem que
nas propostas finais, relativamente à questão da imigração, haja claros pontos
de convergência entre Cortina e Murray -, da autoria de Douglas Murray, A estranha
morte da Europa, o autor afirma que a) a narrativa que moldou o continente
europeu foi o cristianismo; b) hoje, a fé é muito débil na Europa; c) não se
inventa ou constrói um sistema alternativo ao cristianismo em poucos anos, nem,
tão pouco, haveria garantia alguma de que, caso fosse logrado, seria melhor
para o humano (do que é a mundividência cristã); d) logo, este sistema de
crenças devia ser apoiado mesmo por quem não comunga os seus pressupostos,
digamos, metafísicos do mesmo.
Um
dos axiomas, creio que assim o poderemos dizer, de Aporofobia é a defesa da dignidade da pessoa. Como reconhece Jurgen Habermas, em Um ensaio sobre a Constituição europeia,
fazendo a genealogia do conceito, este, no que concerne ao respeito não só, ou
não já (apenas) à espécie humana, mas a cada membro concreto da mesma, deve
muito à tradição judaico-cristã (e aos debates trinitários). Segundo George
Steiner, a dignidade da pessoa é,
aliás, um “preconceito religioso”. E Peter
Singer fala, em Ética Prática, de
especismo.
Se
se perde a crença de suporte de um carácter
sagrado (criado à imagem e semelhança
de Deus) de que se reveste o humano, por muito que o queiramos preservar,
consegui-lo-emos? (e, por outro lado, evidentemente, não se pode obrigar
ninguém a acreditar em tal alicerce). O respeito pela dignidade da pessoa será,
já, hoje, e virá a ser no futuro uma verdade
evidente, óbvia, um axioma?
E,
mesmo que concordemos em falar em dignidade, terá ela o mesmo conteúdo
observada da Europa (ou do que se chamou Ocidente), ou em outro continente?
Poderemos saber os valores que deveríamos ter, se não tivéssemos aqueles que
temos? Não estamos imersos em um lebenswelt
(pré-reflexivo), óculos que nos marcam e condicionam? Não é a razão permeada
culturalmente? Não é a nossa defesa da universalidade uma
perspectiva…particular? Escreve David
Bentley-Hart, em Ilusões
dos Ateus. A revolução cristã e os seus críticos da moda, p.256:
“Sendo
nós pessoas modernas de inclinação secularista, que acreditam que as raízes da
sua solicitude pela igualdade humana não chegam a um nível mais profundo do
terreno da história do que a assim chamada Idade do Iluminismo, tendemos com
frequência a imaginar que os nossos valores nada mais são do que impulsos
racionais de qualquer consciência sã livre de preconceitos. Mas isso é absurdo.
Não existe algo como uma moralidade «iluminada», se por tal se quiser dizer uma
ética escrita no tecido da nossa natureza, que qualquer pessoa pode descobrir
simplesmente pela luz da razão desinteressada. Há, antes, tradições morais,
modeladas por eventos, ideias, inspirações e experiências; e nenhuma moralidade
está privada das contingências de histórias culturais particulares. Seja o que
for que julguemos querer dizer por «igualdade» humana, só somos capazes de
presumir o peso moral de uma tal noção porque, a um nível muito mais profundo
dos estratos históricos da nossa comum consciência ocidental, retemos a memória
de um momento inesperado de despertar espiritual, uma resposta encantada e
maravilhada a um único evento histórico: a proclamação da Páscoa”.
Pedro
Miranda
[1]
Apud. Ibidem.
[3]
“Altruísmo
define-se como o acto de fazer bem ao próximo, mesmo que isso implique um risco
ou um custo para nós próprios. Somos intuitivamente egoístas, mas capazes de
cooperar após reflexão deliberada, ou somos intuitivamente cooperantes, mas
egoístas após deliberarmos? É a eterna questão que opõe o filósofo inglês do
séc.XVII, Thomas Hobbes, ao suiço, do século XVIII, Jean-Jacques Rousseau. Para
tirar isso a limpo, investigadores da Universidade de Harvard, nos Estados
Unidos, puseram mais de mil pessoas a jogar, umas online, outras em
laboratórios. A situação era a seguinte: está a jogar com outras três pessoas
que não conhece (e que pode nunca vir a conhecer), e cada um tem uma quantia em
dinheiro, para começar. É convidado a contribuir com uma quantia em dinheiro,
para um bolo comum, que será depois duplicado e distribuído por cada
participante. Numa primeira análise, concluiu-se que as pessoas que demoravam
menos de dez segundos a decidir quanto davam desembolsavam cerca de 15% mais do
que as que tardavam mais a fazer contas à vida. Num segundo estudo, metade dos
voluntários foi obrigado a demorar mais de dez segundos para tomar uma decisão,
enquanto a outra metade teve de jogar em menos de dez segundos. Novamente os
pensadores se revelaram mais sovinas. Ou seja, o primeiro impulso é cooperar,
em vez de competir. Resultados semelhantes foram detectados em crianças
pequenas, e até os primatas não humanos mostram sinais de altruísmo. Porque
isso é vantajoso. Darwin, que lhe chamava benevolência, escreveu que é
"uma parte essencial dos instintos sociais". Trabalhos de
neurocientistas mostram que quando agimos de forma altruísta, o nosso cérebro é
activado nas regiões responsáveis pelo prazer e pela recompensa, tal como
acontece quando comemos chocolate. Num estudo, publicado em 2012 na publicação
científica Nature Neuroscience, feito em macacos, relata-se que
sucedeu isso mesmo: foram acionados circuitos cerebrais de recompensa depois de
terem dado alguma coisa a outro macaco. Sublinhe-se: depois de terem oferecido,
não de terem recebido. A experiência consistiu em pôr macacos a decidir se
davam um pedaço de sumo de fruta a outro macaco. Em primeiro lugar, os animais
ficavam com o sumo para eles próprios. Mas se tinham a hipótese de recompensar
um membro do grupo, mesmo sem que isso lhes trouxesse qualquer benefício, a
opção era favorecer o outro. Ou seja, os macacos escolhem fazer o bem, mesmo
sem levar nada em troca. Neste trabalho, feito por um cientista do Instituto
para as Ciências do Cérebro da Universidade de
Duke, Michael Platt, também se concluiu que os macacos preferiam premiar um
animal que conheciam, em detrimento de um desconhecido, e ainda que eram mais
benevolentes relativamente a um animal com um estatuto social inferior (em
consonância, um estudo australiano concluiu que os moradores de bairros
desfavorecidos são mais altruístas do que os que vivem em bairros pobres). E
ainda que não havia interesse em oferecer um sumo de fruta a um objecto. Esta
recompensa, sentida em partes específicas do cérebro, num processo de empatia,
pode ter sido favorecido durante a evolução nos primatas, de forma a permitir
comportamentos altruístas. "Pode ter evoluído originalmente de forma a
promover que cada um tratasse bem os elementos da sua família, uma vez que
partilham os mesmos genes, e mais tarde estendeu-se aos amigos, de forma a
gerar benefícios recíprocos", diz Michael Platt, citado num artigo
publicado na revista Psychology Today. Neste estudo, os cientistas,
que ligaram elétrodos ao cérebro dos macacos, enquanto estes tomavam as suas
decisões de dar ou não dar, identificaram o córtex cingulado como a região onde
se origina a empatia. De facto, o altruísmo parece estar "implantado
no cérebro", concluem os cientistas do Laboratório de Neuroimagem e
Neuromodelação da Universidade da Califórnia, em Los Angeles (...) É habitual
dizer-se que os mauzões, os rufias, têm mais sorte com as mulheres. Ou, por
outro lado, que elas devem maltratar os pretendentes, se os querem manter por
perto. Nada mais errado. Estudos recentes mostram
que o altruísmo pode ser um factor determinante
no momento da escolha de um
parceiro. Num estudo publicado na revista British Journal
of Psychology, conclui-se que a generosidade está directamente
relacionada com o sucesso na actividade sexual (...) O que levará uma pessoa a
doar um órgão a um perfeito estranho? A resposta pode estar na amígdala - um
grupo de neurónios, agrupados em esfera, que regula os comportamentos sexuais e
a agressividade. Pessoas classificadas como superaltruístas tem a amígdala 8%
maior do que a média...” (Sara Sá, Visão nº1238, 24/11
a 30/11 de 2016. pp.70-74)
[4]
Rob Riemen, O regresso da princesa Europa,
Bizâncio, 2016, pp.63-70: 'Atrevo-me a sugerir que as grandes questões da vida, questões acerca da
tragédia, do sofrimento, da verdadeira felicidade e do significado das nossas
vidas, nunca serão resolvidas pela ciência nem pela tecnologia. Wittgenstein tem razão: a ciência e o
mistério da vida são dois mundos diferentes. Claro que a ciência e a tecnologia
são impressionantes, frutos de grande coragem intelectual e em muitos
aspectos uma benção para a humanidade. Sem a ciência médica eu, que agora sou
um velho, não estaria aqui sentado. Mas é preciso compreender que o pensamento
científico nos trouxe também uma caixa de Pandora. E não, não estou me refiro à
destruição que a tecnologia também pode causar. Não estou a falar da
tecnologia. Refiro-me a algo mais fundamental, algo que penetra muito mais
fundo as nossas vidas, no nosso mundo, sem que nos demos conta disso (...)A ciência privou-nos da verdade (...) Riem-se, e entendo isso, entendo muito bem.
Parece loucura. A ciência,
a ciência que quer pura e simplesmente permitir-nos conhecer a verdade, para a
qual nada pode existir além da verdade, como poderia privar-nos da verdade?!
Porém é o que sucede. Era isso que Wittgenstein queria que
compreendêssemos, mas infelizmente só algumas pessoas compreenderam. Escutaram
uma palestra, e não desejo fazer outra palestra, e porém, Verzeihung
bitte, es ist wichtig [Atenção, por favor, isto é importante], isto é
mesmo muito importante. A verdade
científica nunca é mais que a realidade, os factos, o que podemos observar,
tocar e calcular. É a
razão, o racional, mas a razão [positivista] jamais pode determinar o valor,
não tem significado. A
razão [positivista] pode descrever, pode informar-nos acerca dos factos, mas
não pode dizer-nos qual é o significado moral desses factos, porque não sabe o
que é o bem ou o que é o mal. A ciência, e é este o seu maior dom, permite-nos conhecer a natureza,
mas não o espírito. A ciência tem de trabalhar com teorias e definições,
mas o espírito humano não pode ser aprisionado em teorias e definições, e
tampouco a nossa ordem moral, o reconhecimento do que é, ou não, uma sociedade
justa. Esse conhecimento
pertence a uma verdade diferente, uma verdade que a ciência não pode conhecer
porque é uma verdade metafísica. Talvez por inveja, motivada pelo
facto de haver outra verdade superior, a ciência tenha tentado privar-nos da
verdade, fazer-nos esquecê-la, fazer-nos acreditar que tudo o que existe é
científico, de contrário não será importante. Uma mentira, senhoras e senhores.
Uma grande e perigosa mentira! Uma mentira em que infelizmente todos passámos a
acreditar e à qual nos submetemos. Para nós só os factos contam; apaixonámo-nos
por dados e informação, e como já não podemos conhecer o verdadeiro
significado, o único valor que ainda reconhecemos é o valor económico: Quanto
podemos cobrar? Quanto renderá? De modo que tudo tem de ser útil, instrumental,
'temos de conseguir ganhar alguma coisa com isto', porque de contrário de nada
nos serve. A ciência tornou-se uma ideologia, uma ideia, uma ilusão, na qual
estamos enredados. Enredados porque no nosso mundo só as coisas materiais
existem, tudo se transformou em dinheiro, tudo é calculável e redutível a um
número. Compreendem? Compreendem as consequências, o terrível resultado do
facto de com o desaparecimento da realidade metafísica perderemos todas as
qualidades, a qualidade de vida, porque a qualidade é a expressão de um valor
espiritual, um valor que já não reconhecemos, já não desejamos reconhecer? O
mundo, o futuro, como acabam de nos dizer, torna-se 'exponencial'. Os
desenvolvimentos tecnológicos, a informação, aumentarão exponencialmente e
transformarão o mundo. Sem dúvida. Mas sabem o que aumentará
ex-po-nen-ci-al-men-te? A estupidez! A ciência oferece-nos conhecimento, mas
nem o mais ténue auto-conhecimento. Pascal, que, não esqueçam, era
matemático, estava certo: Le coeur a ses raisons que la raison ne
connaît point. O coração tem razões que a razão desconhece. O novo conhecimento, com o
auxílio do conhecimento científico, tudo quer tornar sagaz. Mas já ninguém procura a sabedoria e a ciência
jamais a encontrará. Todo o ensino superior tem de ser científico, o que
significa, cheio de teorias, definições e demonstrações. Porém, a literatura, a
história, a filosofia e a teologia, não conhecem teorias, definições ou
demonstrações. Contam histórias, histórias acerca do que é ser-se humano,
acerca das limitações humanas e de quem nós, como pessoas, deveríamos ser. A
verdade não é científica, porque a verdade que oferecem é metafísica, e isso
foi-nos retirado e já nem se ensina. Quem ensina hoje a ler a vida? Tudo isto
nos tornou cegos ao que é verdadeiramente importante na vida e ao que a torna
digna de ser vivida. O que é que consideramos ainda importante? A utilidade, em
especial a utilidade económica. O nosso ideal de conhecimento, o mundo da
cultura, a nossa vida social - a tudo e todos se mede por esta bitola
económica. Os economistas tornaram-se por isso os novos sumo-sacerdotes da
nossa época, que numa linguagem oracular de teorias e números declaram o que
tem, ou não tem, utilidade económica, o que se deve, ou não deve, permitir que
exista. Porque a qualidade de vida não se pode provar económica nem
cientificamente, a economia só reconhece a quantidade; tudo é um
número, de modo que economia tem de crescer sempre, porque um número maior é
melhor do que um número menor, quaisquer que sejam as consequências sociais.
Tudo o que conta é o dinheiro. (...)
A ciência como ideologia tornou-nos não somente estúpidos, mas também mudos. Já
não fazemos ideia alguma do significado das palavras e tornámo-nos incapazes de
manter uma conversa a sério. O que resta é a tagarelice.
[5]
A.M.PIRES CABRAL, O cónego, Cotovia, Lisboa, 2007, 10:
“Nesse tempo os meus pecados não iriam além de alguma pequena maroteira venial
pela qual ‘o Jesus’ tivesse ficado zangado comigo e me ralhasse pela voz
enorme da trovoada” [fala do narrador e personagem da narrativa, padre
Salviano Taveira, que o autor concebe como tendo nascido, em Covelas, aldeia
transmontana, da Diocese de Bragança-Miranda, no ano de 1923].
[6]
Charles TAYLOR, A era secular, 44.
[7]
Cf. António DAMÁSIO, O erro de Descartes, Companhia das
Letras, São Paulo, 2006.
[8]
Miguel REAL, Nova Teoria do mal, Dom Quixote, Lisboa,
2012, 31 e ss.
[10]
Anselmo BORGES, Deus e o sentido…, 46-48.
[11]
Miguel BRANCO, Neurociência e espiritualidade, in
Anselmo BORGES (coord.), Deus ainda…,
77.
[16]
Maria MOLDER, As nuvens e o vaso sagrado, Relógio
D’água, Lisboa, 2014, 123.
[18]M.R.Bennett e P.M.S. Hacker, Fundamentos
filosóficos da neurociência, Instituto Piaget, 2005, pp.78-80:"Primeiro, não é a
mente que pensa e raciocina, quer coisas e tem finalidades, forma intenções e
toma decisões, actua voluntariamente ou intencionalmente. É o ser humano. De facto,
caracterizamos uma pessoa como tendo uma mente límpida, rigorosa ou decisiva. (...) Se
queremos compreender como é que uma
pessoa normal raciocinou da forma que o fez, pensou o que pensou, tem os objectivos e propósitos que tem, e porque decidiu o que decidiu, formou tais e tais
intenções e planos, e agiu intencionalmente, não há nenhuma justificação
neurocientífica que nos esclareça o que queremos ver esclarecido (...) E se a nossa explicação tornar inteligível o
seu raciocínio, não é preciso acrescentar mais nenhuma informação sobre os
eventos neurais do cérebro. O máximo que uma explicação neural conseguiria
fazer seria explicar o modo como era possível à pessoa
raciocinar convincentemente (ou seja, que formações neurais têm de estar no seu
devido lugar para dotar um ser humano com tais e tais capacidades intelectuais
e volitivas), mas ela não consegue relatar o próprio raciocínio, quanto mais
explicar a sua força.(...) Se A
matou B, podemos querer saber a razão. Podem dar-nos uma razão, mas mesmo assim
podemos continuar insatisfeitos, querendo compreender melhor - mas o «melhor»
que queremos compreender é muito provavelmente o motivo de A, e não os eventos
neurais ocorridos na altura do assassínio. Queremos saber se ele matou B por vingança ou ciúmes, por exemplo, e isso
exige uma narrativa muito diferente de tudo o que a investigação
neurocientífica conseguiria produzir. A explicação da acção por redescrição, por citação de razões de actuação,
ou pela especificação dos motivos do agente (e há outras formas de explicação
de tipos relacionados com estes) não são substituíveis, mesmo em princípio, por
explicações em termos de eventos neurais no cérebro. Este assunto não é empírico, mas lógico ou
conceptual. O tipo de explicação é categoricamente diferente, e as explicações
em termos de razões e motivos, objectivos e propósitos de actuação, não são
redutíveis a explicações de contracções musculares produzidas em consequência
de eventos neurais (...) Na medida em que a mente não é uma substância, de facto não é uma
entidade de tipo algum, não é logicamente possível à mente
funcionar como um agente causal que provoca mudanças no agir do cérebro. Não estamos a tratar aqui de uma descoberta
empírica, apenas de um esclarecimento conceptual. (...) Também é verdade que os desígnios perseguidos
por uma pessoa não são os desígnios do cérebro dessa pessoa. Mas não se segue
daqui que são os desígnios da mente dessa pessoa. São os desígnios da pessoa -
e devem ser compreendidos como factos sobre a vida humana, formas de vida
social, eventos antecedentes, circunstâncias actuais, crenças e valores de
actuação, e assim por diante, e não em termos de eventos e mecanismos neurais.
Mas, evidentemente, é verdade que, sem o funcionamento normal do cérebro, o ser
humano não teria, e não seria capaz de se dedicar aos tipos normais de
desígnios a que nos dedicamos".
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