
Para uma leitura de Aporofobia
– a rejeição do pobre. Um desafio para a democracia, de Adela Cortina
Adela Cortina é Professora Catedrática
de Ética e Filosofia Política, na Universidade de Valência, autora com vasta
obra publicada e multipremiada (em Espanha e fora do seu país natal, sendo de
destacar o Prémio Nacional de Ensaio,
em 2014, distinguindo a obra “Para que
serve realmente a ética?”. Já após a publicação de Aporofobia – a rejeição do pobre, foi galardoada com prémios
literários, na secção crítica e ensaio de Associações de Editores de Madrid,
António de Sancha 2018, e de Crítica Literária Valenciana).
1.Será que existe mesmo uma "aversão natural"
ao estrangeiro, ao diferente, ao outro? Em
realidade, face aquele que vem de longe, de outra cultura, de outros costumes e
hábitos, de outra etnia, de uma cor de pele diversa da que nos é mais comum
(observar no nosso dia-a-dia), que frequenta outros templos diferentes daqueles
de que nos abeiramos (quando, e se, o fazemos), mas que se dirige para as
nossas terras com vista a, durante 15 dias, instalar-se num hotel, frequentar
os nossos restaurantes, entrar nos nossos mercados, levar para o seu país de
origem o nosso artesanato, o que mais evidenciamos é uma hospitalidade no
trato, um entusiasmo no acolhimento, uma vontade de (lhe) agradar e ser
prestável, um desejo de que o visitante se sinta confortável, que esteja tão
bem como em sua casa. Há, aqui, bem o podemos afirmar, uma verdadeira xenofilia,
uma amizade para com o estrangeiro.
2.Depois, contudo, há os que vêem de longe, fugindo da
miséria, da fome, da guerra, da perseguição étnica ou religiosa, de catástrofes
naturais - e a esses, em muitos casos, na melhor das hipóteses, oferecemos-lhes
a selva de Calais, um gueto em alguma metrópole.
3.A questão não parece, pois, ser a do estrangeiro,
do diferente, do outro - ainda que, note-se,
diversos estudos apontem para uma tensão entre pessoas pertencentes a quadros
culturais dissemelhantes (Amartya Sen, em "Identidade e
Violência", assinala que os ambientes não homogéneos são os mais dados à
criatividade e inovação, têm uma energia que falta onde a diversidade rareia,
mas concede que se sente, em tais lugares também, uma tensão latente). Mas,
vejamos, neste contexto ainda, com redobrada atenção: uma coisa é um medo, um
receio, uma tensão entre pessoas oriundas de culturas diferentes. Outra, um
patamar (conflituoso) acima: uma aversão, um desprezo, um ódio ao outro por ser
quem é. Melhor: por se enquadrar num determinado colectivo em que o
encaixamos - neste caso, o refugiado,
o pobre. A questão parece, aqui, residir, pois, claramente, (não no
estrangeiro, mas) no tipo de estrangeiro de que falamos. Neste
caso, entre o estrangeiro turista, e o estrangeiro
refugiado há, quase sempre, uma diferença fundamental: o dinheiro
que cada um deles possui (e, para a nossa sociedade, abismal quanto,
aparentemente, ao que cada um "vale" - como que, desta sorte,
identificando, e não já distinguindo, essa mesma nossa sociedade, "preço"
(d)e "valor"). Enquanto esperamos vir a beneficiar da estadia
do estrangeiro turista, no nosso território, tendemos a imaginar nada receber,
a não ser aborrecimentos - quando não imaginamos mesmo pressão sobre os serviços públicos de que dispomos,
acréscimo de desemprego, terrorismo a caminho - com o refugiado
que chega à nossa beira. Quando, ademais, passamos a configurarmo-nos como, não
já economias de mercado mas verdadeiras "sociedades de
mercado" (para me referir à tipologia proposta por Michael Sandel,
em "O que o dinheiro não compra", a lógica mercantil, de lucro
aplicada a todas as realidades/esferas da vida, sem excepção, sejam a família,
a amizade ou outras que se julgava, e julga, dever estar a salvo de tal
contabilidade e de uma estrita racionalidade de tipo instrumental), a
recusa daquele que vemos como incapaz de nos fazer lucrar (alguma coisa)
impõe-se com especial força.
Na síntese de Adela Cortina,
"é impossível não comparar o acolhimento entusiástico e hospitaleiro
com que se recebem os estrangeiros que vêem como turistas, com a rejeição sem
misericórdia da onda de estrangeiros pobres. Fecha-se-lhes as portas,
levanta-se-lhes muralhas, impede-se que atravessem fronteiras" (p.13)
E, nestes anos recentes, estamos a viver a maior crise migratória desde a II
Guerra Mundial - para a Europa dirigem-se pessoas de lugares tão remotos como
os da Eritreia, o Sudão, a Somália, a Gâmbia ou o Bangladesh.
Ao longo de Aporofobia – a rejeição do pobre, a Eticista acrescenta outros
exemplos (ao modo diferenciado como nos posicionamos face ao outro/estrangeiro):
o cigano que vingou na música flamenca e é uma estrela internacional (pensemos
em Joaquim Cortés, na ascendência de
Paco de Lucía, em Diego el Cigala); o Abramovich que veio devolver a glória
aos blues do Chelsea, ou o senhor do Catar que tornou o PSG um
potencial vencedor da Champions (cujos rublos, ou petrodólares, respectivamente, quase ansiamos por
ver aplicados ao FCP para nos levar de novo à vitória na Liga dos
Campeões); os investidores da Volkswagen
(vide o peso da Autoeuropa no PIB português), da Mercedes ou
da Bosch que criam milhares de empregos, para mais bem
remunerados, no nosso país; os enfermeiros ou médicos espanhóis, no Reino
Unido, qualificados e bem preparados, acrescentando ao PIB britânico, todos
estes estrangeiros, por mais que a sua língua, tez, hábitos e tradições,
cultura divirjam da autóctone, da nossa
em particular, são bem-vindos. O problema, ou o inferno, são os outros
(estrangeiros - que não estes).
4.Como acabámos de observar, o problema não é com o
estrangeiro, o xenos, ele
mesmo - pelo que não será acertado, ou absolutamente rigoroso, quando este
é rejeitado, falar, necessariamente, de xenofobia
(ainda que ela exista, e de que maneira). O verdadeiro óbice é que o
estrangeiro seja pobre ("Áporobos: é o pobre, o apórobos,
o que aborrece, incluindo a própria família, porque [esta] vive o parente pobre
como uma vergonha (...) enquanto que é um prazer mostrar o parente triunfador,
bem situado no mundo académico, político, artístico ou no mundo dos negócios",
p.21): "é o pobre que aborrece, o sem recursos, o desamparado, aquele
que não pode acrescentar nada de positivo ao PIB do país a que chega (...)
aquele que, aparentemente, não trará mais do que complicações", p.14; “Fobéo”:
espantar-se; fobia: medo exagerado,
aversão).
Ora, para que o radical desta
realidade não fique submerso, escondido, escamoteado, impõe-se dar-lhe visibilidade;
e para que haja visibilidade é necessária a nomeação (dessa realidade). É uma tarefa
que a todos incumbirá, mas, talvez, de modo mais imediato, aos que praticam o
ofício das humanidades: o literato, o romancista, o contista, o
poeta, o filósofo, o filólogo. Um dos motivos pelos quais as humanidades
são essenciais à democracia, escreveu Martha C. Nussbaum em
"Sem fins de lucro. Porque é que a democracia precisa das humanidades?",
é que estas evitam, ou devem evitar, que haja invisíveis numa sociedade - pessoas,
condições pessoais, que não conhecemos ou às quais, se pudéssemos, porventura,
viraríamos o rosto, e que são socialmente ignoradas, que não nos são narradas
no interior da comunidade em que nos encontramos, em primeira instância,
vinculados. Pessoas, em rigor, bem entendido, não invisíveis, mas invisibilizadas
(p.126) (tornadas invisíveis pelo seu
não reconhecimento), as quais, portanto, precisam de ser resgatadas, reconhecidas. A Professora de Ética
e Filosofia Política na Universidade de Valência, Adela Cortina, ao conceber,
regressando ao seu dicionário de grego antigo, juntando intuições, avançando
periclitante em um vocábulo talvez inexistente noutras línguas, talvez
desajeitado mesmo no seu castelhano (natal), Aporofobia, a fobia/aversão
aos pobres, resgatou, para a denunciar e visando eliminá-la, a iniquidade que
vitima todos os que por serem pobres são humilhados, maltratados pelos
demais.
A necessidade genesíaca de nomeação - e se há realidades para as
quais podemos apontar com o dedo, como cadeiras ou
mesas, outras existem, como Democracia ou Estado
que aí não cabem: o filósofo Giovanni Sartori dizia-nos,
em "Homo Videns", que o homo sapiens evoluiu com o
recurso a conceitos abstractos, e que o actual homo videns recua
quando não consegue aceder a estes, e apenas vislumbra o que o dedo consegue
apontar - é, ainda, um tributo ao
labor de um saber e capacidade teoréticas, ou à complexificação de uma cisão
simplista entre o que é da teoria e o que é da prática. O achado
vocabular de Adela Cortina, Aporofobia, foi fundamental para criar
um delito criminal específico, por banda do Ministério
do Interior espanhol, com base no qual agentes, cidadãos que humilham
pobres, por causa dessa sua condição, são punidos; associações que lidam e
procuram ajudar os mais desfavorecidos, como a Caritas ou
a Cais, consideraram fundamental a nova palavra para darem a
conhecer aquela realidade que se encontrava negligenciada/silenciada; o mesmo
sucedendo com muitas outras organizações, com académicos, instituições
múltiplas que felicitaram Adela Cortina por lhes permitir aceder a uma categoria sobre
a qual haveria, agora, que educar. Em realidade, possuir(mos) um vocabulário de
cem palavras ou, um outro, de cinco mil permite(-nos) chegar a realidades, a
mundos bem diversos, possuir horizontes e uma possibilidade de (procurar)
compreender e perscrutar vidas e universos com instrumentos de alcance nada
idêntico.
Aporofobia é um termo cunhado, pela primeira vez, por Adela Cortina, como título de
uma crónica, para o jornal "ABC Cultural", em 1995, mas faria um
longo caminho de reiteração - em artigos seus de jornal ou em obras escolares (universitárias)
- até observar uma delimitada definição nas enciclopédias - incluindo a muito
frequentada wikipédia - como sinónimo de "rejeição,
aversão, temor e desprezo pelo pobre". Em 2017, foi a "palavra do
ano", em Espanha.
5.Se algumas (ou muitas) pessoas são, de facto, xenófobas ou racistas,
já, por outro lado, considera Adela Cortina, há um potencial universal de aporofobia: "todos
os seres humanos são aporófobos, e isto tem raízes cerebrais, mas
também sociais, que se podem e devem modificar, se tomarmos a sério pelo menos
essas duas chaves da nossa cultura que são o igual respeito pela dignidade das
pessoas e a compaixão, entendida como a capacidade de perceber o sofrimento de
outros e de comprometer-se a evitá-lo" (p.15). Sublinhe-se: "uma compaixão não sentimental, mas
produtiva" (Stefan Zweig); uma ética da razão cordial, igual dignidade que subverta a desumanização.
6.Quando os adeptos do PSV (de Eindhoven), em 2016, antes de um
jogo internacional com o Atlético, atiram moedas aos mendigos, numa
praça de Madrid, solicitando, obrigando-os a rastejar, muitas mulheres aparecem-nos
nas imagens, pelo chão, humilhadas, em busca da esmola. Não é que estas
mulheres, alguma delas, cada uma delas, tenha feito algo de mal aos adeptos, a
algum adepto, do PSV: é que esses tiffosi encarceraram-nas (mentalmente; sitiando-se,
acrescente-se, eles mesmos, nessa fixação) em uma dada categoria, categoria essa
que desprezam. Neste caso, vêem essas mulheres como "pobres". Mas a categoria podia ser
"homossexual", "islâmico", "cristão",
"negro", "mulher", "asiático", por exemplo.
Acontece que, para voltar a Amartya Sen, a nossa identidade é formada por múltiplas filiações - a pessoa, quase
sempre, estabelece vínculos com uma localidade, um país, possivelmente uma
religião, uma ideologia, talvez um partido político, está ligado a uma
profissão, um ofício, uma ciência, uma arte, dentro desta aprecia mais uma dada
corrente, um autor ou conjunto de autores, segue com especial atenção um dado
realizador, um núcleo de actores ou actrizes, tem clube desportivo, uma banda
favorita, um pintor ou uma escola de pintura, possui uma dada orientação
sexual, etc. Dizer, em exclusivo, acerca de alguém que é "pobre" - sendo,
de resto, e todavia, sublinhe-se com intensidade, que “pobre” não deve ser
visto como fazendo parte de uma identidade, desde logo e até por não ser uma
escolha do próprio -, ou "o homossexual", ou "o muçulmano"
como se a sua pessoa, a sua personalidade, identidade ou condição se esgotasse numa
única filiação ou característica - se bem que os constrangimentos causados pelo
factor pobreza possam ser de tal modo condicionadores que esse seja, de facto,
"o" factor determinante numa pessoa; mas o que pretende aqui
destacar-se é que a riqueza e complexidade que a pessoa é, mesmo que por
empatia e constatação nos foquemos na sua actual condição social (pobre;
condição essa, a actual, desejavelmente em superação), excede sempre uma
mono-descrição - é não se aproximar da complexidade que cada rosto concreto
constitui. Pior, quando o "rótulo" em que encaixamos o outro vem acompanhado de um acervo de
narrativas que ao longo de anos inoculámos, um conjunto de mitos ou
"lendas negras" que, a nossos olhos, o demonizam, ou o tornam (como
que) "sub-humano". Por exemplo, a ideia de que os pobres são, na
verdade, ricos encapotados que mais não visam do que roubar o nosso dinheiro;
"nosso" dos que não somos pobres - e nos vemos como "essencialmente"
diferentes daqueles. Falar não das pessoas concretas, mas de "o
pobre" revela - porque, como sabemos, o modo como falamos, a nossa
linguagem, as metáforas ou imagens a que recorremos são expressão do modo como
pensamos -, não raramente, que nos sentimos outros (com outro valor) face ao
"pobre", isto é, quem discursa face a este, desta forma, e, sobretudo
e muito particularmente, quem o humilha "está convencido de uma
desigualdade estrutural entre a vítima [dos seus insultos] e ele"
(p.38). Tais práticas, no entanto, degradam (é) quem as
realiza (p.25). A origem do ódio radica naquele que odeia e não no
odiado - "a fonte da qual surgem o ódio e o desprezo é o que [assenta
no que] odeia, não [n]o desprezado" (p.30) e a igualdade deve
ser construída desde a educação e desde a conformação das instituições
políticas e económicas.
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário