A História dos Descobrimentos, entre nós, ainda hoje é feita com o completo desconhecimento das línguas orientais. Há uma, duas ou três pessoas que têm realmente alguns conhecimentos linguísticos. De japonês, chinês, malaio, de sânscrito ou de línguas indianas, ou de árabe. A generalidade não tem. Quanto às línguas africanas, dirão que eles não tinham textos - não é bem verdade, mas a Ásia está cheia deles. Os persas estão cheios de textos sobre os portugueses, as partes da Índia, Bengala, etc., cheias de textos, os japoneses, chineses...Mas não são tidos em conta pela nossa historiografia. Mesmo os holandeses. Os holandeses escreveram imenso sobre os portugueses, no Oriente, mas a maior parte das pessoas, aqui, não sabe neerlandês. Isto é contar a história enviesadamente, porque é não ter em consideração os outros. Atenção, que os ingleses fazem o mesmo, os holandeses fazem o mesmo. Mas isso não é desculpa para nós.
António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, pp.66-67.
P.S.: A última década (e meia), no discurso público de diferentes historiadores e demais investigadores interessados na matéria histórica, tem coincidido com a necessidade de questionar um discurso exclusivamente eurocêntrico, necessitado de completar pelo ponto de vista do outro, nomeadamente acerca dos mesmos acontecimentos históricos, as trocas que fizemos, como nos viram e como se apropriaram e interpretaram idêntica factualidade. Muitas obras recentes têm buscado esse outro olhar. Por vezes, nem nos recordamos de - da falta de - elementos básicos, para conhecer o ponto de vista do outro, a sua estratégia, o que para si esteve exactamente em causa num determinado dia em nos cruzámos, como o caso do domínio da língua desses povos com quem estivemos. E, nem nos ocorrendo essa falha, não questionamos o domínio precário de uma leitura mais extensa do que se passou.
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