Isto já não é uma questão do impacto que Bolsonaro tem na direita portuguesa, mas mais Bolsonaro e Trump revelarem que há uma direita que em parte se julgava liberal, mas que tem traços muito mais autoritários do que propriamente liberais. O espaço da direita liberal está a ficar cada vez mais confinado. Não é tanto o impacto que estes fenómenos têm na direita, é mais a revelação de que uma parcela muito substancial da direita portuguesa é menos liberal do que se julgava - porque houve uma série de vozes, é importante que se diga, na direita portuguesa, que não eram propriamente só de apoio a Bolsonaro, mas também de compreensão ou justificação do fenómeno Bolsonaro. Isto revelou pessoas mais autoritárias; pessoas que a pretexto de compreenderem acabaram por apoiar; e outras pessoas que sentiram necessidade de se demarcar, que foi o caso de Assunção Cristas. Mas também se notou desconforto em pessoas ligadas ao centro direita português.
António Araújo, entrevistado por Maria João Lopes, Bolsonaro mostrou que a nossa direita é 'menos liberal do que se julgava', Público, 01-11-2018, p.6
P.S.: António Araújo é jurista e historiador. Foi assessor do Tribunal Constitucional. Foi assessor do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva. Dirigiu a colecção de ensaios da FFMS. Hoje, é assessor do Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Ensaísta, com obra publicada de investigação acerca da direita portuguesa. Enquanto blogger, assina o Malomil.
P.S.2: esta visão acerca da direita portuguesa não só é partilhada por outros observadores, que partem de um ponto de vista de direita liberal no nosso espectro político, como Nuno Garoupa, por exemplo, como, a julgar pela mais recente edição do Expresso, pelo actual Presidente da República que, a crer na descrição daquele semanário, trata o sector que considera mais radical à direita como "esta direita", que vê situada entre o passismo (e a que se juntou elementos do anterior PR que historicamente não seria dessa ala, como aqui já se assinalou) e várias das colunas do Observador (situando-a, em termos eleitorais, salvo erro, entre os 11 e os 15%).
O que, aliás, me tem feito repensar sobre o que há uns anos me parecia, claramente, o melhor: a questão do registo ideológico por parte de cada órgão de informação, nomeadamente no que à imprensa diz respeito (à semelhança do que sucede por essa Europa e mundo fora). É que se essa declarada filiação for também um livre-conduto para radicalizar e extremar de posicionamentos não sei até que ponto isso favorecerá a nossa democracia. A anterior "hipocrisia" tinha uma opção ideológica escondida ou subentendida num jornal, mas talvez o obrigasse a não carregar tanto as tintas e a fazer um esforço de racionalidade (sem a lógica amigos/inimigos, nós-eles). Não tenho, hoje, em suma, uma opinião definitiva, como já tive. E, no caso de alguns jornais, como o Público, creio que esse registo de interesses iria, se correspondesse à efectiva linha editorial que tem sido seguida ao longo dos anos, flutuar em função de quem lidera - ao nível da direcção - o jornal (de José Manuel Fernandes a Bárbara Reis convenhamos que vai o mundo; sorrio porque conheço diferentes pessoas que deixaram de comprar o Público durante os respectivos consolados, pertencendo a correntes ideológicas bem distintas. Pessoalmente, nunca deixei de ler o Público).
O que, aliás, me tem feito repensar sobre o que há uns anos me parecia, claramente, o melhor: a questão do registo ideológico por parte de cada órgão de informação, nomeadamente no que à imprensa diz respeito (à semelhança do que sucede por essa Europa e mundo fora). É que se essa declarada filiação for também um livre-conduto para radicalizar e extremar de posicionamentos não sei até que ponto isso favorecerá a nossa democracia. A anterior "hipocrisia" tinha uma opção ideológica escondida ou subentendida num jornal, mas talvez o obrigasse a não carregar tanto as tintas e a fazer um esforço de racionalidade (sem a lógica amigos/inimigos, nós-eles). Não tenho, hoje, em suma, uma opinião definitiva, como já tive. E, no caso de alguns jornais, como o Público, creio que esse registo de interesses iria, se correspondesse à efectiva linha editorial que tem sido seguida ao longo dos anos, flutuar em função de quem lidera - ao nível da direcção - o jornal (de José Manuel Fernandes a Bárbara Reis convenhamos que vai o mundo; sorrio porque conheço diferentes pessoas que deixaram de comprar o Público durante os respectivos consolados, pertencendo a correntes ideológicas bem distintas. Pessoalmente, nunca deixei de ler o Público).
Sem comentários:
Enviar um comentário