sábado, 10 de novembro de 2018

Eles andaram aí



A seguir ao vivo o Governo Sombra, no Teatro de Vila Real, sexta à noite. Ricardo Araújo Pereira fez as principais despesas de um programa que me entusiasmou, sobretudo, na frescura dos seus três/quatro anos iniciais - e foi esse tributo (tardio) que ontem fiz. Nenhum novidade, na sessão de há algumas horas, no argumentário sobre os temas da semana, os mesmos temas que em todos os demais programas de debate político nas televisões portuguesas, os mesmos termos do que tinha sido dito nos congéneres "sérios" da concorrência, nenhum ângulo diverso, nenhuma surpresa ou inquietação. E a mesma tendência para a "sensatez" fácil, para estar acima dos urbanos que desconhecem o país real - ui que moderação - nas touradas - que pelos vistos já quase não existem em lado nenhum, em Portugal; segundo se pôde ouvir também ontem à noite nos próximos meses não há uma tourada em lado algum -, mas, ao mesmo tempo, o reconhecimento do sofrimento do bicho na arena, que tal uma negociação (?), não era necessário extremar posições, como se fosse possível chegar-se a um consenso, entre defensores das touradas e anti-touradas. 
Manuel Alegre até pode "pensar pela própria cabeça", como disse Pedro Mexia, mas ter como grande motivo de levantamento nacional e de uma carta aberta ao PM, com direito a chamada de capa no Público, não nenhum problema relativo ao SNS, à Educação, à Segurança Social, à natalidade, à Justiça, aos Transportes mas às magnas questões da caça e das touradas, dizendo-se, pelo meio, que "cheira a totalitarismo", por acaso num país que tem pontuado bastante bem em termos democráticos, é não pensar, digamos, lá muito bem (e banalizar palavras como "totalitarismo", para com elas, daí a nada, ou não se querer, ou não se conseguir, dizer coisa alguma).
Gostei de ouvir RAP, aí sim, quebrar as convenções e dizer, em Trás-os-Montes, que um transmontano, como um alentejano ou algarvio são capazes de umas alhadas como os demais, por muito que gostemos imenso da pertença que nos é originária e nos marca absolutamente - para "povos eleitos", nos quais a virtude encarnou, já basta o que basta. A justa reclamação de um tratamento com equidade, a denúncia da inaceitável concentração da alocação dos recursos do país numa pequena faixa do território, ou tratamento como cidadãos de segunda dos que vivem fora dos centros de poder, perde para a fácil demagogia de considerar que há uns milhões de almas perfeitamente castas fora da capital e que Lisboa é a mãe da perdição e de todos os vícios (a deputada Emília Cerqueira ou não leu, ou leu bem demais, A queda de um anjo, do Camilo). 
A chamada de atenção para a escandalosa situação do caso da escola de Curral das Freiras, e do texto de Bárbara Reis sobre o assunto, igualmente pertinente.
Longe, ainda assim não posso deixar de reiterar e concluir, de tempos de maior inspiração e/ou profundidade de análise, e de grandes gargalhadas, suscitadas a escutar O governo sombra.

Sem comentários:

Enviar um comentário