quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Moldar os jovens


Está na internet um vídeo que fez para os seus alunos da Nova, espécie de apresentação em que valoriza o conhecimento enquanto estímulo da inquietação e impulso para a inovação, ou, se quiser, para a rutura. Enquanto professor, nos últimos anos, continuou a ver nos seus alunos essa predisposição para a rutura?

Tenho de ser sincero. Não. Aqui em Portugal. No Brasil, sim. No Brasil noto isso muito mais. Tenho dado cursos de História do Direito no Brasil e, aí, a curiosidade intelectual dos alunos das boas universidades é algo que não existe em Portugal. São inquietos, querem saber. Nomeadamente alunos de Direito, mas também de História. Conhecem as problemáticas teóricas subjacentes, numa certa medida, estão habituados a problematizar, a perguntar: "de que lado estás tu a falar? Qual é o teu ponto de vista estratégico sobre esse assunto?". No fundo, se é Direito, ignorar o aspecto técnico e ver que, por detrás daquilo, há ali uma opção teórica, ideológica, política. Isto encontra-se muito no Brasil. Aqui, devo dizer que cada vez menos. Os alunos são cada vez mais aquietados. Lá vai aparecendo um ou outro, sempre, mas cada vez são mais aquietados, mais esmagados. Digo isto em relação ao Direito, que também são alunos especiais. O aluno de Direito está a pensar na sua profissão, está a pensar num certo perfil de carreira. São pessoas que ficam angustiadas, às vezes, com a dúvida. (...) Portanto, voltando ao que me pergunta, não só noto isso menos como tive casos de alunos angustiados perante essa ideia de que o conhecimento não está fechado e acabado. (...) Não pode ser só o sistema de ensino [responsável por esta situação]. A sociedade de hoje é uma sociedade de conhecimento, de informação em que a informação está em todo o lado e as pessoas sofrem banhos de informação. Comparado com esse banho de informação, o ensino deve ser uma coisinha assim (...) É um banho de cultura em que nós estamos que deve ser responsável por isso, e talvez o conformismo da informação. A gente liga a televisão à noite e, para ouvir uma voz destoante, assim muito destoante, é preciso procurar um bom bocado. E isto é transversal às orientações políticas, porque você à esquerda e à direita encontra realmente senso comum por todo o lado. Cascatas de senso comum. Um tipo que fuja disto, sei lá...O Pacheco Pereira foge um bocado, diz coisas diferentes, para além de que é um tipo bem preparado e, portanto, as coisas diferentes que diz fazem bastante sentido. Ou, na economia, o Paes Mamede, não só um tipo muito sólido, muito chato para o outro que lá está, pois dá-lhe uns banhos desgraçados, mas diz coisas diferentes. Mas a generalidade não, a generalidade repete coisas do senso comum, mais para um lado ou mais para o outro. Eu acho que isso molda muito os jovens.

António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, pp.68.


P.S.: de entre os adolescentes atentos ao mundo que os rodeia, em se falando de um tema de actualidade e/ou que contenda com o mundo político, não raro aproximam-se para me revelarem, não sem a sua ponta de orgulho, que seguem a vida política e citam um comentador que disse isto, ou aquilo, sobre o facto em análise. O comentador é quase sempre o mesmo. Viram-no, e escutaram-no, atentamente, em família. Limito-me a registar. E assinalar, agora, aqui, da importância da escolha das televisões em sinal aberto de quem comenta. E vale a pena pensar se o comentador mais visto e ouvido será aquele que mais alarga horizontes, que mais é capaz de problematizar, de mostrar os mais diversos pontos de vista acerca da questão - ainda que sem abdicar de se posicionar sobre estes. Que não é isso que importa, dir-me-ão, as audiências, não sei eu. 
Ou se não é mais do que um banal administrador deste "senso comum", sem profundidade ou densidade, ficando pela rama, apenas com inside information, mais nada, procurando contentar as partes todas, a caminho dos 50% mais um necessários para, em o partido assim o deixe, chegar à Presidência. Suponho que o Joaquim (e, porque não, a família) não se aperceba(m) que não estamos perante um comentador, mas mais um player entre tantos, e que não saiba que não lhe chega nunca tanto do que, sobre os mesmos problemas é questionado em outros lados. Nunca me chegou alguém a correr e a vangloriar-se de ter ouvido outros comentadores. Há os comentadores, ou o comentador certo - mesmo assim, uma cópia -, e há os outros (que não existem; bem, talvez vá existir a Moura Guedes, que entretanto já diz que o povo não quer saber da liberdade de expressão com que se preocupam as elites. Vamos longe).

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