quinta-feira, 1 de novembro de 2018

O elogio de Rui Rio


Independentemente de concordar com eles ou não, acho que os políticos estão todos a capitular perante o imediatismo. A agenda mediática é tão rápida, é tudo tão imediatamente urgente que um recuo para questões mais fundamentais, estruturais, está-se a perder. Surge uma questão, às vezes completamente artificial,e há logo a tendência de todos os políticos, do governo e da oposição, irem atrás dela e fazerem daquilo um problema candente. (...) E porque [os jornalistas] lhes dão prazo: "Diga lá, mas não disse, de manhã já foi ouvido e ainda não disse nada". De modo que uma certa flexibilidade que a política tem de ter, justamente para captar todos os pontos de vista, está-se a perder, e dá a ideia de um grande populismo. Há uns que jogam mais nessa tecla do que outros. Para lhe dar um exemplo. Um político que não é da minha cor, digamos assim, mas que está a reagir um pouco contra isso, está-se a lixar. É o Rui Rio. Independentemente da bondade das soluções que propõe, diz que não - "isto tem o seu tempo, agora não, agora tem de esperar, só daqui a 15 dias é que falo" - e foge um pouco da conversa engatilhada de corresponder ao imediato e à urgência. Está-se a lixar, e todos o estão a lixar, os de fora e os de dentro. E ele vai cair, não tenho dúvida nenhuma de que não vai resistir

António Manuel Hespanha, entrevistado por Pedro Olavo Simões, para a revista História. Jornal de Notícias, nº16, Outubro de 2018, p.64.


P.S.: subscrevo a ideia de que a capacidade "editorial", a capacidade do distinguo, de não se pronunciar sobre tudo e mais alguma coisa, de tentar hierarquizar o que tem mais importância daquilo que é secundário, de evitar o fogo fátuo, tem sido o melhor de Rui Rio, e, de facto, completamente contra-corrente e contra a actual cultura (de tal maneira que há muito, os jornalistas têm perdido essa tal capacidade de "edição"). Do ponto de vista ideológico, por sua vez, Rio alterna entre propostas a que não regressa - como no caso das que efectuou sobre a natalidade, aparentemente sem calcular devidamente quanta despesa tal medida representava -, não se percebendo bem se as deixa, ou não, cair; entre propostas com preocupação social, como aquelas que têm que ver, por exemplo, com a residência dos estudantes do ensino superior; com ideias de matriz mais liberal, como a propugnada para a área da Saúde. Sem esquecer que a escolha de protagonistas também dá um sinal de preparação (ou falta dela) e o mesmo se passa relativamente ao que cada um deles sinaliza do ponto de vista das escolhas ideológicas. 

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