sábado, 3 de novembro de 2018

O que está em jogo - uma síntese perfeita


A grande guerra da direita

Na hora da festa, a vitória de Bolsonaro deu-nos uma ideia bem mais nítida sobre o ponto em que está a nossa direita. Já era claro, por exemplo, que tinha nascido por cá uma nova facção. Aquela que se move pela vingança de 2015, do golpe parlamentar que juntou as esquerdas para tirar Passos do poder. Que se alimenta com a raiva de um certo cinismo de António Costa, mas também da sorte dele por ter governado numa boa conjuntura (...) A verdade é que essa direita hoje não tem partido – o PSD de Rui Rio, estatista, é a antítese daquilo que ela defende. (...) E é também verdade que essa nova direita não tem programa. Porque o seu programa era o de Passos, que começou a perder-se ainda em 2010, com um projeto de revisão constitucional que não sobreviveu às primeiras notícias de uma tentativa de liberalizar o despedimento. Esse programa, depois, ruiu a meio da troika, quando Paulo Portas reduziu a reforma do Estado a um Powerpoint. E quando a esquerda levou a luta política para o patamar constitucional, travando a ideia de flexibilização do Estado para a qual a direita nunca conseguiu apoio popular. (...) epois do fim do resgate sobrou pouco, a Passos e à direita liberal. Quando chegou às legislativas de 2015, restava a ideia de que o país iria sair do aperto, mas devagarinho para enganar o diabo. A mensagem chegou para lhe dar uma curta vitória, mas não para lhe garantir uma maioria de Governo. Hoje, três anos depois, já nem isso vale para uma campanha. Porque Costa e Centeno reduziram o défice quase a zero e tiraram à direita o argumento de só ela sabia endireitar as contas. Assim sendo, o que é que sobra a esta nova direita? Olhando para a festa que fez com a eleição de Bolsonaro, ou com a defesa tímida que vai fazendo de Trump e de outras novas novas direitas na Europa, sobra-lhe em entusiasmo o que lhe falta em ideias para copiar. Porque o caminho não pode ser o protecionismo económico (Portugal é pequeno e não vive sozinho); também não será o do afastamento dos imigrantes (poucos são os que aqui querem viver); nem será o do combate com armas à violência, porque ela não se sente nas ruas; ou sequer o retorno à proibição do aborto ou à negação dos direitos das minorias sexuais (porque já nem o CDS tem aí refúgio eleitoral significativo). (...) Mas sobra-lhe, a essa direita, uma data no calendário: a do julgamento de José Sócrates. Qualquer que seja o resultado, dará margem para um discurso que já foi testado à distância com esta eleição brasileira: ou é o PS que é corrupto (se Sócrates for dado como culpado); ou é o sistema que está corrompido (por não ter culpado Sócrates). O argumento pode repetir-se para Ricardo Salgado, porque para esta direita um e outro são (apenas) a face e contra face da mesma moeda. Sim, esta nova direita quer correr a pista justiceira, antecipando na política um julgamento que ainda não se concluiu na justiça. Porque é o que lhe resta – e o que lhe resta cola bem com o seu ressentimento: o combate à corrupção, o discurso da elite cartelizada, do país amarrado. Dirá que é preciso menos Estado porque o Estado é corrupto. No Brasil foi Lula e a Petrobras, por cá foram Sócrates e o BES (como se a direita não tivesse tido os seus tristes pecados). Isto pode não ser um programa eleitoral, mas é bandeira para uma campanha. Como se viu no Brasil, elas fazem-se cada vez menos com programas ideológicos, cada vez mais de discursos identitários, aqueles que unem muita gente diferente, afastando todos os outros. São políticos que promovem a divisão, que detestam o politicamente correto. (...) Repare como tudo isto desequilibra o regime: enquanto à esquerda Costa integrou o PCP e Bloco, neutralizando parte do seu discurso populista (o Luís explica bem aqui), a direita divide-se entre o eixo da tolerância e o da rutura. Hoje, a que mais se faz ouvir é esta: a que largou o valor do diálogo e rasgou o seu compromisso com o consenso, a que detesta a esquerda e a direita que contemporiza com ela. Ouvirão isto muitas vezes: quem não é inimigo deles é seu inimigo – um “colaboracionista”. Como dizia esta semana o Nuno Garoupa, em Portugal “há hoje uma direita Bolsonaro e há uma direita não-Bolsonaro. Sendo que a primeira se caracteriza por um programa simples: ódio à esquerda, ódio a quem discorda, insultos permanentes, desprezo pelo ‘agree to disagree’, superioridade moral”. Haja ânimo para a direita moderada, porque também lhe sobram alguns exemplos, mesmo aqui ao lado: em Espanha, o Ciudadanos ganhou um papel central na política e no futuro da governação; em França, Macron refez o centro e redundou o sistema e reabilitou o liberalismo. Nos dois casos, é verdade, foram movimentos que nasceram do zero. Talvez seja a hora de os moderados pensarem nisso por cá também.

David Dinis, Eco, 02-11-2018

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