domingo, 18 de novembro de 2018

Passar o testemunho


A viagem para o Monte da Forca não durou uma hora, em passo de caracol. Há agora um viaduto que levou uns 5 minutos a atravessar até nos colocar em Parada de Cunhos. Não foi preciso fintar aulas, pedir autorização para um furo a meio da tarde. Holofotes gigantes, para dar na tv, a magia que só então se detectava pela rádio (a taça era quarta-feira vespertina, e até os transístores se levavam para as aulas, antes da facilidade tecnológica dos smartphones). E, mau grado, o actual "grande ambiente", não obstante o "estádio cheio", a "expectativa da cidade" mal o sorteio foi conhecido, as reportagens nos jornais, a presença das televisões, o direto das rádios, não houve, neste caso, a "faca nos dentes", a corrente mais sanguínea, o bairrismo, o conhecimento, profundo, pelas bancadas, da equipa (e consequente comunhão com a mesma), do onze, do nome do lateral e do extremos, e uma esperança, mal disfarçada, de vitória nos locais, que se sentia em Fevereiro de 1991, quando, pela primeira vez, vi em Vila Real o meu FCP. Faltaram os milhares de papelinhos atirados a quando da entrada das equipas, não houve o "Re-al! Re-al!Re-al!!" gritado, com arreganho intimidatório, das bancadas - havia agora um simulacro de claque, com meia dúzia de crianças, a querer imitar os adultos do lado oposto. Nem sequer cabiam nas bancadas os mesmos de há quase três décadas - os camarotes confortáveis, que agora recebem a saudação dos atletas durante duas décadas realizada para a central do lado contrário, tiraram lugares à lotação. Desta feita, não houve lugar, sequer, à mitologia do "golo em off side" do Paille, do penalty sobre o Laranjo e outros feitos excepcionais - não fosse a arbitragem, e em Fevereiro de 1991, conclui-se, o FCP teria sido goleado na Forca. Haja boa disposição. 
Mas o que levei, e mostrei à saída, à geração seguinte, foi uma foto de Dezembro de há 27 anos. No espaço de meses, o Porto vinha jogar, pela segunda vez, ao Monte da Forca. Ainda criança, vejo-me, surpreendentemente, introduzido, por mão amiga, e muito improvável para o caso do futebol, no Hotel onde a equipa estagia (noite anterior ao jogo; em 2018, foi ir e vir túnel do Marão cumprido). Na sala, sento-me então ao lado de Octávio Machado - onde me vejo agora, com a timidez natural, quase a esconder-me - e de seguida sou acompanhado ao quarto dos jogadores que, cumprindo o estereótipo da época, jogam às cartas e bebem sumo de laranja natural. Ainda guardava os autógrafos dos Vítor Baías, dos Aloísios, dos Jorges Coutos de então.  
Hoje, há mais "evento" do que jogo; há menos Taça, e mais "prestígio"; o Vila Real portou-se como se tivesse tido, como teve, um privilégio, e como se disputar o jogo nunca tivesse passado pela cabeça. Há mais desencantamento do mundo, e menos possibilidades de feitiços e sucessos paranormais; um tempo plano, sem tempo fora do tempo, também se nota quase sempre em jogos de taça sem risco, e sem diferenças dos do campeonato, resignados e sem convocar a sorte das estrelas (mesmo que fosse reclamar um fantasmagórico off side do Paille, ou, em alternativa, um penalty do Laranjo).

Sem comentários:

Enviar um comentário