*Pedro Vaz Patto, juíz, Presidente da Comissão Nacional de Justiça e Paz, num texto absolutamente exemplar, no Observador:
As raízes da criminalidade são demasiado complexas e é, no mínimo, simplista pensar que se enfrentam apenas com o endurecimento de penas, com o encarceramento sistemático, com a difusão de armas entre a população ou atirando a matar. Sem que a pobreza e desigualdade possam justificar a prática de crimes e sem que se ignore a função própria do sistema penal, as políticas sociais de combate à pobreza e à desigualdade não podem ser esquecidas quando se pretende combater a criminalidade. A insegurança da sociedade brasileira não é alheia à persistência dessa pobreza e dessa desigualdade em níveis que contrastam com a da generalidade dos países europeus, com índices de criminalidade inferiores. A bancada de deputados evangélicos que apoia Bolsonaro enaltece a sua postura de oposição ao aborto, tal como muitos dos seus eleitores católicos e evangélicos, que prezam a vida humana na sua fase inicial, de suprema vulnerabilidade. Em muitos países, para políticos moderados, de esquerda, centro e direita, a liberalização do aborto já é aceite como algo de indiscutível ou irreversível. Oferecem, assim, trunfos eleitorais a políticos como Trump e Bolsonaro, que, quiçá de forma oportunista e inautêntica (porque nem sempre no passado se distinguiram pela oposição ao aborto), se aproveitam do vazio assim criado assumindo-se como arautos da defesa da vida pré-natal. Importa, por isso, denunciar a incoerência de quem defende a vida na sua fase inicial, mas com ligeireza a despreza noutras fases (sendo que a inversa também é verdadeira), mesmo que seja em nome do combate à criminalidade, aceitando facilmente que se possa atirar a matar. Bíblia e bala não combinam muito bem. Da Bíblia vem o mandamento não matarás, não certamente o de que facilmente se pode atirar a matar. Afirmar que se coloca Deus acima de todos envolve uma responsabilidade que exige coerência. Reduzir essa afirmação a um slogan de propaganda é uma profanação que viola o mandamento bíblico de não usar o Santo Nome de Deus em vão.
*No Ponto Sj, Geraldo Maduro:
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