segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Uma nova «terceira via» (?)


Nem de direita, nem de esquerda? «De direita e de esquerda» - foi o mantra ideológico de Macron durante a campanha que o levou ao Eliseu, postulado cuja decifração (em aberto) se prolonga até à data. Agora, entrevistado por Fareed Zakaria (GPS, CNN), foi confrontado sobre se a sua política não estava a reeditar a «terceira via» de Blair e Clinton («novo centro»), entendida esta como uma combinação de crença nos mercados, reforço destes, maior autonomia para estes com justiça social. A resposta de Macron foi a seguinte:  
a minha aposta passa por três pilares, a saber: a) reforma fiscal e das leis do trabalho - já levadas a cabo (mas que só darão resultado no prazo de 18 a 24 meses, segundo afiançou, confrontado com os números actuais de crescimento económico); b) aposta na inovação e qualificação das pessoas; c) soberania.
Se as reformas já levadas a cabo implicaram uma diminuição de impostos para as empresas e houve flexibilização laboral, e se algumas medidas de combate à pobreza também foram lançadas, a divergência face à «terceira via», na leitura do próprio Macron, prende-se, sobretudo, com o factor soberania e, nesta, o entendimento de que a história, as tradições francesas são importantes, ser francês não é o mesmo que ser japonês ou norte-americano, ou, sequer, alemão, o presidente francês não acredita no "ultraliberalismo" nem num globalismo que posso homogeneizar tudo, e de tudo fazer tábua-rasa, e por isso aposta no reforço do ensino da literatura e da história na Escola (os franceses devem conhecer detalhadamente a sua história e ter orgulho nas suas raízes, disse). No fundo, uma «terceira via» com uma pitada de identidade, esta última muito dentro do espírito do tempo. 

Para ver na íntegra, a entrevista, aqui.

P.S.: Serge Halimi, recentemente, no Monde Diplomatique, questionava o binómio cosmopolitas-nacionalistas como sendo a grande dicotomia ideológica do nosso tempo, dizendo que, em assim se colocando Macron e Trump em campos opostos não se dá conta do que têm em comum, em especial, as suas reformas fiscais e quem delas mais beneficia. Visto pelo prisma ideológico de esquerda, o Presidente Macron, vindo da banca, beneficiaria os grupos económicos mais favorecidos à partida, contribuindo, ainda, porventura, para cimentar a discrepância da tributação do capital face ao trabalho; visto pelo prisma ideológico de direita, os cortes fiscais garantirão um tal incremento de investimento e criação de emprego, gerando crescimento, que mais do que justifica a perda de receita para o Estado e o alavancar dos ditos grupos económicos.

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