quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Anotações matinais


*Completando as informações acerca do retrato sobre a pobreza em Portugal publicado na semana passada pelo INE, através do texto de hoje, do Prof.Carlos Farinha Rodrigues no Público: como se tinha aqui referido, o valor para aferir do risco de pobreza, em Portugal, era, em 2017, (menos de) 468€ por pessoa. Acrescente-se, agora, que para um casal com dois filhos dependentes esse valor é de 982€/mês. A linha de pobreza (o valor para se considerar alguém acima desse limiar) subiu 3% em 2017. A proporção de crianças e jovens em situação de pobreza diminuiu de forma ainda mais significativa, reduzindo-se a sua taxa de incidência de pobreza de 20,7% para 18,9%. A taxa de pobreza das famílias monoparentais e das famílias alargadas com três e mais crianças, dois dos grupos sociais mais vulneráveis à situação de pobreza, diminuiu em 4,9 p.p. e 9.8 p.p., respectivamente. A intensidade da pobreza (quão pobres são os pobres) desceu de 27% para 24,5%; a taxa de privação material severa baixou 0,9%. Mas porque aumentou a pobreza entre os idosos (0,7%)? "Uma explicação possível pode residir no facto de uma parte significativa da população idosa com menos rendimentos se situar muito próxima da linha de pobreza e, portanto, a sua classificação como pobre ou não pobre ser muito sensível às oscilações da própria linha de pobreza. O acréscimo dos seus rendimentos não foi suficiente para compensar o acréscimo do limiar de pobreza. Por outro lado, alguma desadequação dos instrumentos de combate à pobreza dos idosos como o CSI, cujo referencial em 2017 estava cerca de 10% abaixo do limiar de pobreza, pode constituir outro factor explicativo"
Todos os índices de desigualdade registam uma diminuição: "é indiscutível que eles [os números] traduzem uma melhoria relevante da condição social do país e traduzem uma redução dos principais indicadores de pobreza, desigualdade e exclusão social. Tal deve-se em grande medida à recuperação económica do país, ao crescimento económico e à queda do desemprego. Mas deve-se igualmente a uma preocupação acrescida das políticas públicas com as questões sociais, com a preocupação de priorizar o crescimento dos rendimentos das famílias de menores rendimentos e ao reforço das políticas sociais" (p.55).

*Nas sugestões de livros para o Natal do Professor Carlos Fiolhais encontra-se o novo livro do Prof. Onésimo Teotónio Almeida ("O século dos prodígios") que já tenho na estante. Mas não deixei, também, de certa maneira a propósito, de anotar o comentário de João Pedro George, na Sábado (no contexto do debate dos "Descobrimentos"): diz ele que, por um lado, dizemos que não temos nada que ver com a escravatura, foram os antepassados, não tivemos qualquer intervenção nisso; por outro, já nos reclamamos da mesma linhagem - e em "linha recta" - com os inventores de instrumentos científicos, com aqueles que no contexto das descobertas acrescentaram ao mundo. Adicione-se a leitura do capítulo de Michael Sandel em "Justiça. Fazemos o que devemos?" sobre esta herança (de termos alguma responsabilidade ainda hoje pelo legado dos antepassados nacionais) e a obrigatoriedade (ou não) de, enquanto comunidade, nos referirmos a ela (e isto a propósito dos alemães que agora nascem e o problema do nazismo). 
Achei curiosa a referência á permanência das «duas culturas» face à ausência, na comitiva lusa das letras, das «ciências exactas» em Guadalajara (embora creia que em "Dizer Deus na pós-modernidade", o Prof.João Duque faz uma leitura em grande profundidade das várias, múltiplas culturas, já não apenas «duas», «incomensuráveis entre si», com «jogos de linguagem» impenetráveis, ficando a «razão crente», respeitando as várias «razões contextuais», com essa responsabilidade do que Adriano Moreira chamou de «transdisciplinariedade»). 

*Fiquei a saber pelo artigo/homenagem de Rui Tavares que Fernando Belo, agora desaparecido, era ex-sacerdote; desconhecia esse facto. Gostava de ler os seus artigos no Público, que assinava de tempos a tempos, mas nunca li nenhum livro dele. Talvez vá aproveitar a oportunidade para no Natal ler o livro que liga a Filosofia à existência Europa. 

*Com Paula Teles ficámos a saber que a quota de utilização do automóvel, nas áreas metropolitanas de Porto e Lisboa, aumentou, em mais de 20% (em cada uma delas), entre 2001 e 2017, diminuindo, inversamente, a taxa de utilização de transportes públicos.

*A estratégia ambiental do governo passa por, em 2050, termos menos 25 a 50% de efectivos bovinos. 

*O modelo político chinês, na definição de Richard McGregor: "leninismo de mercado". A balança comercial portuguesa é bastante deficitária face aos chineses. No balanço entre o que exportamos e o que importamos da China são 900 milhões de perda. Marcelo fez bem em referir a questão dos direitos humanos face ao homólogo chinês. 

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