Os termos identidade e política identitária são de uma proveniência relativamente recente, tendo o primeiro sido popularizado pelo psicólogo Erik Erikson durante os anos 1950 e o último aparecido só na política cultural dos anos 1980 e 1990. Identidade tem um vasto número de significados hoje em dia, nalguns casos referindo-se simplesmente a informação básica sobre nós próprios (como em «a minha identidade foi roubada»). Neste sentido, as identidades sempre existiram.
Neste livro, usarei identidade num sentido específico que nos ajuda a compreender por que é tão importante na política contemporânea. A identidade nasce, em primeiro lugar, da distinção entre o nosso eu interior e um mundo exterior de regras e normas sociais que não reconhecem adequadamente o valor ou dignidade do nosso eu interior. (...) O eu interior é a base da dignidade humana, mas a natureza dessa dignidade tem mudado ao longo do tempo. Em muitas culturas primitivas, a dignidade é atribuída apenas a umas quantas pessoas, muitas vezes guerreiros que estão dispostos a arriscar as suas vidas em combate. Noutras sociedades, a dignidade é atributo de todos os seres humanos, baseada no valor intrínseco de pessoas com entidade. E noutros casos, a dignidade é devida à pertença a um grupo maior de memória e experiência partilhadas. (...)
No Ocidente, a ideia de identidade nasceu, em certo sentido, durante a Reforma protestante e foi-lhe dada expressão inicial pelo frade agostinho Martim Lutero (...) Compreendeu que a Igreja agia apenas sobre a pessoa exterior - através da confissão, da penitência, das esmolas, da veneração dos santos - pelo que nada podia fazer diferença porque a Graça só era outorgada como ato livre de amor de Deus. Lutero foi um dos primeiros pensadores ocidentais a articular e valorizar o eu interior acima do ser social externo (...) O conceito moderno de identidade reúne três fenómenos diferentes. O primeiro é o thymos, um aspecto universal da personalidade humana que anseia reconhecimento. O segundo é a distinção entre a pessoa interior e a exterior. Isto só surgiu no início da Europa moderna. O terceiro é uma evolução do sentimento de dignidade, em que o reconhecimento é devido não apenas a uma restrita classe de pessoas, mas a toda a gente.
Francis Fukuyama, Identidades, D.Quixote, 2018, pp.27-28, 46 e 57-58.
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