sábado, 29 de dezembro de 2018

Fernão de Magalhães


Alguns anos atrás, percorri os principais lugares da vida de Magalhães e entrevistei dezenas de especialistas do período dos Descobrimentos. A apreciação de todos foi mais ou menos unânime: a primeira circum-navegação do globo é o maior feito de navegação da História da Humanidade, e Fernão de Magalhães é o maior navegador português de todos os tempos. O navegador português tem, justamente, o seu nome em diferentes espécies de fauna e flora, universidades, regiões, crateras lunares, constelações.
A viagem de circum-navegação foi uma proeza extraordinária da responsabilidade de Espanha e que contribuiu para a formação e a identidade de nações modernas como a Argentina, o Uruguai, o Chile e as Filipinas. Mas a vida de Magalhães não tem início em Sevilha com o levantar de âncora da Armada das Molucas. A adolescência em Lisboa e as duas décadas a navegar ao serviço do rei de Portugal no período de maior expansão portuguesa explicam as capacidades de comando, o conhecimento científico e a intuição sobrenatural de Magalhães quando, mais tarde, irá descobrir a metade desconhecida do mundo.
A vida de Magalhães não é apenas uma aventura pessoal, ela traz em si todo o século XVI europeu. Desde a questão central da busca das míticas ilhas onde se produziam as especiarias, que tinham sido os produtos mais cobiçados e lucrativos de toda a Idade Média, aos avanços técnicos e científicos que permitiram a dimensão correcta do mundo; ao problema do cálculo das longitudes que só seria resolvido dois séculos mais tarde; à rivalidade entre Norte e Sul da Europa, entre católicos e protestantes, que teria a sua equivalência comercial nas lutas pelo domínio do oceano Índico, alcançando temas tão actuais como o colonialismo e a globalização, a história de Magalhães e do seu tempo só termina efectivamente no nosso
Uma viagem pelo mundo refazendo a vida de Fernão de Magalhães toca alguns dos lugares mais extraordinários do planeta. Entre eles, o litoral assombrado da costa oeste africana e logo depois a luz alegre da costa oriental, que o português conheceu na Carreira da Índia. As cidades portuguesas do Índico - Goa, Malaca, Cochim, Ormuz - são outras etapas que ainda hoje interessam e deslumbram os viajantes. Surpreende neste itinerário um par de praças-fortes marroquinas, Mazagão e Azamor, onde Magalhães esteve colocado. (...) Por fim, o fabuloso itinerário da circum-navegação toca a baía de Guanabara, a foz do rio da Prata com  a colina de Montevideo em evidência, toda a Patagónia que como sabemos foi assim baptizada pelo navegador ao contactar os índios de patas grandes. O estreito de Magalhães deixará para sempre a quem o visita a sensação de ter tocado a orla do Universo. Após a travessia do Pacífico e a chegada à Micronésia, resta apenas uma visita constrangedora e comovente à ilha de Mactan, nas Filipinas, onde o português se deixou matar numa emboscada previsível e artesanal.

Gonçalo Cadilhe, As etapas de Magalhães, Visão, 27-12-2018, p.96.

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