quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Fukuyama e o que mudou desde «o fim da história»

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O que mudou no meu pensamento (político), diz Francis  Fukuyama, logo na Introdução de Identidades (2018), desde que publiquei O fim da história e o último homem (1992), foi i) o reconhecimento de que é muito difícil erguer-se um Estado moderno, impessoal; ii) a possibilidade de que a democracia liberal moderna decaia ou ande para trás (p.14).
Fukuyama, na sua mais recente obra, volta a precisar o sentido de «fim» no ensaio (de 1989) que o celebrizou (e que esteve, depois, na origem do mencionado livro) enquanto «finalidade», «teleologia», «alvo», «objectivo» - e não como «conclusão» (da história). Nesse sentido, ele opunha, a uma «teleologia» marxista que indicava ser o «fim» da história uma sociedade comunista, a perspectiva hegeliana de um Estado liberal ligado a uma economia de mercado. O que parece comum aos diversos autores aqui convocados é a fé na história, a caminho de uma dada «inevitabilidade» que, reconhece agora Fukuyama, pode não verificar-se. Em 1970, havia no mundo 30 «democracias eleitorais», mas em meados dos anos 2000 estas haviam chegado a um número que se aproximava das 120 (p.13). Contudo, "algures na segunda década dos anos 2000" tais democracias recuaram, passando, nas palavras de Larry Diamond, por uma «recessão global». 
À expansão democrática, na sequência da queda do muro de Berlim, com o fim da antiga URSS e dos regimes comunistas no Leste europeu - ambiente/espírito no qual se enquadrou "O fim da história" de Fukuyama, rapidamente considerado de uma confiança, ingenuidade ou arrogância excessiva na idealização de um modelo político-económico único a uma escala global, indiferente a culturas, geografias, histórias, resultados económicos muito diversificados - sucedeu um retrocesso contemporâneo de x) uma aceleração da globalização e de xx) uma crise financeira-económica-social, com o seu cortejo de falências, desemprego, quebra do rendimento de milhões de trabalhadores em todo o mundo, ou seja, "as políticas da elite produziram" grandes problemas (p.23). Países autoritários como a China e a Rússia tornaram-se mais "auto-confiantes e afirmativos". Passaram a emergir as chamadas «democracias iliberais» - e, aos exemplos mais habituais, Fukuyama acrescenta, ainda, o caso da Tailândia (p.23). O descalabro da invasão do Iraque, e mesmo a intervenção no Afeganistão, iriam conduzir à radicalização (religiosa/política) de milhões de pessoas.
Se a política do séc.XX parecia organizada em torno do binómio esquerda-direita atinente a questões de tipo económico - a esquerda reclamando mais igualdade, a direita mais liberdade, com as "políticas progressistas" centradas nos trabalhadores, nos sindicatos e em partidos social-democratas que pretendiam melhores prestações sociais e melhor distribuição da riqueza, enquanto a direita se preocupava em reduzir o tamanho do estado e em promover a iniciativa privada (p.24), parece que a certo momento da última década tais agendas, não tendo desaparecido, pareceram dar o lugar "a um espectro definido pela identidade". A esquerda procurou promover uma ampla variedade de grupos - negros, mulheres, imigrantes, hispânicos, comunidade LGBT - e a direita passou a um discurso em chave patriótica, ou mesmo nacionalista, associada esta a uma dada raça, etnia ou religião.
Fukuyama reconhece, neste livro, a centralidade das questões económicas no agir humano - e daí os problemas fundamentais identificados (ausência de resposta aos afectados pela globalização e perda de rendimentos na sequência da longa crise iniciada em 2008) -, mas recusa o exclusivo motivacional deste: sem um quadro de «ressentimento» devidamente mobilizado ("por muito importante que o interesse material seja, os seres humanos são motivados também por outras coisas, motivos que explicam melhor os desvairados acontecimentos do presente. Pode chamar-se-lhe a política do ressentimento. Numa ampla variedade de casos, um líder político mobilizou seguidores à volta da percepção de que a dignidade do grupo foi afrontada ou, de nalguma maneira, desconsiderada. Esse ressentimento engendra exigências de reconhecimento público da dignidade do grupo em questão. Um grupo humilhado que procura a restituição da sua dignidade tem muito mais peso emocional do que gente que prossegue apenas uma vantagem económica (...) Na verdade, o filósofo Hegel defendia que a luta pelo reconhecimento é o motor da história humana, uma força que era a chave para compreender a emergência do mundo moderno (...) Embora as desigualdades económicas nascidas dos últimos cinquenta anos da globalização sejam um factor decisivo para explicar a política contemporânea, as queixas económicas tornam-se muito mais agudas quando são associadas a sentimentos de indignidade e faltas de respeito. Muito do que entendemos como sendo de motivação económica reflecte mesmo, na verdade, não um desejo de riqueza e recursos, mas que o dinheiro é um marcador de estatuto e compra respeito (...) Os seres humanos não querem apenas coisas que lhes são externas, como alimentos, bebidas, Lamborghinis ou a próxima dose. Também almejam juízos positivos sobre o seu valor ou dignidade. Se recebem esse juízo positivo sentem orgulho e se não o recebem sentem raiva (quando pensam que estão a ser subestimados) ou vergonha (quando têm consciência de que não estiveram à altura dos padrões de outras pessoas)", pp.25, 28-29 e 37), e que resulta da parte da psique/alma humana que aspira ao reconhecimento (o thymos), as mudanças políticas a que estamos a assistir não teriam ocorrido: "o thymos é a parte da alma que almeja o reconhecimento da nossa dignidade; a isotimia é a exigência de se ser respeitado na base da igualdade com as outras pessoas; a megalotimia é o desejo de ser reconhecido como superior. As democracias liberais modernas prometem, e em larga medida oferecem, um grau mínimo de igual respeito, encarnado nos direitos humanos, o primado da lei e o direito ao voto. O que isso não garante é que numa democracia as pessoas sejam respeitadas igualmente na prática, em particular os membros de grupos com um historial de marginalização" (p.15). Outro problema é a recorrente existência na história da megalotimia ("o problema da megalotimia é que por cada pessoa que é reconhecida como superior muito mais gente é vista como inferior e não recebe qualquer reconhecimento público do seu valor humano (...) o desejo de igual reconhecimento pode facilmente resvalar para uma exigência de reconhecimento da superioridade do grupo", pp.40-41), que tanto deu origem a heróis como Churchill, ou «santos seculares» como Mandela, mas também a tragédias como a de Hitler ou Mao. Possuirá a democracia liberal, ligada a uma economia de mercado, saídas para a megalotimia? Em O fim da história e o ultimo homem, Fukuyama, ironia da história, citava o exemplo de um tal Donald Trump que fazia desaguar a sua ambição e megalomania para o mundo empresarial. O que em 1992, com Trump no lugar de Trump, era a ilustração de que o modelo funcionava, em 2018, com Trump no lugar de César as campainhas acendem em toda a sua extensão - isto, enquanto, de outro ângulo, o problema da isotimia é que nenhuma sociedade tratará de forma igual quem arriscou a vida pela comunidade (um bombeiro, um polícia,etc.), por exemplo, com quem fugiu ao primeiro sinal (e parece haver quem não aceita esta diferenciação).

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