
Outros tópicos a partir de Identidades, de Francis Fukuyama:
*Neste seu mais recente ensaio corrobora a ideia tradicional - ainda que por vezes impugnada, como surgiu, de resto, a propósito da candidatura de Bernie Sanders ou de diversos candidatos democratas, com propostas mais à esquerda do que o habitual, nas mais recentes eleições - de que os americanos, sejam de direita ou de esquerda, desconfiam do Estado (grande) - vide, p.198;
*O politólogo refere-se ao vazio deixado pelo declínio do "horizonte comum partilhado" - em função do peso e ancoragem social da religião, que caiu, largamente, nas últimas décadas -, sustentando duas coisas: que ao religioso sucedeu o psicoterapeuta; mais: não raro do religioso, ele mesmo, esperou-se/espera-se um serviço terapêutico. Na vez das "verdades eternas" (p.124);
*Em matéria de requisitos de cidadania, a indicação de um exemplo muito curioso e ilustrativo do que hoje, em boa parte, está em jogo na europa. O Land alemão de Baden-Wurttemberg apesar da "sua própria herança conservadora católica" tornou a aceitação do casamento homossexual uma condição de cidadania. O que diz muito sobre o entorno cultural, e o olhar sobre este, que (se espera que) demanda a Alemanha, por parte de quem constrói tais requisitos e testes nos quais é preciso passar para se ser cidadão;
*Fukuyama segue o posicionamento de Samuel Huntington no que diz respeito à interpretação da identidade norte-americana. De acordo com Huntington, subscrito por Fukuyama, os EUA assentam na ética de trabalho protestante. A definição da identidade norte-americana, atente-se, não se faz, no entender destes académicos em termos étnicos ou religiosos; o que sucede é que para ser americano um cidadão nascido no Quénia, na Coreia do Sul, em Itália, na Austrália, no México ou no Iémen irão adoptar uma postura face ao trabalho que radicou em alicerces protestantes. Cada um destes cidadãos poderá ter a sua própria religião, no entanto, bem compreendido; o que eles serão é algo como "protestantes culturais" - pelo menos, face ao trabalho;
*Creio que é bastante pertinente nesta hora democrática em que nos encontramos, sublinhar o Tocqueville que Fukuyama traz à liça, subscrevendo-o também: "Tocqueville (...) avisou contra a tentação das pessoas nas sociedades democráticas para se virarem para si próprias e se preocuparem exclusivamente com o bem-estar próprio e o das suas famílias. A democracia bem-sucedida, segundo ele, requer cidadãos que sejam patriotas, informados, activos, com espírito público e dispostos a participar nos assuntos políticos. Nesta era de polarização, poderíamos acrescentar que devem ser de espírito aberto, tolerantes de outros pontos de vista e prontos a compromissos em nome do consenso democrático" (pp.182-183);
*Francis Fukuyama equaciona os problemas da existência de vínculos a mais do que uma nacionalidade (dupla nacionalidade), tantas vezes ignorados/esquecidos/negligenciados: desde logo, a possibilidade de os dois países de que o cidadão é nacional entrarem em guerra entre si. Outros problemas, com exemplos pelo meio: em 2017, Erdogan, exortou os cidadãos com nacionalidade turca e alemã a votarem em políticos que favorecessem os interesses turcos. A que lealdade se entregam os cidadãos alemães de origem turca (beneficiando da cobertura e dos benefícios dos dois Estados, sendo que um dos quais não irá merecer a sua lealdade)? - vide, p.190;
*Quando não há uma forte identidade nacional, uma narrativa conjunta - nomeadamente, passada pelo sistema educativo -, dificilmente os estados se aguentam, em particular enquanto democracias: as votações replicam/incidem sobre famílias, tribos, etnias, grupos religiosos;
*Para o investigador, é claro que "a identidade da Europa é hoje confusa, para falar caridosamente. Os proponentes da União Europeia não conseguiram criar um sentido forte de identidade pan-europeia que suplantasse as identidades dos seus estados membros. Essas identidades nacionais são tenazes e variam tremendamente entre si, indo de umas que são relativamente abertas e poderiam acomodar populações diversificadas, como a de França, a outras que criam barreiras deliberadas à assimilação de imigrantes, como as que adoptou a Hungria. A região não é tanto ameaçada por imigrantes como pela reacção política que os imigrantes e a diversidade cultural criam. Os demónios anti-imigrantes e anti-União Europeia que foram invocados são muitas vezes profundamente iliberais e ameaçam a ordem política aberta em que tem assentado a prosperidade da região" (p.176).
Sem comentários:
Enviar um comentário