Embora
na história da pintura europeia, nos óleos correntes da cultura europeia, haja
retratos de homens e mulheres, na categoria do desnudamento, é sobretudo a
mulher que surge. E através desses retratos, nesses desnudamentos, poderemos
ver as convenções pelas quais, à época, a mulher era julgada. Podemos ver como
eram vistas as mulheres. O que é, então, um desnudamento? No seu livro sobre o desnudamento,
Kenneth Clark diz que estar
desnudado é, simplesmente, estar sem roupa. Para ele, o nu é uma forma de arte.
[John Berger]: diria de outra
maneira, estar nu é ser o próprio (igual a si mesmo). Estar desnudado é ser
visto pelos outros sem roupa e, no entanto, não reconhecido pelos outros como
um próprio (como singular, como ele mesmo). Um desnudar deve ser visto como um
objecto (para ser um desnudo). A nudez é algo dado a ver para os que estão
vestidos.
Na
arte medieval, o relato da criação, tal como descrito no Livro do Génesis, é retratado/ilustrado, muitas vezes, cena a cena,
mas durante o Renascimento a narrativa sequenciada desaparece e o único momento
sempre representado é o momento da vergonha. A sua vergonha [Eva] não está agora tão relacionada com
o outro, como com o olhar do espectador – que os envergonha. À medida que a
pintura se seculariza muitos outros motivos – que não o relato da criação em
chave judaico-cristão – se oferecerão ao desnudamento (á oportunidade de pintar
nus). Na tradição europeia, o nu implica sempre saber-se [que se está a] ser
visto pelo espectador. Não estão nus como são, estão nus como tu os vês. Susana e os anciãos: Susana olha-nos
olhando-a. Susana olha-se também num espelho, representando-se a ela mesma como
a vêem os homens. Vê-se como um espectáculo, o que significa um espectáculo
para os homens. O espelho converteu-se num símbolo de vaidade feminina. Sem
embargo, a hipocrisia masculina, nisto, é evidente. Pintas uma mulher nua
porque desfrutas ao olhá-la, colocas um espelho nas suas mãos, e intitulas a
pintura de “Vaidade”. Condenando, assim, moralmente a mulher, cuja nudez
representaste para teu próprio prazer. E assim se repete o exemplo bíblico,
culpando-se a mulher.
“O
julgamento de Paris” foi outro motivo mitológico favorito (na história da
pintura europeia), com a mesma lógica inscrita de homens olhando/observando as
mulheres, julgando-as. A beleza, aqui, está ligada a [mulher] tornar-se
competitiva. “O julgamento de Paris”(Rubens)
transforma-se num concurso de beleza. A estética, quando aplicada às mulheres,
não é tão desinteressada como a palavra “beleza” poderia sugerir.
Estar
nu é estar sem disfarce(s); estar em exposição é ter a superfície da própria
pele, o pêlo do próprio corpo, convertidos em disfarce; um disfarce que não se
pode tirar. É estar vestida sem roupa, condenada a nunca estar nua. Apresentam
uma completa formalidade. As que não são julgadas belas não são belas. As que o
são, recebem o seu prémio, que é serem possuídas. Estarem disponíveis. Entre
dezenas de milhares de óleos de nus, com mulheres, ao longo dos séculos, na
história da pintura europeia, haverá uns 20 ou 30 em que as mulheres se
revelaram (elas mesmas, como são). Com Rubens, Rembrandt, Georges de la
Tour…tais pinturas são tão pessoais como poemas de amor. A sua personagem é
claramente distinta.
Na
pintura a óleo, a segunda pessoa, ou a segunda pessoa que importa, é aquela que
observa o quadro.
Tais
pinturas representam um ideal humanista (como nos ensinam), as mulheres que há
nelas, ou um apetite voyeur masculino? Há sexualidade no frame, no quadro, ou
em frente a ele (em quem observa)?
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