terça-feira, 4 de dezembro de 2018

John Berger - Ways of Seeing / Modos de ver (Ep. 2)



Embora na história da pintura europeia, nos óleos correntes da cultura europeia, haja retratos de homens e mulheres, na categoria do desnudamento, é sobretudo a mulher que surge. E através desses retratos, nesses desnudamentos, poderemos ver as convenções pelas quais, à época, a mulher era julgada. Podemos ver como eram vistas as mulheres. O que é, então, um desnudamento? No seu livro sobre o desnudamento, Kenneth Clark diz que estar desnudado é, simplesmente, estar sem roupa. Para ele, o nu é uma forma de arte. [John Berger]: diria de outra maneira, estar nu é ser o próprio (igual a si mesmo). Estar desnudado é ser visto pelos outros sem roupa e, no entanto, não reconhecido pelos outros como um próprio (como singular, como ele mesmo). Um desnudar deve ser visto como um objecto (para ser um desnudo). A nudez é algo dado a ver para os que estão vestidos.
Na arte medieval, o relato da criação, tal como descrito no Livro do Génesis, é retratado/ilustrado, muitas vezes, cena a cena, mas durante o Renascimento a narrativa sequenciada desaparece e o único momento sempre representado é o momento da vergonha. A sua vergonha [Eva] não está agora tão relacionada com o outro, como com o olhar do espectador – que os envergonha. À medida que a pintura se seculariza muitos outros motivos – que não o relato da criação em chave judaico-cristão – se oferecerão ao desnudamento (á oportunidade de pintar nus). Na tradição europeia, o nu implica sempre saber-se [que se está a] ser visto pelo espectador. Não estão nus como são, estão nus como tu os vês. Susana e os anciãos: Susana olha-nos olhando-a. Susana olha-se também num espelho, representando-se a ela mesma como a vêem os homens. Vê-se como um espectáculo, o que significa um espectáculo para os homens. O espelho converteu-se num símbolo de vaidade feminina. Sem embargo, a hipocrisia masculina, nisto, é evidente. Pintas uma mulher nua porque desfrutas ao olhá-la, colocas um espelho nas suas mãos, e intitulas a pintura de “Vaidade”. Condenando, assim, moralmente a mulher, cuja nudez representaste para teu próprio prazer. E assim se repete o exemplo bíblico, culpando-se a mulher.
“O julgamento de Paris” foi outro motivo mitológico favorito (na história da pintura europeia), com a mesma lógica inscrita de homens olhando/observando as mulheres, julgando-as. A beleza, aqui, está ligada a [mulher] tornar-se competitiva. “O julgamento de Paris”(Rubens) transforma-se num concurso de beleza. A estética, quando aplicada às mulheres, não é tão desinteressada como a palavra “beleza” poderia sugerir.
Estar nu é estar sem disfarce(s); estar em exposição é ter a superfície da própria pele, o pêlo do próprio corpo, convertidos em disfarce; um disfarce que não se pode tirar. É estar vestida sem roupa, condenada a nunca estar nua. Apresentam uma completa formalidade. As que não são julgadas belas não são belas. As que o são, recebem o seu prémio, que é serem possuídas. Estarem disponíveis. Entre dezenas de milhares de óleos de nus, com mulheres, ao longo dos séculos, na história da pintura europeia, haverá uns 20 ou 30 em que as mulheres se revelaram (elas mesmas, como são). Com Rubens, Rembrandt, Georges de la Tour…tais pinturas são tão pessoais como poemas de amor. A sua personagem é claramente distinta.
Na pintura a óleo, a segunda pessoa, ou a segunda pessoa que importa, é aquela que observa o quadro.
Tais pinturas representam um ideal humanista (como nos ensinam), as mulheres que há nelas, ou um apetite voyeur masculino? Há sexualidade no frame, no quadro, ou em frente a ele (em quem observa)?

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