Toda a verdade (e também toda a mentira) sobre o processo e-Toupeira
Quando um advogado moribundo pede a Bíblia, dia a anedota que não é por se ter convertido, é para procurar brechas nas leis sagradas, em busca da salvação. E se um advogado arguto, digo eu, é capaz de encontrar umas tantas brechas numa acusação do Ministério Público, três advogados ainda mais argutos encontram muitas mais, ao ponto de serem capazes de sacudir nada menos do que 30 acusações.
Já estão a ver onde o cronista quer chegar? Sim, quer chegar à estranha ilibação da Sad do Benfica no processo e-Toupeira, mais um daqueles casos em que ganharam os mais dotados tecnicamente, não os que estavam do lado da verdade.
Também aqueles três craques do Direito (e até do menos direito, depende de quem lhes paga) que o Benfica contratou procuraram - e encontraram - a solução para este caso na leitura da Bíblia, mas exactamente naquela parte em que Arão, o sumo sacerdote, coloca as mãos sobre a cabeça do bode expiatório e confessa os pecados do povo, transferindo simbolicamente esses pecados para o animal, que, depois, é solto no deserto, levando para longe todas as iniquidades dos homens (Levítico 16: 21-22).
Paulo Gonçalves, que até já tinha sido abandonado no deserto, estava mesmo a pedir o papel do bode que absorve e expurga os pecados dos outros. E a crente juíza validou a encenação ao concluir que "os crimes que lhe estão imputados nada têm a ver como o prosseguimento dos interesses do Benfica". Ficámos a saber que vasculhar o segredo de processos em que o clube é o principal acusado ou saber antecipadamente de uma busca da Judiciária, por exemplo, era apenas do seu interesse. O pessoal da SAD, na sua infinita inocência, desconhecia tudo. Ora, aí está uma verdade judicial tão credível como a de que Vale e Azevedo vivia de 400 euros mensais e do cultivo da sua horta. Acreditar nela é como acreditar na história da laranjinha. Dizia ao juíz o réu, acusado de homicídio violento, à navalhada: "Eu estava, muito sossegado, a descascar a minha laranjinha, com uma navalha, quando ele apareceu e...".
O futebol é um mundo à parte, de gente enlouquecida pelas paixões, que não pode ser equiparada ao resto da vida; e o resto da vida, sobretudo a justiça, não sabe como lidar com ele.
Corrupção, coação, tráfico de influências são crimes severamente punidos no contexto social; no futebol, que não deixa de ser um jogo, perdem espessura e gravidade. E que mal faz ao mundo, à vida real, que seja o Benfica, e não o Porto ou o Sporting, a ganhar, mesmo indevidamente, um ou outro campeonato? Daí que não tenha sido difícil impor como verdade uma mentira daquele tamanho. É tão óbvio que Paulo Gonçalves agia com o conhecimento e a cumplicidade da SAD do clube, tal como, de resto, foi trinta vezes dito pelo Ministério Público que a única conclusão a retirar desta incompreensível decisão judicial é a de que o Benfica, ao contrário do que aconteceu com a equipa de futebol, acertou em cheio nos reforços para a equipa jurídica.
Como disse, um dia, o poeta americano Robert Frost, um juíz é aquela pessoa que decide quem tem o melhor advogado.
Álvaro Magalhães, OJOGO, 30-12-2018, p.56.
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