Sim, porque no primeiro filho mistura-se tudo: os pais que tivemos, os pais que desejávamos ter tido, os pais que nos imaginamos a ser capazes de construir. Um primeiro filho é de tal forma um entreposto de histórias que não tem muito espaço para ele ser ele próprio. Num segundo filho já estamos tão livres disto que sintonizamos mais facilmente com ele, enquanto o primeiro filho tem coisas que às vezes não são tão ele mas pequenos espelhos de nós.
(...)
Somos todos óptimos a enganarmo-nos com a verdade. Quando olhamos para a história, nunca houve tantos pais com tanto tempo para os filhos, o que é exactamente o contrário do que passamos a vida a dizer. Temos micro-ondas, máquinas de lavar e Segurança Social, que mal ou bem vai funcionando.
(...)
Quando as crianças estão fechadas 90 minutos e têm recreios de cinco, a primeira coisa que fazem é querer correr. Precisam de espaço, de andar à bulha e não permitimos nada disso, que usem o corpo, que sejam vivas. Quando aprendemos a dimensão da agressividade não somos violentos. Passamos a vida a querer educar as crianças como se fossem de porcelana. Vivem debaixo de um stress permanente porque são mais inteligentes se tiverem 5 a tudo, mesmo que estejam a repetir sem pensar.
(...)
Hoje somos os melhores pais que a humanidade já conheceu. E por isso, havendo problemas, as crianças são hoje menos deprimidas e agitadas do que eram.
Eduardo Sá, psicólogo clínico e Professor de Psicologia na Universidade de Coimbra, entrevistado por Marta F.Reis, I, 07-12-2018, pp.25-28.
Sem comentários:
Enviar um comentário