Em Identidades, Fukuyama é muito tributário da teorização de Mark Lilla (citado expressamente a propósito na pág.141, alvo de agradecimento, no entanto, pelos contributos para a obra logo no Prefácio da mesma, p.18) quanto a uma esquerda que deixa de se dirigir à universalidade (dos trabalhadores e dos cidadãos) para se centrar em vários grupos particulares (negros, mulheres, hispânicos, homossexuais, asiáticos, etc.). Uma esquerda que abandona o terreno económico e migra para o cultural/identitário. Que abandona a classe trabalhadora ("o princípio do reconhecimento universal e igual se transformou no especial reconhecimento de certos grupos", p.114). Tal como outros autores, assinala que isso sucede, nomeadamente, porque é muito mais fácil, custa muito menos, conseguir ganhos em matéria cultural (ex: criação de quotas) do que melhorar a vida (económica, material) de vastos sectores da população. Com esta posição, contudo, a esquerda esqueceu que a soma das partes (múltiplas identidades) será inferior ao todo (anterior). Muitos operários que ainda sobejam do processo de desindustrialização acabam por cair no regaço de forças de extrema-direita em inúmeros países. Seja porque estes partidos apelam a políticas proteccionistas antes alvitradas à esquerda (hoje, nem tanto na esquerda mainstream, ainda que também sugeridas por uma esquerda minoritária), seja porque a direita, em estratégia espelhar, elegeu também os seus grupos particulares esquecidos pela política identitária de esquerda; a direita passa também a agir com base nesta primazia cultural/identitária - mas dirige-se a outras identidades (brancos, nacionalistas, do campo/província, vinculados a grupos religiosos ditos cristãos, defensores da família e de valores tradicionais).
Desde os anos 1990, os partidos de esquerda, na Europa, derivando para o centro, parecem-se cada vez mais com os partidos de direita, observa Fukuyama (p.99). A crise (petrolífera) dos finais dos anos 70 colocou em crise o modelo de ilimitado crescimento de direitos, em âmbito económico, dos cidadãos e crescimento do Estado Social. No que me parece uma certa contradição de Fukuyama, contudo, é quando junta a este diagnóstico (responsabilizando/culpando a esquerda pela política de soma de pequenas identidades e o não dirigir-se a um grande grupo de "explorados"(sic)) a ideia de que as políticas de redistribuição tradicionais da esquerda estavam a colocar em causa incentivos para o trabalho, para o empreendedorismo ou a poupança (p.136). Pelo menos, em um primeiro olhar, poderá surgir contraditória (além de bastante controvertido o mérito da observação) esta última crítica - no sentido em que a política redistributiva visava a agora reclamada universalidade de trabalhadores, e não pequenos sectores; na medida em que aqui se dava primazia ao económico e não ao identitário -, ainda que a compatibilização possa ser alcançada em se dizendo que a esquerda devia dirigir-se ao todo, aos desfavorecidos, tentar melhorar a situação de vastos grupos, mas com políticas diversas daquelas apontadas como não mobilizadoras do "empreendedorismo e da poupança". Fukuyama, todavia, não aponta soluções, congregando, aqui, assim, as críticas da esquerda à esquerda (Lilla, a questão dos vários subgrupos) com uma tradicional crítica de direita às prestações sociais. A única excepção é a indicação de uma política social ambiciosa (elogiada neste livro) do mandato de Obama: o Affordable Care Act ("Obamacare").
De resto, é com base na importância do thymos em cada pessoa, da necessidade de reconhecimento da dignidade que cada um possui que Fukuyama rejeita um rendimento mínimo incondicional, ou seja, não seria bom/satisfatório/suficiente para as pessoas disporem de um rendimento incondicional, porque sempre continuariam a necessitar de um reconhecimento social (que adviria de um contributo que delas se esperaria/que elas quereriam dar).
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