sábado, 8 de dezembro de 2018

Politização da religião


[Preocupa-me] muito [mistura política-religião], até pela agenda conservadora promovida pelas igrejas evangélicas pentecostais. Se reparar, a Igreja Católica Brasileira sempre teve uma ala progressista muito forte, que se manifestou em defesa dos mais desfavorecidos, através das pastorais sociais: a Pastoral da Terra, a Pastoral Afro-brasileira, a Pastoral da Diversidade Sexual, a Pastoral da Juventude Rural, entre muitas outras. Mas nunca interveio politicamente, elegendo ou formando bancadas parlamentares. Com as igrejas evangélicas isso mudou e a ascensão de Bolsonaro levará ao poder muitos líderes evangélicos que pregam o ódio e a intolerância para com outras religiões, como Silas Mafaia. No limite, o meu medo é que o Brasil de Bolsonaro vire uma república militar teocrática e onde ficaremos dentro disso tudo? E o Estado laico?

Itamar Vieira Júnior, antropólogo brasileiro de 39 anos, vencedor do Prémio Leya (com a obra Torto Arado), entrevistado por João Moreira, para a Sábado, nº762, 6 a 12 de Dezembro de 2018, p.34.

P.S.: Itamar Júnior, nesta entrevista, aludiria ainda ao carácter performativo das palavras de violência de Bolsonaro ao longo da campanha eleitoral das recentes Presidenciais: "acho que a ascensão de Bolsonaro, sem qualquer alteração legislativa, já autoriza inúmeros tipos de violência, porque o discurso dele, ao longo de 30 anos, sempre foi um discurso de ódio contra as minorias". E acerca do seu livro vencedor do Prémio Leya: "Torto Arado fala sobre isso. Sobre uma população que vai permanecer na fazenda e que, em pleno século XXI, ainda está cativa, em regime de servidão, e que realmente tem uma necessidade de transgredir".

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