O grande mestre da vida é agora a televisão, mas o que é que ensina? Divertimento. Não é a leitura, a escrita ou o aprofundar dos temas. Claro que há gente magnífica e que aprofunda - não vamos subestimar a situação actual -, mas a grande massa está à superfície. É claro que ela pode despertar - nada de ilusões quanto a isso -, mas está pacificada. Hoje não é tanto a religião que a pacifica, mas o inimaginável divertimento que se dá aos jovens, mas não se dá muito aos mais pobres, a esses dá-se muito pouco. (...)
A Constituição é o instrumento orientador fundamental e creio que devemos ter plena consciência disso. Podemos melhorar - sobretudo no campo dos direitos humanos, das desigualdades e da miséria extrema que se vive em Portugal -, mas dêmo-nos por felizes, apesar de tudo, das contradições, dos escândalos de que a televisão é ávida para entreter. Eu que vivi uma vida revolucionária não sinto vontade em fazer uma revolução de maneira nenhuma. Sinto-me bem com o Portugal de hoje, com todas as contradições e diferenças. (...) É preciso tomarmos a palavra sempre que a injustiça nos bata à porta ou à dos outros. Tudo o que disse é tendo em conta o mundo. Não vivemos isolados, mas num universo extremamente contraditório, em que a violência atingiu limites extremos.
António Borges Coelho, "Eu não sou responsável pelo que os portugueses fizeram nos Descobrimentos", entrevistado por Ricardo Cabral Fernandes, I, 26-12-2018, pp.17-23.
P.S.: agora que Borges Coelho regista o desejo de completar o seu sétimo volume da História de Portugal, deixo as notas há três anos aqui sublinhadas a quando da publicação do tomo V, atinente à perda e restauração da independência nos séculos XVI/XVII.
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